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A mais antiga das línguas

domingo, 5 de setembro de 2010 Envie para um(a) amigo(a) Imprimir Comentar

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Heloisa Cestari

Para o psicanalista Carl Jung, “a arte é a expressão mais pura que há do inconsciente de cada um”. No dicionário Houaiss, essa pequena palavra apresenta mais de 20 definições, que vão desde trabalhos manuais e rafes publicitárias até a habilidade de enganar alguém. Fato é que, antes mesmo de inventar a escrita, o homem já recorria a manifestações artísticas para expressar emoções, revelar outro mundo sob sua ótica e até controlar a realidade com toques de magia.

Na pré-história, caçadores desenhavam animais em rocha na esperança de aprisionar as feras. No Egito, faraós ganhavam atributos divinos em belíssimos templos funerários. Na Grécia Antiga, o culto ao belo eleva a arte aos limites da perfeição, assim como o renascimento na Idade Moderna, que volta a exaltar o humanismo em oposição ao culto do sobrenatural que imperou na Idade Média.

Até que o homem contemporâneo percebeu que a arte poderia ir muito além da mera reprodução fiel dos fatos. Nasciam as correntes impressionistas, cubistas, futuristas, dadaístas, abstratas, surreais e por aí afora.

À medida que a raça humana evoluía, sua arte se transformava, incorporando novos conceitos de beleza e outro sentido à vida do artista.

No Brasil, movimentos artísticos não só refletiram como impulsionaram grandes acontecimentos da história, a exemplo da influência do iluminismo para a queda da monarquia e do papel que a música de protesto desempenhou na luta contra a ditadura a partir dos anos 1960.

Para horror dos acadêmicos, a Semana de Arte Moderna, em 1922, apresentava uma nova proposta estética – a mesma que seria tripudiada por Hitler duas décadas mais tarde, durante a Segunda Guerra. O líder dos nazistas, aliás, chegou a ganhar a vida com desenhos e apreciava muito a arte greco-romana, música erudita e arquitetura.

Mas, afinal, que sentimento é esse que levou Beethoven (1770- 1827) a compor sinfonias sem ouvilas; Christy Brown (1932-1981) a pintar e escrever livros só usando o pé esquerdo; e o brasileiro João Carlos Martins a superar uma série de lesões nas mãos pela insistência em tocar piano, sua grande paixão?

Pesquisadores europeus garantem ter encontrado a resposta. Estudo realizado com 50 mil pessoas na Universidade de Ciência e Tecnologia da Noruega aponta que artistas  são mais felizes porque o envolvimento com artes e cultura eleva os índices de saúde mental. Entre homens, especificamente, há uma redução nas taxas de depressão.

Outras experiências científicas confirmam o poder terapêutico da música. Pacientes que acabam de ouvir Mozart, por exemplo, se saem melhor em testes de raciocínio. O neurologista Oliver Sacks cita um deficiente mental que só conseguia desempenhar tarefas se ouvisse música. O ritmo mozartiano, segundo alguns pesquisadores, interfere positivamente na forma como os neurônios se comunicam, embora ninguém saiba exatamente a razão de tal fenômeno. Suas composições têm sido tocadas até em shopping centers europeus para afastar adolescentes ociosos...

E o bem-estar proporcionado pela arte não é privilégio humano. O botânico búlgaro Losavov percebeu que folhagens ficavam mais verdejantes quando expostas à música clássica orquestrada. Decidiu, então, fazer testes em animais e descobriu que as vacas produzem mais leite, e de melhor qualidade, quando ordenhadas ao som de sinfonias lentas. Também aumentam a produção quando atores encenam peças de Shakespeare no pasto.

Se faz bem para mente e espírito, a arte pode proporcionar ainda mais benefícios ao físico. São as terapias artísticas, que lançam mão da música, da pintura, da poesia, da dança e até da dramaturgia para restabelecer a saúde, tratar distúrbios psíquicos e resgatar a dignidade social em comunidades carentes.

Nas páginas a seguir você conhecerá histórias de pessoas que, por meio da arte, superaram deficiências, venceram medos, atingiram êxito profissional, recuperaram a autoestima e deram vazão a sentimentos que jamais conseguiriam expressar com palavras. E descobrirá que, ao mesmo tempo em que a vida inspira a arte, a arte pode transformar vidas.

