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| Bem-resolvidas, Charlotter, Carrie, Miranda e Samantha, de "Sex and The City", não enfrentam a solidão e curtem a solterice na big Apple. Foto: Divulgação |
Carrie Bradshaw é jornalista e aos trinta e poucos anos escreve para coluna do The New York Star. Apesar de ter tido alguns relacionamentos sérios, é solteira, mas vive intensa e tumultuada vida amorosa, cheia de idas e vindas, altos e baixos e diferentes parceiros. Adora moda, gasta o que tem e o que não tem em sapatos e roupas, tem apartamento próprio e diverte-se na agitada Manhattan. Suas melhores amigas são Charlotte York, solteira balzaquiana, que sonha com o homem ideal; Miranda Hobbes, que por causa da descrença em relação aos homens, passa a maior parte do tempo sozinha; e Samantha Jones, quarentona que adora a falta de compromisso e o fato de saber seduzir qualquer homem. Quem não se lembra das divertidas cenas dessas quatro personagens na série norteamericana Sex And The City que, de tanto sucesso, foi parar nas telonas?
O personagem Charlie Harper, da igualmente famosa série Two And a Half Man, é a versão masculina do solteirão de bem com a vida que vive em bela casa em Malibu, tem um carrão na garagem e muita facilidade na hora da conquista.
Na vida real, existem no Brasil cerca de 85 milhões de pessoas sozinhas, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), seja por terem desfeito casamentos ou, simplesmente, por não terem encontrado o par perfeito. Os integrantes do bloco-do-eu-sozinho ganharam até uma data especial: o Dia dos Solteiros, comemorado em 15 de agosto. No Brasil a mobilização por parte dos solteiros chegou a invadir as ruas de São Paulo e Rio de Janeiro com a parada Movimento dos Sem Namorados. O evento organizado por um site de relacionamentos atraiu 6.000 pessoas dispostas a mostrarem para o mundo que estavam à procura de alguém.
O consultor de vendas Alex dos Santos faz parte do universo single. Aos 36 anos, acha que é novo para casar e aproveita diariamente as aventuras de ser solteiro. “Se coloque no meu lugar: sou homem, solteiro, tenho minha casa, independência financeira, viajo o tempo todo, meus amigos estão sempre por perto, faço churrascada mesmo em dias de semana. Chego em casa e saio a hora que desejo, como o que tenho vontade, tomo banho a hora que quero. Não tem parte ruim: sou um dos homens mais felizes do planeta”, assegura ele.
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| Diferentemente de outras pessoas, Janeta Julio de Oliveira não encara bem o fato de estar na condição de solteira. Foto: Celso Luiz |
SEM MEDO DE SER FELIZ
Nem sempre é fácil encarar a situação de estar desacompanhado. Apesar de adorar a situação de livre e desimpedido, Alex dos Santos afirma que tem limitações. “Não vou sozinho para balada, cinema e teatro. Não gosto, porque aí é fim de carreira. Tem lugares e lugares para se estar sozinho. Viajar gosto, porque não sou tímido, converso com quem quero e se vejo uma pessoa que me interessa vou atrás.”
A antropóloga da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) Mirian Goldenberg explica que o receio de aparecer sozinho em público ocorre porque, principalmente no Brasil, o solteiro é visto como alguém que não possui os bens mais valiosos: o amor e a proteção da família. “No País, ser só é sinônimo de fracasso e desproteção. E as pessoas têm medo do estigma que a solidão causa. Daí o medo.”
A vendedora Janete Julio de Oliveira, 29 anos, está sozinha há dois anos e logo pergunta se sentimos pena dela. O questionamento demonstra que o estado civil dela não foi por escolha e muito menos lhe traz satisfação. “Estar sozinha é a opção que o mercado me deu”, define. Estar só tem sido barreira até para interagir com os amigos, na maioria casados. Sem contar que a timidez também a impede de sair sozinha para badalas ou tomar iniciativa junto aos pretendentes. “Não me privo de passear, de freqüentar academia e de viajar. Mas se não estou bem, a primeira coisa que lembro é que vou estar rodeada de casais, aí prefiro ficar em casa.”
A solidão faz com que a vendedora passe a maior parte do tempo trabalhando e, quando sai, sempre está acompanhada por amigos do emprego. Janete deseja conquistar seu espaço e ter sua própria casa, mas mora com a irmã por medo de ficar sozinha, o que a impede de levar o projeto adiante. “Ninguém é feliz sozinho. Neste momento me considero incompleta.”
