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Gloriosa!

domingo, 1 de agosto de 2010 Envie para um(a) amigo(a) Imprimir Comentar

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Miriam Gimenes

 

Foto: Marcelo Faustini / Divulgação
Garota que no primeiro teste foi recusada por não atender aos padrões de beleza cresceu e se tornou a dama da televisão brasileira. Foto: Marcelo Faustini / Divulgação

Daniel Filho pagou a língua. A mesma garota que descartou no teste para a novela O Primeiro Amor, em 1971, por não ter os atributos físicos que buscava para a personagem – em seu lugar entrou Rosana Garcia – foi quem 35 anos depois protagonizou um de seus filmes de maior sucesso: Se eu Fosse Você, campeão de bilheteria no cinema brasileiro. Mais tarde, ele reconheceu o erro e lembrou o episódio. “Gloria é um dos lindos casos do Patinho Feio, em que ninguém percebeu que, na verdade, se transformaria num cisne.” Pois é, o cisne, como o renomado diretor definiu, um dia abriu as asas, assim como na história infantil, e conquistou currículo invejável, o título de dama da televisão brasileira, fazendo valer o nome de batismo. Gloria Pires hoje é sinônimo de talento.

Na lista de trabalhos que arrebatou após o primeiro e traumático ‘não’ – fato que ela leva na brincadeira, mas à época a deixou frustrada – estão 30 personagens de televisão e 13 no cinema. Se comparados à idade da atriz, que neste mês completa 47 anos, podemos dizer que trabalhou praticamente a vida toda, visto que seu primeiro papel foi aos 5 anos, em A Pequena Órfã, em 1968. Toda a trajetória acaba de ser transformada no livro 40 Anos de Gloria, de Eduardo Nassife e Fábio Fabretti, da Geração Editorial.
Ao falar com a equipe da Dia-a-Dia Revista, a atriz deixou claro que não existe o mito, a estrela, mas sim a mãe de quatro filhos, mulher, filha e profissional. Todo o glamour em cima do nome Gloria Pires, que iniciou carreira como Gloria Maria – no mesmo período tinha em casa o apelido de Dona Baratinha, por viver cantarolando a música infantil e ter mania de limpeza –, não passa de longos anos de trabalho, de problemas pessoais, de tropeços e muitas alegrias, como qualquer ser humano.

“No decorrer da minha vida, deixei que as coisas fluíssem, ao passo em que batalhava por elas. Estava me dedicando e trabalhando muito, mas sempre esperando a resposta a toda essa dedicação. Ela veio, ainda que lentamente. Hoje, sinto que esses sonhos não se fixaram como obstinação, mas como realização”, escreve a atriz na contra-capa do livro. Como fica claro, honrar literalmente o nome não foi fácil. Foi misto de carisma, talento e muito trabalho.


O AMOR PELA ARTE ESTÁ NO DNA

Nas primeiras vezes que visitou um estúdio de gravação, a pequena Gloria acompanhava o pai, o ator e humorista Antonio Carlos Pires, que ficou conhecido como Joselino Barbacena na Escolinha do Professor Raimundo e morreu em 2005. Foi ele, juntamente com a mulher, Elza Pires, que incentivou a filha a não desistir, mesmo depois do ‘não’ de Daniel Filho. Estavam certos. “O que sempre me inspirou foi o amor que meu pai tinha pela profissão e o fato de ele ser extremamente benquisto, respeitado. Tive a oportunidade, sendo filha de ator, de saber viver a realidade, que não é uma vida de glamour”, lembra Gloria. Foi com Antonio que, em 1972, passou a participar de Chico Anysio City, no papel de filha do Dr. Aristóbulo.

Como toda criança, frequentar estúdios televisivos era diversão para a pequena Gloria Maria. Sentia-se envergonhada quando via muitas pessoas, mas logo deixou a timidez para trás e encarou os papéis que surgiam. Acredita que não perdeu o melhor da infância, já que antigamente a carga de trabalho na televisão era muito menor do que a de hoje. Na época, conta Gloria, uma criança artista não era bem-vista. Ela, no entanto, surpreendia as mães de seus amigos de forma positiva. “Elas viam meus pais e diziam: nossa, como ela é educada, parabéns...(risos).”