Cidade do sol

Heliópolis, 27 de agosto. O sol implacável parece derreter barracos e desafiar os nervos dos 125 mil habitantes da segunda maior favela do Brasil. Em meio à mistura caótica de concreto, gente e calor, um espaço desponta como oásis, refresco para os mais de 60 mil jovens e crianças que convivem de perto com a criminalidade e trazem a alma sedenta de uma oportunidade: o Instituto Baccarelli, criado em 1996 depois que um incêndio reduziu a pó grande parte das moradias e comoveu o maestro Sílvio, que empresta o sobrenome à entidade.

Sensibilizado com a luta das famílias para se reerguer das cinzas, Sílvio Baccarelli dirigiu-se a uma escola pública da região e sugeriu iniciar o ensino de instrumentos de orquestra para crianças e adolescentes. Não demorou muito para 36 garotos começarem a dedilhar violinos, violas, violoncelos e contrabaixos no auditório do regente na Vila Mariana.

A iniciativa ecoou por vários cantos, conquistou o apoio de empresários e ganhou sede na própria Heliópolis. Hoje, o instituto leva a música a 550 jovens em situação de vulnerabilidade social, com idades entre 7 e 25 anos.

Tayanne Sepúlveda, 16, é um deles. Aos 11, a garota ingressou no Coral da Gente, e hoje leva a trompa aonde for. “Até quando viajo eu a levo comigo. Se a deixo em casa, fico preocupada que quebrem, roubem, deixem ela cair no chão, não consigo ficar sossegada.”

Seu apego pelo instrumento nem sempre foi assim. No início, Tayanne só gostava do coral – porta de entrada para a maioria dos jovens. Até que uma tragédia em família a levou a buscar alento na música instrumental. Em Cidade do sol 2006, sua mãe, Tânia, sofreu acidente. “Os médicos disseram que ela só tinha 3% de chance de sobreviver”, lembra a garota, que passou a cuidar da casa e das duas irmãs mais novas enquanto a mãe permanecia internada. Nas horas livres, corria ao instituto para refugiar-se do clima pesado em casa e aliviar a própria angustia. Como fiel companheira, a trompa.

No início, seus pais não viam o amor ao instrumento com bons olhos. “Eu já estava em idade de trabalhar e eles achavam que a orquestra não dava futuro.” Suas opiniões só mudaram quando a menina passou a ganhar cachê, de R$ 100 por mês. E não pensou duas vezes: com o primeiro salário, deu entrada para a compra de uma trompa, avaliada em R$ 1.000. Não demorou muito para galgar espaço na orquestra, multiplicar o ganho – hoje, ela recebe R$ 450 – e provar à família que a música também pode ser profissão.

Dia 29, ela e os demais 74 integrantes da Sinfônica de Heliópolis embarcam para a Alemanha para participar do renomado Festival de Beethoven, em Boon. Será a primeira viagem internacional de Tayanne: “O mais longe que já estive foi a terra do meu pai, no Piauí.”

No dia em que a Dia-a-Dia Revista visitou Heliópolis, o maestro Roberto Tibiriçá ensaiava com o grupo uma sinfonia inédita que promete emocionar a plateia alemã. Composta pelo aclamado instrumentista da nova geração André Mehmari, 33, sob encomenda do canal de TV alemão Deutsche Welle, que transmitirá a apresentação dos jovens de  Heliópolis a toda a Europa, a sinfonia Cidade do Sol envolve uma série de coincidências.

Quando Mehmari recebeu o convite, descobriu que há duas obras de Franz Schubert, chamadas Aus Heliopolis, cujos textos, de Johann Mayrhofer, parecem ter sido feitos especialmente para a ocasião. Nos primeiros versos em alemão (Im kalten, rauhen Norden...), o poeta diz que, lá no frio e áspero Norte, ouviu dizer que havia no Sul uma Cidade do Sol (heliopolis, em grego), onde há wonne (alegria) e leben (vida). Foram justamente esses os ingredientes que inspiraram Mehmari a compor uma sinfonia cheia  de brasilidade da noite para o dia; que levaram os jovens de Heliópolis tão longe e que prometem esquentar o outono germânico a partir do dia 4 com a calorosidade e alegria brasileiras.


