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Cabelo ruim fica bom na TV’

domingo, 5 de setembro de 2010 Envie para um(a) amigo(a) Imprimir Comentar

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Miriam Gimenes

A palavra clown, criada no século 16, era atribuída aos indivíduos desajeitados e engraçados. Para entreter a plateia eram dotados de humor sutil, com movimentos delicados, vestimentas comuns e toques extravagantes, ao melhor estilo Charles Chaplin. Foi essa magia irreverente que conquistou o ator, apresentador, humorista e locutor Marco Luque – que faz parte da trupe do CQC (Custe o Que Custar) e apresenta O Formigueiro, ambos na Band – e o fez deixar para trás a carreira de jogador de futebol. O que ele não imaginava é que os tais trejeitos desajeitados e engraçados fossem esquecidos e, anos depois, chegaria a receber o título de um dos 25 homens mais sexies do Brasil. “Cabelo ruim fica bom na TV“, brinca.

O fato é que Luque gosta mais de chamar a atenção com suas tiradas ácidas do que com os cachinhos pretos e a leve semelhança com o ator global Marcos Palmeira. “Nunca tive nem tenho vontade de ser galã.“ O intuito, desde garoto, quando fazia imitações em reuniões familiares e no colégio, é fazer rir e divertir a todos. Só que demorou um pouco para levar a sério essa veia cômica. Iniciou ainda jovem a carreira futebolística, profissionalizouse no time do Santo André, foi jogar na Espanha e só quando voltou passou a dedicar-se ao humor.

Venceu a timidez – sim, ele afirma que ainda sofre com isso –, virou pai de 12 personagens, conquistou a fama com mais de 30 anos e há pouco foi convidado para fazer o dominical O Formigueiro, onde acha que pode exercitar tudo que aprendeu ao longo da carreira. Luque, embora tenha a alma de um clown – sutil, desajeitada e engraçada –, também sabe falar de assuntos tórridos, como política, escândalos no mundo do futebol e diz que é um homem para casar. Beijo me liga é a frase que marca sua aparição na tv.

PENDUROU AS CHUTEIRAS


Luque sempre teve facilidade com futebol. Juntou a habilidade ao fato de o pai ser árbitro e achou que seria a carreira ideal. O atacante profissionalizou-se no Ramalhão e carimbou o passaporte para a Espanha. Lá atuou por um ano no Badajoz e no Numancia. Antes de ir para a Europa, trancou a matrícula na faculdade de Artes Plásticas, uma de suas paixões. “Como não tinha fechado contrato interessante (na Espanha) que valesse a pena perder minha faculdade, voltei para terminar“, lembra. A opção fez com que a carreira dos gramados se tornasse coisa do passado.

Para se sustentar, começou a trabalhar como garçom em eventos paulistanos. Foi quando conheceu a arte do clown e se apaixonou. Aproximou-se de outros atores – Luque fazia teatro desde criança – e formou a Companhia dos Ícones, que existe até hoje.

Os convites começaram a surgir à medida que os espetáculos eram apresentados. O humorista participou de outros grupos e exibiu-se em bar, onde desenvolveu três de seus  personagens: Silas Simplesmente (taxista que dirige para celebridades), Mary Help (empregada doméstica) e Charles Charlaton (mágico que não sabe fazer mágica, mas tem um ego e tanto). O objetivo? Integrar o Terça Insana, projeto humorístico de sucesso criado em 2001 pela atriz Grace Gianoukas.

Luque não estava errado. Com os personagens e a quantidade de apresentações que passou a fazer em São Paulo ganhou visibilidade e foi convidado para participar do grupo, onde trabalhou por três anos. Neste período foi entrevistado por Jô Soares e tornou-se conhecido nacionalmente.

O que ele não imaginava era que o Terça Insana – que na sua cabeça era o auge do humorístico que poderia alcançar – seria o trampolim para chegar à televisão. Em uma das apresentações, o gerente de conteúdo da produtora Cuatro Cabezas, o argentino Diego Barredo, o convidou para fazer parte dos homens de preto do CQC. Daí para frente, não há quem não saiba de sua trajetória.

O MUNDO DO FUTEBOL

Questionado sobre polêmicas envolvendo jogadores de futebol – como foi o caso do goleiro do Flamengo Bruno, suspeito de matar a amante Eliza Samudio –, Luque acredita que um profissional perde a cabeça por causa do enriquecimento rápido. “Amadurecimento é fundamental para o cara levar e manter o sucesso. Muitos meninos são  colocados em pedestal de reis. Assim como a gente vê na história da humanidade, todos os reis se achavam: Ele é o rei, o cara põe leis“, analisa, sem citar nomes.