Seu primeiro papel de destaque veio em 1978, como a adolescente Marisa Mattos, de Dancyn’Days. Devido à boa atuação, no ano seguinte recebeu o convite para fazer a primeira protagonista: Zuca, de Cabocla. Foi quando conheceu e contracenou com o primeiro marido, Fábio Júnior, pai de Cléo Pires. A carreira deslanchou: personagens como Maria de Fátima, de Vale Tudo (1988), e as gêmeas Ruth e Raquel, de Mulheres de Areia (1993), colocaram Gloria no alto escalão global e lhe renderam prêmios de melhor atriz, entre eles o Troféu Imprensa.

“Com o passar do tempo, perdemos a sensação de como as coisas aconteceram”, analisa a atriz, explicando que durante a elaboração do livro teve de pedir ajuda a familiares – entre eles a irmã Linda Pires – e amigos para relembrar detalhes de sua vida e trabalhos.


CASEIRA, NAS HORAS VAGAS

Gloria acaba de voltar de Paris de mala e cuia. Morou dois anos por lá com o marido, o cantor Orlando Moraes, e os filhos Antonia, Ana e Bento. Na França, pode desfrutar de tarefas rotineiras, como andar de metrô e buscar os rebentos na escola. O que é aproveitar a vida para você?  “Tirar um tempo livre, férias, ficar em casa, arrumar armário, viajar. Enfim, estar à toa, um tempo em que não esteja trabalhando, sabe?”, define, sorridente. Sorriso este visto por diversas vezes durante as duas horas que estivemos em frente à Gloria, que embora seja a diva da televisão, demonstrou ser humilde em pequenas atitudes.

Mas ficar em casa e cuidar dos filhos é papel novo na vida da atriz. Prova disso é que, após aborto espontâneo, voltou dias depois às gravações de A Partilha (2001), de Daniel Filho, fazendo jus à denominação de funcionária-padrão, dada pelo diretor Mário Lúcio Vaz, amigo de seus pais.

O amor pela arte é tanto que durante a novela Suave Veneno (1999) teve de morar sozinha no Rio, deixando a família nos Estados Unidos. Sentia-se triste e só. No mesmo período, boatos surgiram sobre ter tentado suicídio por ter flagrado o marido e a filha mais velha juntos. “O lado ruim (em ser uma pessoa pública) é entender essa relação: por que as pessoas ficam tão curiosas pela vida do artista? Como lidar com isso? Foi um aprendizado longo. Há pouco tempo comecei a entender essa química”, admite. Gloria não gosta de comentar o episódio, que também não está no livro, mas aprendeu o que e para quem falar. “Hoje sei que é preciso ouvir mais e falar menos.”


BOOM CINEMATOGRÁFICO

Quando protagonizou o filme Índia, a Filha do Sol, de Fábio Barreto, em 1981, a atriz nem imaginava que anos depois atuaria no filme brasileiro de maior bilheteria: Se Eu Fosse Você 1 e 2 – o último foi visto por 6 milhões de espectadores; a película só perdeu para Titanic (1997). “Antes de o cinema ter dado aquela grande estagnada (1985), os números (de público) eram muito bons. Com a parada de cinco anos, leva-se bom tempo para reaquecer, mas espero que a gente consiga manter tudo o que tivemos nestes últimos anos.” A mudança a que se refere Gloria foi no início da década de 1990, quando, a partir da Lei Rouanet, o governo passou a investir mais nas produções brasileiras por meio de incentivos fiscais.

A atriz, por sua vez, ajudou a construir partes dessa história. Como grande amante da sétima arte, participou de filmes premiados, como O Quatrilho (1995), também de Barreto – que concorreu ao Oscar como melhor película estrangeira –; o Pequeno Dicionário Amoroso (1997), de Sandra Werneck; A Partilha (2001), de Daniel Filho; Lula, o Filho do Brasil (2010), de Barreto; e mais recentemente, É Proibido Fumar, dirigido por Anna Muylaert (sua amiga), em que teve de usar cigarros falsos por ser ex-fumante. “Essa paralisação (de produções do cinema) ajudou no sentido que os profissionais tiveram de ir para outras áreas. Isso trouxe aprendizado grande. Eles  começaram a ver o cinema como mercado.” Na carona do sucesso, há a possibilidade de vir mais um Se Eu Fosse Você, com os protagonistas crianças em corpos de adultos.