Música nos hospitais

Além de inserir jovens na sociedade, a música ajuda a recuperar doentes. É o que garante o médico e também maestro Samir Rahme. À frente do programa Música nos  Hospitais, promovido pela Associação Paulista de Medicina, ele percorre corredores e adentra quartos de pacientes tocando acordes familiares de obras de grandes nomes da música barroca, romântica ou clássica, sem esquecer de compositores contemporâneos brasileiros e estrangeiros.

A ideia é popularizar a música instrumental, valorizar novos musicistas e, de quebra, beneficiar o tratamento dos enfermos, reduzindo o tempo de internação. A Orquestra do Limiar é composta por 14 jovens que, com entusiasmo, contagiam pacientes, funcionários e familiares.

Além da Capital, o grupo já se apresentou em Santo André, Ribeirão Preto e Sorocaba. As próximas ‘canjas’ serão no Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia (dia 22) e no Hospital São Paulo (6 de outubro).

“É uma contribuição para a humanização dos hospitais, levando um momento de descontração e vivência musical, além de colaborar para o incremento da ação cultural em nosso País”, diz Rahme.

Até o momento, o projeto beneficiou mais de 20 mil pessoas em diversas instituições hospitalares, como os hospitais do Coração, das Clínicas, InCor e o Hospital Mário Covas, em Santo André.

A arte de sorrir

A música mudou sua vida, e a vida mudou sua forma de fazer música. Depois de passar por uma série de lesões nas mãos que o afastaram várias vezes do piano, João Carlos Martins reinventou-se como maestro, abraçou causas sociais e hoje, aos 70 anos, se diz feliz por ainda conseguir reproduzir clássicos ao piano, com a maestria de sempre, utilizando apenas três dedos.

Incapaz de segurar a batuta ou virar as páginas das partituras dos concertos, ele memoriza nota por nota e emociona a plateia com a sublime interpretação das obras de Bach e com o seu exemplo de superação por amor à arte. “Minha dificuldade (ao piano) é brutal. Mas, para mim, cada nota tem um valor. Toco agradecendo a Deus por poder usar o meu polegar, porque não sei até quando poderei usá-lo.”

O que agora é motivo de gratidão, no passado despertou grande frustração. Quando recebeu o primeiro diagnóstico de lesão no nervo da mão direita, com decorrente perda dos movimentos, aos 26 anos, Martins achou que sua trajetória como pianista havia acabado. “Não tinha maturidade suficiente e acabei me afastando da música. Hoje minha luta é uma progressão geométrica para compensar os anos que perdi.”

O resultado soa como sinfonia aos ouvidos. Além de criar novas formas de reger e tocar para se adaptar à falta de movimentos, o maestro recorre à música para promover a inclusão social. “Estou procurando democratizá- la cada vez mais para alcançar em todos os segmentos da sociedade o amor pela música clássica, principalmente em comunidades carentes.”

O projeto sob sua batuta beneficia cerca de 1.200 crianças em São Paulo, Minas Gerais e no Espírito Santo. E ele quer mais: “Meu plano é formar, nos próximos dez anos, 100 orquestras de 35 integrantes”. Para garimpar esses futuros talentos, precisa selecionar, num universo de 350 mil crianças, 3.500 que se disponham a estudar música três horas por dia. E comemora a iniciativa do governo federal de incluir a disciplina na grade escolar a partir do ano que vem, apesar da falta de professores qualificados para a demanda. “Se tivermos música nas escolas, a criminalidade certamente cairá no Brasil.”

O resultado de sua dedicação já começa a aparecer. Dia 19, os jovens da Orquestra Filarmônica Bachiana Sesi SP farão concerto no Avery Fisher Hall, em Nova York (Estados Unidos), com regência de Martins e participação do pianista Arthur Moreira Lima. E no próximo Carnaval sua história será contada pela escola de samba Vai-Vai, com o enredo A Música Venceu.

Catarse psíquica


Louco, esquizofrênico, demente sifilítico, psicótico epileptóide de fundo hereditário. Diagnósticos não faltaram na tentativa de explicar o estado psíquico do gênio das paletas Vincent Van Gogh (1853-1890), que chegou a cortar a própria orelha e morreu aos 37 anos após desferir tiro contra o peito. A maior expressão de seu amor e tormentos íntimos, no entanto, não se revelava nas conversas de bar nem nas constantes cartas que escrevia para o irmão Theo, e sim nas mais de 800 telas pintadas a óleo freneticamente no intervalo de apenas dez anos. São elas que refletiam o estado de sua mente atormentada e lhe permitiam dar vazão ao que sentia, ajudando-o a controlar a própria loucura.

