Sangue e suor

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Raquel de Medeiros

O lutador Tiago Alves durante treino de MMA  

Madrugada de 8 de julho. Milhares de brasileiros aguardavam ansiosos pelo tão esperado embate entre Anderson Silva e Chael Sonnen no octógono de Las Vegas, nos Estados Unidos, pelo cinturão da categoria peso-médio do UFC 148 (Ultimate Fighting Championship). Mas quem assistiu na televisão à luta teve a impressão de que tudo aconteceu em um piscar de olhos. O norte-americano perdeu o equilíbrio ao tentar golpear nosso Spider e caiu sentado. Foi a oportunidade que Silva precisava para vencer a competição pela 15ª vez, com nocaute certeiro a menos de dois minutos do segundo round.

Tudo tão rápido e, aparentemente, simples. Mas não para os atletas. O dia da luta já começa cheio de adrenalina. “Não consigo comer muito nem dormir no resto do dia. Não diria que é nervosismo, mas uma ansiedade positiva para pisar na jaula”, diz Tiago Alves, lutador de MMA (do inglês Mixed Martial Arts) pela academia B9 MMA. Ainda em casa, ele deita um pouco para mentalizar tudo o que domina nas artes marciais, visualizando a vitória que está por vir.

No local do confronto, procura ficar em silêncio para que possa continuar concentrado. Enquanto as mãos do atleta enrolam a bandagem, a cabeça pensa em tudo de novo: os golpes, as técnicas, a vontade de vencer. Está chegando a hora de colocar em prática tudo o que foi aprendido. Tiago Alves está pronto para mais um embate. Ele caminha até a ‘jaula’. O cutman passa vaselina em seu rosto. Dentro do octógono, o lutador dá o famoso giro de 360 graus. O head coach diz algumas palavras de incentivo e tenta orientar os primeiros passos do atleta, que parece um pouco tenso. O coração está acelerado e é quase impossível parar quieto no lugar. “Procuro me movimentar para estar o tempo todo aquecido e ligado na luta.”

O juiz dá orientações e a disputa começa. Na pior das hipóteses, Tiago terá de enfrentar três rounds de cinco minutos cada. Isso se não conseguir nocautear o adversário antes. O coração acelerado, no entanto, bate feliz. Ouvir o público gritando seu nome o faz sentir-se mais forte. O octógono é sua casa. “Sinto uma felicidade imensa de ter chegado até ali. A cada passo, mais forte eu fico. Vejo apenas um oponente, sem rosto ou identidade, e isso me faz sentir uma força muito grande. Dali por diante, minha mente se abre para eu realizar tudo o que treinei e me preparei para fazer.”

VOLTA ÀS ORIGENS

O MMA consiste na união de diversas artes marciais, como jiu-jitsu, boxe, muay thai, entre outras. Curioso é saber que, apesar de o povo brasileiro estar se apaixonando pela modalidade somente agora, o precursor deste tipo de combate tem sangue verde-amarelo. Tudo começou com o paraense de Belém Carlos Gracie, que aprendeu técnicas de judô e as adaptou, criando o jiu-jitsu moderno. Onze anos mais novo, Hélio Gracie – irmão de Carlos – difundiu o jiu-jitsu e também os campeonatos onde as diversas modalidades eram misturadas e bem-vindas. Foi quando o filho de Hélio, Rorion, decidiu criar o Ultimate Fighting Championship, o tão falado UFC, a ser realizado dentro de um espaço oitavado, o octógono.

Por ironia, novamente a modalidade tornou-se famosa primeiro nos Estados Unidos para só depois de muitos anos contagiar os brasileiros. Pesquisa realizada recentemente pela consultoria Deloitte, com 700 entrevistados, mostrou que 16% deles acreditam que as artes marciais estarão entre os esportes do futuro.

Wagner Marinho Rodrigues Lemos, 31 anos, é um dos admiradores da modalidade. Ele admite que já foi trabalhar bem cansado por passar madrugadas assistindo às lutas. No entanto, não acredita que o MMA possa se tornar mais popular que o futebol, a paixão dos brasileiros. “Acho impossível, porque o futebol já está há muitos anos enraizado na nossa cultura, mas com certeza o MMA será mais visto a partir de agora e deixará de ser julgado como um esporte violento, comparado com brigas de rua, como já foi.”

LUTADOR ESTRELADO

Vitor Belfort, um dos nomes mais populares do UFC e que acaba de lançar o livro Lições de Garra, Fé e Sucesso – Vitor Belfort, diz que as principais características de um lutador devem ser determinação, respeito, foco e, é claro, muita vontade de vencer. Para ele, um dos maiores sacrifícios do atleta é ter de ficar longe da família em viagens pelo esporte. “Eles (filhos e mulher) sempre participaram de todos os momentos, treinamentos, viagens, de tudo. Agora, com as crianças crescendo, fica mais complicado conciliar, porque tem escola e os estudos vêm sempre em primeiro lugar”, diz.

Apesar de o Brasil ser grande celeiro de lutadores, Belfort acredita que o País necessita investir mais no esporte. “Precisamos de centros de excelência para treinamento e lapidação desses novos e futuros atletas”, sugere.

Danilo Dourado, responsável pela maior equipe de MMA de São Paulo, a B9 MMA, e ex-treinador do ex-campeão do UFC e Pride, Maurício Shogun, concorda com Belfort. Segundo Danilo, é por causa dessa lacuna que muitos atletas ainda preferem sair do País em busca de oportunidades melhores nos Estados Unidos e no Japão. “Aqui é difícil pagarem mais de R$ 12 mil por um embate, enquanto lá fora se luta por milhão.”

O manager Eduardo Alonso, responsável por administrar a carreira de importantes atletas, como Mauricio Shogun, Murilo Ninja Rua e Demian Maia, vê o mercado se movendo em caminho promissor, porém lentamente. “O Brasil hoje ocupa espaço de destaque, esportiva e economicamente também, já que Estados Unidos, Canadá, Brasil, Inglaterra e Japão estão sem a mesma força de antes. Mas há necessidade de se investir muito em infraestrutura básica, como aeroportos, rodoviárias, sistema viário em geral, hotelaria e arenas de qualidade para que possamos começar a abrigar grandes eventos.”

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