 

Foto: Claudinei Plaza
Cinema ou televisão? Gloria tem gana por bons personagens. Foto: Claudinei Plaza

ELA AINDA QUER MAIS

Cinema ou televisão? Gloria tem gana por bons personagens. A atriz, que acaba de ser disputada por dois grandes autores globais – Gilberto Braga e Aguinaldo Silva –, diz que, embora tenha carreira consolidada, acha que pode fazer mais pela dramaturgia, com o mesmo fervor do início. “Faço boa ginástica para interpretar um personagem que me instigue. Acho que a base de tudo é o frescor, a vontade de fazer. O que busco é a matéria-prima, são as personagens incríveis.”

Seguindo essa filosofia, aceitou fazer Norma, criada por Gilberto Braga para Insensato Coração, novela que substituirá Passione. Viúva, humilde e sozinha, a personagem irá
sofrer durante a trama e será presa injustamente. “Quando sair da cadeia, vai ser o cão chupando manga”, define Gloria. Quase uma Maria de Fátima (vilã de Vale Tudo)? “Talvez até um pouco mais”, adianta.

Ela faz questão de deixar claro que não houve briga entre os autores, como alguns veículos de mídia publicaram. Gilberto a havia convidado há tempos e, quando soube que Aguinaldo a queria para a novela que vem depois de Insensato Coração, tratou de ligar para ele. Recebeu, então, a sinopse da personagem, que também adorou, mas deixou a critério da Rede Globo definir. Por hora, ela fica com a de Braga, com quem já trabalhou outras vezes, inclusive em Vale Tudo.

Enquanto não começa a gravar, aproveita para ficar com a família no Rio. Segue com tai chi chuan (arte marcial chinesa) pela manhã, os cuidados com os filhos – defende-os como uma leoa e não comenta, por exemplo, o ensaio sensual que a filha Cléo fará para uma revista masculina –, e assistindo a filmes que deixou para trás, por ser cinéfila de carteirinha.  “Adoro ir ao cinema, comprar pipoca, coisas bem simples.” Ela gosta mesmo é de ser mais uma em meio à multidão ou simplesmente Glorinha: mãe, esposa e mulher, com todas as letras.

“Sempre que a câmera se acende, vem à tona uma criança que, suspeito, existe dentro dela até hoje, mesmo já sendo adulta.”
José Wilker

“Através dos pais, que eram maravilhosos, não tive dúvidas de quem herdara aquele carisma, simplicidade e humildade que conserva até hoje”
Stephan Nercessian

“Tem carreira ímpar, que construiu com muito empenho e tanta dedicação e que a elevou a uma das maiores atrizes deste País. Certa vez, me disse que pensava em abandonar a carreira e eu reclamei: por favor, Glorinha! Não faça isso, pois nós precisamos muito de você e do seu talento.”
Arlete Salles

“Casa, trabalho, filhos, marido, contas, compras, cachorro, papagaio e, ainda assim, está sempre com um sorriso, achando tudo bom e feliz com o pouco tempo que lhe resta para ficar à toa. Esse tempo, ela podia dedicar a si mesma, mas sempre dedica à família.”
Antonia Pires de Morais

“A curiosidade é que Gloria sempre teve o riso solto, quando começa a rir em cena, temos que desistir e esperar uns 15 minutos até passar o ataque.”
Dennis Carvalho

“Era difícil contracenar com ela. Levava aquela frieza da Maria de Fátima às últimas consequências, com muita propriedade e talento. Mexia comigo.”
Regina Duarte

Depoimentos do livro 40 Anos de Glória
 


Comentários

Geanne Duarte
03/05/2011
Voces estão de parabens pela lindíssima homenagem que fizeram para a Maria melilo, nossa queridinha do BBB,

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