Embora a arte exista desde a Pré-História, sua utilização na psiquiatria como recurso terapêutico só ocorreu no início do século 19, incentivada pelo médico alemão Johann Cristian Reil (1759-1813), contemporâneo de Pinel. Em 1876, o psiquiatra Max Simon analisou pinturas de pacientes e as classifcou de acordo com as patologias que eles  apresentavam. Na mesma época, outros médicos europeus se interessaram pelas expressões artísticas dos doentes, dentre eles Morselli, Júlio Dantas e Fusac.

Surgia a arteterapia, que, segundo o suíço Carl Jung (1875-1961), fundador da psicologia analítica, permite que o paciente transforme a energia psíquica em imagens e,  através de símbolos, coloque para fora os conteúdos mais internos e profundos do inconsciente. “Arte é a liberdade de expressão, é sensibilidade, criatividade, é vida”, declarou Jung em 1920.

Uma década antes, Sigmund Freud (1856-1939), estudando o quadro A Cartarse psíquica Virgem e o Menino com Santa Ana, do enigmático Leonardo Da Vinci (1452-1519),  afirmou que o pintor havia representado questões relativas à infância e à própria personalidade. Em 1913, foi além: analisou a escultura Moisés, de Michelangelo, e interpretou que a cólera expressa no rosto da estátua revelava o conturbado relacionamento que o artista mantinha com o papa da época.

Conjecturas à parte, fato é que a arteterapia – reconhecida como profissão nos Estados Unidos desde 1969 – já é aplicada em várias instituições psiquiátricas com resultados surpreendentes. O policial militar Richard e o engenheiro químico Sérgio (nomes fictícios) conhecem bem seus benefícios.

Internado há 20 dias no Centro de Tratamento Bezerra de Menezes, em São Bernardo, após pico de estresse seguido de surto místico, Richard restabeleceu o equilíbrio pintando portaretratos e costurando. “Trabalhava muito com droga, favela, trocava tiros. Fiquei muito brutalizado. Os médicos dizem que entrei em delírio místico: me apeguei muito a Deus, entrei na igreja e não queria mais sair de lá. Quando me troxeram para cá, recuperei o equilíbrio através da arte. Ela aflorou o meu retorno à vida. Comecei a costurar, fiz uma bolsa para a minha esposa e me redescobri em coisas pequenas que eu nunca mais tive tempo de fazer. Também passei a dizer coisas que antes eu não  falava à minha mulher e à minha mãe, como eu te amo”, conta o policial, que surpreendeu o filho, de 9 anos, na primeira visita ao hospital. “Ele viu que eu estava mudado e disse: ‘Pai, você está mais bonito’. Quando sair daqui quero comprar um fogão novo para fazer cookies com ele. Deixar ele pôr a mão na massa, que é muito gostoso”, disse enquanto tirava do bolso a receita do biscoito.

Sérgio, por sua vez, encontrou na pintura em cerâmica o alento para as frequentes crises de transtorno bipolar. “Eu me vi enxergando o mundo quando pintei uma caneca, porque eu fazia cerâmica quando tinha 14 anos. Você percebe que está ficando melhor quando começa a praticar a arte. A mente é muito voltada para coisas ruins e, quando começa a se concentrar na arte, você resgata aquela sensação boa, de quando era criança.”

A arte também fez com que Richard e Sérgio se tornassem amigos. “A gente brinca que ele é o Victor Valentim e eu sou o Jack Le Clair, porque ele costura e eu faço pintura. Então, a gente fica tirando sarro um do outro. Diria que o melhor caminho para a cura é quando você começa a dar risada de si mesmo, porque é sinal de que a vida voltou a ter graça, deixou de ser cinza e passou a ser colorida”, conclui Sérgio.

Para a arteterapeuta do centro de tratamento, Elizabete de Fátima Schmitz, o significado da brincadeira com agulhas é ainda mais amplo: “Quando você trabalha com linhas, fios, é como se estivesse religando a sua vida.”

