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| Nissim Hara cruzou os mares para criar uma das mais conceituadas empresas de lingerie do País. Foto: Andréa Iseki |
Mil e quinhentos anos antes de Cristo nascia a civilização que implementou o comércio no Mar Mediterrâneo. Eram os fenícios, ancestrais do povoado que habitou o Líbano, Síria e Israel e fizeram valer a cultura empreendedora, fundando portos e cidades nas costas Norte da África e na Espanha. É a essa tendência, que perdura por mais de 3.000 anos, que o libanês Nissim Hara, 74 anos, atribui seu tino para o comércio. Há 44 anos, ele e seus irmãos Henry e Elie criaram uma das maiores empresas de lingerie do País: a Hope, que pretende chegar em 2014 com 300 lojas (hoje tem 40).
Ainda que o sotaque de origem insista em permear as palavras de seu Nissim – como é chamado pelos funcionários –, foi em terras brasileiras, onde aterrissou em 1957, que conseguiu as grandes conquistas de sua vida. Além da empresa, aberta inicialmente no bairro do Brás, em 1966, foi aqui que construiu família e encontrou seu grande amor: a boliviana Rachel, que depois descobriu ser sua prima de terceiro grau, uma dessas coincidências da vida. Eles estão casados há 40 anos. “A conheci em um restaurante, em Santos. O pai dela era libanês também, parente distante da minha família”, explica. O casal tem três filhas – Sandra, Daniela e Karen – que em 2000 assumiram o comando da empresa e hoje o pai é o mentor.
Mas nem sempre foi assim. Nissim esteve à frente da Hope grande parte de sua vida. Veio ao Rio de Janeiro incumbido de solucionar um problema da construtora do tio, para quem prestava serviço nos Estados Unidos. “Inicialmente era para trabalho de 15 dias. Vim, trabalhei e gostei”, conta. A princípio abriu uma empresa de transporte aéreo em Belém, no Pará, mas a iniciativa não deu certo.
Foi, então, que cruzou seu caminho um amigo brasileiro que fabricava peças íntimas e o aconselhou a investir no ramo, onde Hara seu talento. Ele tinha razão: o comércio tatuado em seu DNA falou mais alto, mesmo após milhares de anos.
PARA LÁ DO MEDITERRÂNEO
Nissim teve de aprender a se virar cedo. Como o pai morreu quando tinha 12 anos e empregos eram difíceis no Líbano, o pequeno teve de procurar formas de sobreviver. Formas as quais não quis revelar à reportagem – “Vou levar mais uns três dias para explicar” –, mas que o ajudaram a sair da terra natal rumo a uma vida melhor. “Nascemos já com a vantagem de que meu pai morreu. Se não tivesse morrido, era filhinho de papai até hoje”, disse, aos risos.
O jogo de cintura que adquiriu desde pequeno o ajudou a lidar com as intempéries de um mercado novo, totalmente inexplorado em solo brasileiro. Por ter sido pioneiro em mostrar lingerie em propagandas e outdoors com mulheres vestidas apenas de calcinha, foi visto como ousado pelos brasileiros à época, mais precisamente em 1984, quando o País passava por reformas de ideologia política e social. “Para mim, aquilo não foi ousadia, foi viver o que estava fazendo.” Loucura ou não, as pessoas começaram a ver as tais peças com outros olhos, o que ajudou a expandir procura e vendas.
Inicialmente, a fábrica ficava em São Miguel Paulista, cidade do interior de São Paulo. Mas, por conta da escassez de mão-de-obra qualificada, em 1999 a mesma mudou-se para Maranguape, no Ceará. “Tem de ver o que aconteceu em Paris, Milão, Nova York. Procure uma costureira em Paris e você não achará. Lá encontramos mão-de-obra a longo prazo, onde podemos ensinar, treinar”, explica. Além disso, incentivos fiscais do governo local contribuíram para mudança. A iniciativa deu tão certo que lá já foram investidos este ano R$ 4,2 milhões.
NOVIDADES SEMPRE
Além dessas mudanças estruturais que tiveram de ser feitas ao longo do caminho, Hara atribui o sucesso estar antenado sempre a novidades. Não que a Hope se paute pela concorrência, mas busca sempre lançar peças que revolucionem o mercado. Uma delas é a calcinha sem costura, a Nude, uma das campeãs de venda da marca. “Todo dia você tem de produzir uma novidade no que faz, e é isso que faz o mundo girar. Se você não entra com renovação, nunca vai para frente”, ensina o experiente empresário.
