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| Sônia Guedes, andreense de Paranapiacaba respira jovialidade aos 78 anos vividos sem frescura. Foto: Nário Barbosa |
Veterana dos palcos e da televisão, Sônia Guedes abre a porta de seu charmoso apartamento, em Higienópolis, bairro nobre de São Paulo, e um sorriso, como quem recebe amigos. Pelo modo de agir, não parece que a senhora de 78 anos já contracenou com estrelas como Regina Duarte (em Malu Mulher, em 1979) ou que dividiu palcos com Paulo Autran, Raul Cortez e Cleide Yaconis. Isso, porque - diferentemente da maioria dos colegas de profissão – ela não tem melindres ou frescura. No lugar, sobra talento e humildade. “Sempre encarei minha carreira como profissão apenas. Os atores, no fundo, são inseguros.Também sou, mas não faço disso problema.”
A atriz acaba de voltar de Sebastião de Lacerda, interior do Rio de Janeiro, onde passou três meses mergulhada nas filmagens de O Peso da Massa, Leveza do Pão, de Julia Murat, que deve estrear em 2011. Sincera, admite que não foi fácil entrar para a telona. “Foi muito bom pra mim, porque sempre foi difícil fazer cinema. Comecei tarde e nunca fui uma mulher muito bonita. De repente, surgiu esse papel que exigia uma atriz idosa, que aparentasse a velhice, não podia ter plástica. Fiz uma aos 50 anos, mas agora não tenho mais idade pra isso, né?”, diz.
A atriz encara a passagem do tempo com tranquilidade. “A velhice é uma fase da vida. Você passa pela infância, pela adolescência e, se viver, vai chegar à velhice.”
Nascida em Paranapiacaba, em Santo André, e filha de pai ferroviário, foi ali que descobriu o gosto pela arte dramática. Desde pequena era freqüentadora assídua dos cinemas da vila. “Assistia todos os dias, principalmente, os de cáuboi”, lembra a artista. Além de ter tido avós atores, a inspiração também veio de uma amiga da família, Elvira de Camilli, atriz, que ficava hospedada na casa do avô de Sônia de vez em quando. Porém, quando decidiu que esse era o caminho que gostaria, teve que lutar contra o preconceito. “Meu pai não queria que fosse atriz. Dizia que a vida era difícil e não dava dinheiro. Pediu que me formasse e depois virasse atriz. Concordei e me tornei professora.”
Aos 20 anos ingressou no teatro amador. Durante os três primeiros anos teve que carregar o pai a tiracolo como condição para começar a carreira. “No início, ele me acompanhou em todos os ensaios e apresentações. Conheci meu marido no teatro e o namoro também era com meu pai por perto.” Eleita a melhor atriz coadjuvante do 1º Festival de Teatro Amador do Estado de São Paulo, em 1963, ganhou uma bolsa na Escola de Arte Dramática da USP. Deixava assim o amadorismo.
A televisão veio em 1979, com a série Malu Mulher, da Rede Globo. “Fiz a peça Caixa de Sombras e a Regina Duarte foi assistir. Depois, ela levou três diretores para o espetáculo, que me chamaram para a televisão. A Regina me ajudou muito, porque não tinha prática na TV.”
Como contratada da Globo, fez Barriga de Aluguel (1990), Coração de Estudante (2002) e Mulheres Apaixonadas (2003). No SBT participou de Esmeralda, em 2004, e hoje está na Record. Fez sete novelas seguidas desde 2000. “Agora estou de férias.” A atriz aproveita o tempo livre para fazer tricô e ler. Também aprecia assistir filmes. “Vejo de dois a três por dia. Já revi todos da infância e adolescência.”
Aposentadoria não está em seus planos. “Gostaria de fazer um musical antes de morrer. Espero que a qualquer hora apareça um papel para mim.” Com talento de sobra, concretizar o projeto não será algo difícil.