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| Lica de Oliveira já passeou pelas quadras até chegar aos estúdios da TV, como apresentadora e atriz. Foto: Vera Jordan |
Uma estudante de jornalismo vai à Rede Globo fazer trabalho sobre Comunicação Comparada. Para tanto, acompanha os bastidores do jornal RJTV e, em meio às entrevistas com profissionais, o telefone da redação toca. “É para você”, diz um rapaz. A aspirante a jornalista se assusta, mas atende. Nasceu aí, precisamente em 1996, a oportunidade da ex-jogadora de vôlei Lica Oliveira – que participou de duas Olimpíadas – aparecer na telinha da tv. Embora o trabalho não tenha sido de imediato, a ex-musa da Praia de Ipanema foi lançada como atriz em Viver a Vida como a dona Edite, mãe da protagonista Helena, interpretada por Taís Araújo. “O papel foi um presente na minha vida”, comemora a atriz.
O convite do autor Manoel Carlos representou muito para Lica. Em um País com grande diversidade étnica, em que quase a metade é composta de negros (6,21%) e pardos (38,45%), segundo o último censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), poucos papéis de destaque na televisão são dados para afrodescendentes, segundo ela. “A gente sempre via uma coisa meio germânica e era complicado até por questão de identidade, autoestima. Sabia que um dia isso ia acontecer e sou feliz de participar desse processo de transição.” Junto com Taís, a primeira Helena negra, Lica tem grande participação na história do folhetim. “É importante mostrar essa diversidade que fica muito bonita na TV.”
Embora diga que nunca tenha sofrido com racismo, a ex-jogadora confessa já ter percebido olhares diferenciados pelo fato de ser negra. Mas não se abalou. Prefere acreditar que seja pelo fato de ser dona de presença ímpar, no alto de seu 1,77 m. “Como não sou racista, não me incomodo”, justifica, acrescentando que é a favor do sistema de cotas, que cria reserva de vagas em instituições públicas ou privadas de determinados segmentos sociais, inclusive aos negros. “Esse sistema vem suprir a necessidade que a gente tem de profissionais negros compondo o quadro de uma empresa e, se tem de ser a fórceps, que seja. Não é o ideal, mas no momento o Brasil precisa dar espaço para todas as pessoas.”
Atuar, no entanto, é mais uma em meio a inúmeras atividades exercidas pela atriz de 45 anos. Embora não pareça, ela tem 45 anos. Os músculos, herança da vida esportista, são apenas alguns dos atributos de Lica, que está em sua terceira novela: fez Mulheres Apaixonadas (2003) e Duas Caras (2007). Mas afinal, ela é jogadora, jornalista ou atriz? “Atriz 100%, full time”, responde rapidamente, como quem finaliza o jogo em um bloqueio, sua função à época em que jogava voleibol.
AS PRIMEIRAS REBATIDAS
O professor de Educação Física de quando Lica era pré-adolescente foi quem a incentivou a dedicar-se aos esportes. “Ele era da Seleção Brasileira de Atletismo e me levou para treinar com a equipe. Consegui só quinze dias, porque a perna doía muito”, conta, sorrindo. Ela não se apaixonou pela modalidade, mas o amor pelo esporte estava por vir. Participou de uma festa de escoteiros na qual havia uma jogadora de voleibol mirim, isso em meados de 1977. Gostou tanto de jogar com a colega que tornou-se profissional. Fez parte de times do Rio, São Paulo, Minas e Itália, país que morou por alguns anos.
Embora tenha participado dos Jogos Olímpicos de Los Angeles (1984) e Seul (1988) e não tenha ganhado nenhuma medalha, Lica sente muito orgulho do que ela e suas companheiras de quadra fizeram pelo esporte. “Quando as meninas ganharam a medalha olímpica em (Pequim, 2008), recebi uns três torpedos dizendo que a minha geração era um grãozinho desse ouro e isso me emocionou demais.” À sua época, o esporte não era tão reconhecido pelos torcedores brasileiros; os jogos não eram televisionados em razão da duração, que chegava a mais de três horas. “Minha mãe não conhecia bem o vôlei, tanto que perguntava se eu havia feito cesta. Depois, todos em casa se tornaram experts na modalidade.”
Aos 34, em 1998, após ter participado também de equipes de vôlei de praia, decidiu abandonar de vez as quadras. Mas, ainda que a paixão pelo esporte seja latente como mostra quando relata sua história, a tomada de decisão não foi difícil. “Experimentei tudo que o vôlei poderia me dar e felizmente saí satisfeita”, diz. Às vezes, Lica ainda arrisca umas cortadas e assiste às partidas pessoalmente. No ano passado, em comemoração aos 20 anos da medalha de prata das peruanas, as maiores rivais de sua geração, participou de um jogo com as ex-companheiras. “O Brasil não presta essas homenagens, ainda mais à minha geração que não trouxe medalha”, pontua.
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| “Quando as meninas ganharam a medalha olímpica em (Pequim, 2008), recebi uns três torpedos dizendo que a minha geração era um grãozinho desse ouro e isso me emocionou demais.” Foto: Vera Jordan |
UM NOVO TEMPO
Foi no período de transição entre a aposentadoria das quadras e a faculdade de Jornalismo que o convite para ser atriz apareceu. A pessoa que ligou para Lica na redação do RJTV, mencionada no início da reportagem, é Frida, produtora de elenco da emissora e por quem a atriz tem até hoje grande amizade. “Na verdade, ela havia me visto na sala de espera e achou que eu fosse uma outra pessoa a quem esperava. Eu disse que não e ainda assim Frida quis conversar comigo.”