Muitos pensam que a amizade do humorista com Ronaldo Fenômeno vem da época em que Luque frequentava os gramados. Ledo engano. Quem na verdade chegou ao  humorista foi o próprio craque, durante show que a popstar Madonna fez em São Paulo em 2008. “Chegaram em mim e falaram: ‘o Ronaldo quer te conhecer’. Ele disse que gostava do Jackson Five, personagem que tenho na Rádio Mix (motoboy). A partir daí a gente mantem contato.“


FILHOS QUERIDOS

Os personagens são tratados como filhos por Luque. Mais do que criações, são escudos que ele utiliza para driblar a timidez. “Prefiro muito mais fazer um personagem em que posso me esconder. Brinco de ser outra pessoa“, revela, dizendo que os disfarces sempre o fascinaram, desde criança. Um de seus maiores sonhos era ter a maleta igual a de James Bond, com dezenas de indumentárias.

O seu preferido é o mesmo que conquistou Ronaldo, o Jackson Five, o cachorro louco. Embora a classe dos motoboys seja preterida pelos paulistanos, Luque faz questão de defendê-la. “No fundo, no fundo é uma invejinha porque eles passam por nós enquanto ficamos presos no trânsito“, alfineta. Além deste, o humorista também criou Pepe (que fala de relacionamentos), Esquerdinha (jogador de futebol aposentado), Betonera (monitor de acampamento, profissão também exercida por Luque), entre outros.

Os filhos não fazem parte, no entanto, do espetáculo Tamo Junto, que o humorista faz no Teatro Shopping Frei Caneca. É uma vertente da comédia stand-up, estilo que o  humorista teve de desenvolver. “Foi difícil para mim. Com o stand-up você não pode ter personagens, fazer figurino ou ter cenário. É uma exposição maior“, analisa.

Luque. Ele se deu bem: shows lotados e sessão extra. O espetáculo foi eleito pelo público como melhor comédia stand-up de 2009 do País.


O LADO SÉRIO

Para o apresentador, que também sabe falar de assunto sério, apenas o senador Eduardo Suplicy (PT) se salva no Congresso. Para ele, o CQC ajudou a mostrar a política aos jovens. “Na minha adolescência, onde eu ia prestar atenção em política? Parecia que estava falando palavrão. Todo mundo sabia que os caras estavam roubando. Agora a gente está indo lá e botando o dedo: ‘você tá roubando e aí vai continuar?’ Os caras estão incomodados.“

O fato de ter sido eleito um dos homens mais sexies do Brasil não chama a sua atenção. Mas ele admite ser um pouco vaidoso. “Não ao ponto de fazer sobrancelha, unhas, essas coisas, não! Mas gosto de me cuidar e praticar esporte.“ Entre os preferidos está, é claro, o futebol semanal. “O esporte traz saúde para o corpo e a arte, saúde para a mente“, acrescenta.

Luque é um dos preferidos das mulheres na trupe do CQC. Já namorou com algumas famosas – a última foi a cantora Luisa Possi, mas também foi casado por três anos com a atriz Mara Carvalho (ex Antônio Fagundes) –, porém não gosta de falar da vida pessoal. “É ruim quando assuntos pessoais viram públicos, pode atrapalhar“, justifica,  acrescentando que é caseiro e tem o sonho de ser pai. “Acho que vou ser um ótimo pai. Criança e bicho gostam de mim, acho que é um bom sinal.“ Ironia do destino ou não, dias depois desta entrevista a namorada de Luque, Flávia Vitorino, anunciou que está grávida.

 

Ainda falta tempo

Com a agenda cheia, sobra pouco tempo para exercitar a formação em artes plásticas. “Não me acho artista plástico. Só depois que fizer uma exposição posso me considerar“, diz, acrescentando que em seus planos está a montagem de um ateliê. Por hora, sua atenção está voltada para o desafio do programa dominical. Admite ter sentido friozinho na barriga pelo fato de ter de assumir sozinho a apresentação de O Formigueiro, onde divide o palco com duas formigas, a Tana e a Jura, e faz brincadeiras com os convidados da semana. “Minha missão é divertir, levar alegria para as pessoas, fazer darem risada. Esse projeto é mais um onde posso concretizar isso.“ Para ele, tudo o que executou na vida – até mesmo ser monitor de acampamento – foi uma preparação para assumir esse papel.


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