A terapeuta ocupacional da instituição, Carolina Nazatto Zambon, ressalta que as atividades propostas – coral, jardinagem, marcenaria e rádio – não são mera ocupação, mas  um fazer artístico que envolve consciente e inconsciente, externo e interno, fazendo com que a pessoa em sofrimento psíquico se enxergue, se reconheça e consiga reconstruir sua história de vida. “A gente percebe, pela arte deles, o que precisa ser trabalhado e comunica o psicólogo para que haja essa troca, que enriquece muito. Muitas vezes, o  paciente tem dificuldade para falar o que está sentindo,porque é algo que ainda machuca muito. E quando dá plasticidade para esse sentimento, consegue olhar para ele de outra forma, mais tranquila, menos dolorida.”

De acordo com a representante do Conselho Diretor da Aatesp (Associação de Arteterapia do Estado de São Paulo), Maíra Bonafé Sei, a Ubaat (União Brasileira de Associações de Arteterapia) está organizando documentação para buscar o reconhecimento formal da arteterapia enquanto profissão.

No momento, a formação se dá por meio de cursos de especialização que acolhem profissionais de áreas diversas, como arte, educação e saúde. “A atividade teve início no País a partir da interlocução entre arte e psiquiatria feita por Osorio Cesar – psiquiatra e crítico de arte, por meio da contemplação de trabalhos produzidos no Hospital do Juqueri, em Franco da Rocha, na década de 1920. E nos anos 1940, tem-se os trabalhos da psiquiatra Nise da Silveira no Rio de Janeiro”, diz Maíra, lembrando que nos dias 8 a 11 de outubro, a Unip Vergueiro, em São Paulo, sediará o 9º Congresso Brasileiro de Arteterapia, que contará com a participação da especialista alemã Doris Titze.

É importante ressaltar, no entanto, que não são os transtornos psíquicos que fazem o artista. No clássico caso de Van Gogh, a genialidade já estava latente. Não à toa, embora  pouco valorizadas quando vivo, suas obras conferiram novo rumo à história da arte, e se tornaram preciosas. A tela O Dr. Gachet, por exemplo, foi vendida em 1990 por US$ 82 milhões, valor recorde até então.

Um cavalo sem nome

De poeta e louco, todo mundo tem um pouco. Mas no caso do novo escritor Milton Roberto Gonçalves, 48 anos, a literatura falou mais alto. Mês passado, ele lançou seu primeiro livro, Um Cavalo Sem Nome (Editora Décor, 108 páginas, R$ 20), com prestígio de autor experiente. “Eu me senti ‘poderoso’ dando autógrafos, juntando tanta gente, mas não gosto que as coisas que faço subam à cabeça e dei um jeito ali mesmo de baixar a bola.”

Mais do que um romance, a publicação simboliza uma vitória. Na adolescência, apaixonado por uma colega de classe sem ser correspondido, Milton começou a ouvir vozes.  Dois anos depois, pediu à mãe para ir ao médico e acabou recebendo do psiquiatra o diagnóstico de esquizofrenia. A essa sentença seguiu-se a primeira de nove internações, algumas em condições humilhantes. Sua vida começou a mudar em 2008, quando passou pelo Caps (Centro de Atenção Psicossocial) – instituição que busca a inserção social em substituição aos antigos manicômios – e decidiu passar para o papel um pouco de suas experiências com os fantasmas das desordens mentais. “A história veio do coração. É como se eu pedisse desculpas à Regina, que foi minha primeira paixão”, diz Milton, que viu na literatura não só uma forma de expressão como de ganhar dinheiro.

“A arte, seja ela de que tipo for, leva pessoas em sofrimento psíquico a melhoras sensíveis. Pelo menos, acho que no meu caso foi assim. E como não consigo trabalhar feito uma pessoa ‘normal’, ou seja, entrar no escritório às 8h e sair às 18h, com uma hora de almoço, a escrita foi um meio de eu ganhar a vida honestamente, além de servir para contemplar o belo. Acho isso imprescindível em minha vida.”

Quando a paixão escraviza

Se por um lado a arte liberta emoções, por outro pode reduzir o artista a mero escravo do pragmatismo. É o que retrata a bailarina norte-americana Gelsey Kirkland na  autobiografia Dancing On My Grave (Dançando em Meu Túmulo), de 1986. Solista da New York City Ballet e parceira do russo Mikhail Baryshnikov nos palcos, ela denuncia no livro a fábrica da arte, que exige movimentos impecáveis e transforma o conto de fadas das bailarinas em calvário perigoso, liderado por diretores e coreógrafos “carrascos” que preterem a saúde das dançarinas na busca incessante do passo perfeito. Resultado? Gelsey ficou anoréxica, viciada em cocaína, depressão e mutilou o corpo em diversas  cirurgias plásticas. Acabou tendo um colapso devido à exaustão nervosa e a uma deficiência de potássio. Foi obrigada a parar de dançar.