Assim que concluiu o que tinha para fazer na redação, Lica, que já fazia aulas de teatro, passou na sala da produtora. Se cadastrou e, dias depois, fez um teste para a Oficina de Atores da Globo. No entanto, não se empolgou com o convite. “Achava que era um sonho distante”, justifica. Ilusão ou não, foi para a Itália com o ex-marido – está no segundo casamento – e recebeu um telefonema de sua mãe, dizendo que havia sido selecionada no teste para fazer a oficina, que só tinha 20 vagas. “Fiquei na dúvida, mas vim (para o Brasil).” Não poderia ter tido melhor escolha.
Fez a oficina, concluiu o curso de Jornalismo deixado de lado por causa da viagem à Europa, e esperou o seu primeiro papel, que aconteceu numa novela de Manoel Carlos, como a professora Adelaide. Foi aí que adquiriu experiência para interpretar Edite, dona de uma pousada de Búzios.
Entre 2003 e 2008, até o fatídico convite de Maneco, Lica apresentou durante um ano o programa Esporte Espetacular – porque além de entender muito do tema, ainda tinha um grande sonho de trabalhar com telejornalismo. “Tive de fazer alguma coisa até surgir uma oportunidade (como atriz). Seria bom se nós pudéssemos escolher os papéis, mas na verdade temos é de ser escolhidos”, brinca.
A MUSA DE IPANEMA
A beleza de Lica sempre chamou atenção. “Antes havia aquele negócio: ‘ah o corpo das meninas do vôlei’”, diz, justificando o título que ganhou na década de 1980 como a Musa da Praia de Ipanema. Ela conta que costumava ficar no Posto 9, um dos mais frequentados pelos jovens da orla, e que nunca se preocupou com este tipo de campeonato. Mas, é claro, como a maioria das mulheres, sempre foi vaidosa. “Gosto muito de me arrumar, escolher a cor que quero destacar no dia. Da época do vôlei, a única coisa que me incomodava era ter de andar uniformizada, todos os dias com a mesma roupa.”
Embora não jogue vôlei com a mesma freqüência, Lica se diz obrigada a praticar musculação durante quase toda semana. “Tudo tem seu ônus e sempre brinquei que o esporte de alto nível é prejudicial à saúde. Não posso ficar sem fazer musculação porque senão meu joelho desestrutura todo, incha e não consigo andar tranquilamente”, diz. Mesmo com a rotina atribulada de gravações e até com a mudança de casa que revelou estar enfrentando durante a sessão de fotos, a atriz diz encontrar tempo para malhar, caso contrário sente falta. Mas como tem uma academia em seu prédio, o sacrifício fica mais fácil.
A preocupação que teve com o corpo, diz a atriz, nunca foi a mesma que dispensou à pele. Cremes anti-idade só começaram a ser usados no ano passado, assim como o filtro solar que deve ser usado diariamente. “Como fui atleta sempre me preocupei com a alimentação. Não que eu seja exemplo, já que como doces e carboidratos à noite, mas sempre que engordo um pouco me controlo e dá certo.” Mãe de um menino de dez anos, Lica diz nunca ter se preocupado com a balança.
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| Atriz viveu seu primeiro personagem em Viver a Vida como a dona Edite, mãe da protagonista Helena, interpretada por Taís Araújo. “O papel foi um presente na minha vida”, comemora a atriz. Foto: Vera Jordan |
RIO 2016
Carioca da gema, como ela mesma diz, tem como próxima meta incentivar os seus conterrâneos a valorizarem a cidade, que ganhou recentemente o direito de sediar os Jogos Olímpicos de 2016. “Estamos precisando amar mais o Rio de Janeiro para poder receber as pessoas bem.” A corrida, para ela, é contra o tempo. “Podemos nos preparar, a começar pelas pequenas coisas, mas temos de iniciar ontem.”
Entre os principais obstáculos a serem superados, segundo a atriz, estão o atendimento em restaurantes, que deixa muito a desejar, a limpeza da cidade – embora tenha o título de Maravilhosa ainda tem muita gente que joga lixo nas ruas, além da violência urbana – e o incentivo ao esporte. Para ela, não adianta colocar uma rede em uma praça e dar uma bola e fazer políticas imediatistas. “Tem de treinar os professores, incentivar essas crianças a não fazer apenas recreação nas aulas de Educação Física. É aí que podem surgir os grandes talentos”, acredita, acrescentando que no seu caso teve sorte por ter sido incentivada pelo professor e os pais, principalmente.
Deixando o esporte de lado, o qual poderá apenas assistir nas arquibancadas daqui a seis anos, seu outro sonho é consolidar a carreira de atriz. Como sempre teve de se dividir em três possibilidades, nunca encarou de frente uma única profissão. “Não pude investir firme e agora acho que chegou a oportunidade.” Entre os planos está o teatro e a sétima arte. Mas quem sabe ela não recebe uma ligação inesperada, que a leve para as telonas do cinema? “A mim só resta esperar”, finaliza.
JOGO RÁPIDO
Nome: Eliani Miranda da Costa Oliveira
Nascimento: 5 de agosto de 1964
Local: Rio de Janeiro
Filme: Faça a Coisa Certa (Spike Lee)
Livro: A cabana (William P. Young)
Ator: Tony Ramos
Atriz: Fernanda Montenegro
Prato: Pizza
Cidade: Rio de Janeiro
País: Brasil e Itália