Entre as novidades lançadas nos últimos anos estão cosméticos e a linha de moda praia. Isso ocorreu depois que as três filhas assumiram a empresa, o que proporcionou estratégias de rejuvenescimento à Hope. “São acessórios que também refletem a intimidade da mulher. Sentimos a necessidade de reforçar o departamento de franquias.” Hara acredita que essas e outras iniciativas tendem a reforçar o número de lojas da marca, que hoje chega a 40. Franquias internacionais também estão em ascensão, mas não por iniciativa da Hope. Algumas foram abertas por empresários estrangeiros em Portugal, Israel e Japão. A marca age no setor com parcimônia. “É responsabilidade muito grande. Tem de saber com quem você está casando e tem de dirigir de binóculos. É muito difícil porque não temos como fiscalizar. Então, fica a critério de cada franqueado prezar pela qualidade do atendimento.” O faturamento da empresa – não revelado – é, segundo ele, mix de varejo, atacado, franquia e exportação para 18 países.
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| "Todo dia você tem de produzir novidade, e é por isso que faz o mundo girar. Se você não entra com renovação, nunca vai pra frente" - Foto: Andréa Iseki |
EM CASA
O fato de trabalhar em família – os irmãos ficaram com a marca de cuecas Mash – dá muito certo. “Tem de ser numa boa. Se tem conflitos, não dá certo”, acredita. Para isso, repassou as tarefas, inclusive para a mulher, que sempre atuou com ele na empresa, e tornou as filhas responsáveis pelos respectivos setores. “Estou feliz porque todas elas abraçam o assunto com muito amor, se interessam por natureza, não por ganância, mas por amor ao que fazem. E está dando certo.”
Foi a filha Sandra Chayo, diretora de marketing da Hope, que teve a ideia de colocar belas mulheres como musas de cada coleção da marca. Já passaram por esse posto Ellen Jabour, Daniela Cicarelli, Juliana Paes e, mais recentemente, a top das tops, Gisele Bündchen. Ideia acertada, na visão do pai, para quem a iniciativa atendeu às exigências do mercado, o qual ele conhece muito bem.
MULHER, MULHER, MULHER
Rodeado por mulheres e também no cargo de executivo em setor voltado exclusivamente a elas, Hara acredita que já sabe quase todos os gostos femininos, é quase um PHD. Por isso diz com propriedade que o perfil da mulher não mudou ao longo dos anos, mas sim o conceito de como ela interpreta a lingerie.
Aprenderam a ver que as peças complementam o visual. “É uma peça extremamente importante. Não se pode usar qualquer coisa no corpo porque, na hora em que vai se apresentar para o namorado ou marido, faz diferença se isso for feito de forma sensual.” E aí está o segredo: para ele, a sensualidade é a base de tudo, independentemente da forma física da mulher. Esse atributo, diz, vem de dentro.
E é por isso que sua empresa atende a todos os públicos. Há alguns anos, deixou de fazer apenas calcinhas e passou a investir em sutiãs, agora bordados, com decotes diferenciados nas costas e em cores extravagantes.
Mas o carro-chefe acaba sendo a pioneira calcinha. “Embora ganhemos o dobro em sutiã, ele é uma peça ortopédica. Mesmo você usando tamanho 44, não quer dizer que o meu 42 vai ficar bom, porque depende do tamanho das costas, de diversos fatores.” Visando essa diferença, em cada franquia da Hope é colocada uma consultora que ajuda as clientes a achar o modelo que melhor se encaixa ao seu perfil.
O fato é que grande parte das consumidoras têm entre 18 e 24 anos, o que determina muito no quesito modelo. E o que elas mais querem? “Conforto, sempre. Você tem uma gaveta com 20 calcinhas e vai sempre escolher aquela em que se sente bem, embora não seja bonita.
Não é verdade?”.
PAPEL MENTOR
Embora o presidente não tenha de aprovar mais todas as peças que – isso fica a cargo da gerência de produto agora –, a filosofia e experiência que adquiriu ao longo das mais de quatro décadas no setor rendeu-lhe cargo de poder: o de mentor. Para isso, usa o bomsenso e, em todas as decisões, dá sua opinião. “Minhas filhas pegaram a maior parte do que eu fazia e por isso está sobrando tempo para mim. Só olho de cima, a filosofia da empresa. Se vejo alguma coisa errada, falo.” Nem por isso deixa de ir à empresa quase todos os dias – embora os familiares já tenham dito que é tempo de ele descansar.
Só agora sobra tempo para viajar, uma de suas paixões. “Homem do mar”, como ele próprio se define – outra herança dos fenícios, que comercializavam com a chamada galé, veículo movido a velas e remos –, vai sempre ao Guarujá e a Angra dos Reis para velejar e pescar. E não pretende parar de vez? “Só no dia que embarcar...” Mas essa embarcação ele não tem pressa em desfrutar. Por hora, sua única preocupação consiste em deixar o legado, que há tempos faz questão de mostrar às filhas e aos 1.200 funcionários. “Estar sempre crescendo, renovando e se atualizando. Se você não usa esses três princípios, está fora do mercado”, afirma, no tom de quem tem certeza do que diz.