Casos como esse são mais comuns do que se imagina. De acordo com a pedagoga Isabel Marques, pioneira no Brasil na sistematização e pesquisa de ensino de dança e autora do livro Linguagem da Dança: Arte e Ensino (Editora Digitexto, 250 páginas, R$ 35), a arte deve ser funcional e expressiva. Caso contrário, frustra o potencial artístico da pessoa com padrões que não se adequam aos seus. “Somos analfabetos funcionais em dança. Você aprende o passo assim como aprende a ler, mas não sabe o que isso quer dizer, não se permite a leitura crítica do mundo. Aprender sequências não é dançar, é reproduzir dança”, argumenta Isabel, que defende o ensino da expressão corporal em escolas públicas como forma de explorar as possibilidades de cada um. “A dança serve para eu mostrar como leio o mundo com o referencial do corpo. Por isso,  dependendo de como for ensinada, não será transformadora.”

Como exemplo, Isabel cita uma professora que, na adolescência, foi tirada do balé porque seu estereótipo não se adequava aos padrões. Estava acima do peso. Até que se redescobriu na dança. “Ela incorporou a dança de forma genuína na escola pública. Não tem a técnica, mas faz a dança aflorar dentro do corpo de cada um”, completa a  pedagoga, que fez sucesso em Ribeirão Pires com o espetáculo interativo Ares Familiares.

Arte em florença

Pensou em arte, lembrou de Florença. Considerada – ao lado da região de Flandres – o foco artístico das inovações pictóricas que prenunciaram o Renascimento, a capital da Toscana, na Itália, inebria os amantes das artes visuais com afrescos de Raphael, esculturas de Michelangelo e obras assinadas por mestres do quilate de Leonardo Da Vinci, Giotto, Botticelli e Donatello. Uma autêntica galeria de arte a céu aberto. No campo da poesia, Firenze (como é chamada pelos italianos) também tornou-se célebre por ser a cidade natal de Dante Alighieri, autor da Divina Comédia, marco da literatura universal.

O excesso de beleza que transborda das ruas, praças e construções florentinas, no entanto, também pode incomodar. Trata-se da Síndrome de Stendhal, diagnosticada na década de 1970 pela doutora Graziella Magherini, ex-chefe do departamento de psiquiatria do hospital florentino Santa Maria Nuova. Os sintomas são confusão mental, taquicardia e vertigens.

O primeiro a sofrer deste mal foi o escritor francês Stendhal, que sentiu tonturas e quase desmaiou ao entrar na Basílica de Santa Croce em 1817. “Eu estava numa espécie de êxtase. Tudo falava tão vivamente à minha alma. Tive palpitações. A vida se esvaía de mim. Eu caminhava com medo de cair”, escreveu ele no livro Roma, Nápoles e Florença. Também, pudera: além de afrescos de Giotto, a igreja guarda os restos de ninguém menos que Michelangelo, Maquiavel e Galileu Galilei.

De qualquer forma, o sintoma pode ser facilmente combatido. Basta evitar a overdose de beleza intercalando as visitas a museus, igrejas e galerias de arte com passeios sem compromisso pelas ruas, restaurantes e mercados de Florença. Boa viagem!

Enigmas da arte


Símbolos enigmáticos, mensagens codificadas, sons inaudíveis, escritas invertidas e monumentos milenares – como as pirâmides do Egito, os megalitos de Stonehenge  (Inglaterra), as esculturas da Ilha de Páscoa e os quilométricos desenhos de Nazca, no Peru – desafiam a compreensão de estudiosos e levantam a discussão sobre os enigmas escondidos por trás de importantes obras de arte.

Em 2003, o livro O Código Da Vinci, do norte-americano Dan Brown, arrastou milhares de leitores ao Museu do Louvre e a outros pontos turísticos da França e Inglaterra em busca de respostas para os mistérios apontados no best-seller envolvendo ordens religiosas, a sociedade secreta do Priorado de Sião e obras-primas de Leonardo Da Vinci (1452-1519). Embora o próprio autor o definisse como ficção, o livro virou febre e tornou-se o 11º mais vendido do mundo, com 80 milhões de cópias. “As histórias do ficcionista  Dan Brown são sensacionalistas e trazem muitos erros crassos”, opina o mestre e doutor em Ciências da Educação Flávio Calazans, autor do livro Propaganda Subliminar Multimídia, da Summus Editorial SP.

Polêmicas à parte, Da Vinci sempre gostou mesmo de brincar com os sentidos e instigar o mistério. Uma de suas obras ficou famosa por trazer a frase No dia de Santa Maria das Neves, 5 de agosto de 1573 inscrita de forma invertida na parte superior da tela. Da Vinci era canhoto e escrevia da direita para a esquerda, de modo que seus textos precisavam ser lidos com o auxílio de um espelho. Para ele, o desafio da arte era evocar o mistério da natureza oculta na realidade. E não faltam obras suas que dão margem a múltiplas interpretações por parte de cientistas, historiadores, místicos e estudiosos da arte. O enigmático sorriso da Monalisa que o diga. Há quem garanta ter descoberto  figuras ocultas até no quadro A Última Ceia.

E o gênio italiano não foi o único a utilizar-se de recursos visuais para mandar mensagens direto ao inconsciente. “Pintores como Salvador Dali inserem imagens dentro de imagens. Ao seguir uma lei de percepção figura-fundo, uma das imagens torna-se não percebida pelo consciente, ou seja, é subliminar”, afirma Calazans.

Por definição, subliminares são as mensagens que nos são enviadas dissimuladamente, ocultas, abaixo dos limites da nossa percepção consciente, e que vão influenciar nossas escolhas e atitudes. Em seu livro, Calazans mostra que a mensagem subliminar está presente em cartazes, filmes, histórias em quadrinhos, construções e até em desenhos animados aparentemente inocentes. “A arquitetura gótica, por exemplo, foi projetada para ser ‘Bíblia de pedra’ e doutrinar subliminarmente uma população medieval analfabeta.”

Em 1997, a tecnologia subliminartaquicoscópica aplicada em um dos episódios do desenho Pokemon levou mais de 700 pessoas aos pronto-socorros de Tóquio, no Japão, com sintomas de epilepsia fotossensível. Dois anos depois, a Disney admitiu pela primeira vez ter identificado a imagem subliminar de uma mulher com seios à mostra em passagem do desenho animado Bernardo e Bianca. E na campanha presidencial norte-americana de 2000, Bush foi acusado de manipular a opinião pública colocando um frame (imagem rápida, imperceptível aos olhos) com a palavra rats (ratos) sobre a foto do adversário Al Gore em sua propaganda eleitoral.

No campo da música, Calazans garante que não existem mensagens satânicas com fala invertida, como sugerem alguns ‘entusiastas’ de Judas Priest, The Eagles, Beatles e até Xuxa. Mas diz haver sons inaudíveis que podem desencadear reações inconscientes. W.B.Key, no livro Media Sexploitation, descreve subliminares sonoros responsáveis pelo sucesso do filme O Exorcista. Entre eles os imperceptíveis sons de gritos de porcos sendo degolados e de um enxame de abelhas furiosas, zunindo em 16 frequencias mixadas, para incitar o medo antes das cenas de tensão.

Também há casos em que o artista pode expressar mensagens subliminares sem saber. “Eu mesmo fiz uma ilustração que depois descobri conter dois símbolos  subliminares relacionados ao tema história em quadrinhos. Leonardo Da Vinci cita esse fenômeno espontâneo involuntário no seu livro Tratado da Pintura”, diz Calazans.

O recém-lançado livro Os 50 Maiores Mitos Populares da Psicologia (Editora Gente, 400 páginas, R$ 49,90), no entanto, refuta a eficácia das mensagens subliminares em  comerciais e recorre ao colunista da revista Advertising Age, Bob Garfield, para resumir a questão: “Ninguém se importa com ela (mensagem subliminar) porque já é bem difícil impressionar as pessoas chamando a sua atenção com imagens claras e explícitas”.


Comentários

geovana
28/09/2010
oi eu quero pesquisa sobre a vida e obras dos artista que prenunciaram o resnacimento como:ambrigiotto bondone (1267-1339)an vaerck(1390-1441

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