NUNCA SÓ
Em busca de diversão, dezenas de pessoas freqüentam semanalmente as Noites do Cupido. Para entrar, apenas uma condição: ser solteiro. As festas são no bar Havana, dentro do Hotel Renaissance, em São Paulo, às quintas- feiras. Criada pelo empresário André Cohen, virou ponto de encontro de quem não tem companhia para badalar. A ideia surgiu após uma separação. “Quem permaneceu casado por 30 anos dificilmente quer ficar solteiro”, afirma ele, dando a si próprio como exemplo.
Na pista rolam os sucessos das décadas 1970, 1980 e 1990. Os solteirões dançam em rodinhas animadas e, simultaneamente, alguns cavalheiros tiram damas para a pista. Se a experiência for boa, os casais podem esticar a conversa nas mesas iluminadas por velas. Apesar do clima e do nome sugestivo, nem todos vão em busca de um grande amor. “Tem gente que só vem para conversar, dançar e fazer amigos”, explica Cohen.
Divorciada após casamento de 20 anos, a professora Bernadete Fagundes, de São Bernardo, conheceu o baile por meio do dermatologista. “Disse que eu iria gostar. Vim para conhecer e me divertir. É lógico que quero me relacionar com alguém, mas somos mais seletivas depois de um casamento.”
A amiga de Bernadete, Rosana Vieira, 49 anos, diz que passou a ficar muito em casa após o divórcio, por isso aproveitou a oportunidade para fazer algo diferente e divertido. “Também vou ao shopping e ao cinema, mas preciso aprender a dançar.” Bem humorada, hoje vive na companhia das filhas e afirma que logo pretende colocar fim à condição de solteira. “Antes dos 50 vou achar alguém, ainda faltam seis meses”, brinca.
A psicóloga Tarcila Maria Gianotti que o diga. Aos 60 anos e com astral lá em cima, afirma que adora dançar e não se importa de sair sem as amigas. Ela é assídua frequentadora das Noites do Cupido. “Se pudesse sairia para dançar cinco vezes por semana. Fiz muitas amizades, é sadio. Depois, também rola uma paquerinha, né?”, admite. Tarcila refere-se ao novo pretendente, que conheceu há poucos meses: o comerciante Silvio Hazan, 65 anos, que também foi à festa de maneira solitária. Os dois não souberam especificar há quanto tempo estão juntos. “Uns oito meses?”, pergunta ele para a parceira. “Cinco meses?”, questiona a psicóloga. E quem se importa? Depois da entrevista, os dois trataram logo de ir dançar. Para os solteiros, a noite estava apenas começando.
VIAJANTE SOLITÁRIO
O cearense José Albano tem larga experiência na tarefa de ficar sozinho. Amante de fotografia e de motocicleta, uniu as duas atividades em viagens que originaram o Manual do Viajante Solitário: rodando de moto nas estradas do Brasil. Como um diário, o fotógrafo conta aventuras sobre duas rodas, incluindo roteiros, hospedagem, alimentação, bagagem, conforto, dificuldades, assim como os dilemas emocionais vivenciados. Para Albano, há grande vantagem na viagem solitária. “Na estrada tenho a oportunidade de escutar meu pensamento, a chance de estar comigo mesmo durante horas, dias seguidos, sem a interrupção do trabalho, da família, dos amigos, do telefone, da TV. Dentro do capacete, falo sozinho, canto, digo poemas que sei de cor, choro ou dou risada à medida em que se desenrola a fita da memória de bons e maus momentos que vivi”, cita. Sozinho, Albano fica mais concentrado na nova experiência. “A viagem torna-se mais introspectiva. osso refletir sobre o que vivencio.
Viajar com um parente ou amigo gera muitas conversas sobre fatos e pessoas, nos deixando menos disponíveis para a imersão no espaço novo e para as pessoas que encontramos na viagem. É a relação velha atrapalhando o seu envolvimento com o novo, com o diferente”, argumenta.
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| Tarcila não se importa em sair sem as amigas. Foto: Divulgação |
AFINAL, DÁ PARA SER FELIZ?
O paulistano Sergio Savian, que há cerca de 30 anos trabalha com aconselhamentos amorosos, acredita que o bem-estar independe do estado civil. “É possível ser solteiro feliz. Aliás, felicidade ou infelicidade podem ocorrer estando ou não acompanhado. Tudo é questão de como você encaminha a vida, com mais ou menos otimismo”, afirma. Além disso, ser solteiro não significa ser solitário. Certo? Você pode não ter parceiro (a), mas estar cheio de bons amigos, paqueras, participar de cursos ou desenvolver hobbies. Assim como o personagem Charlie Harper, do seriado Two and a Half Men, que aproveita esbajando charme para belas mulheres em Malibu.
A consultora sexual Vanniah Neves acredita que estar só pode ser fundamental para se preparar para um relacionamento. “Algumas pessoas produzem mais sozinhas e precisam de um tempo de solidão para dedicar-se a estudos e trabalho, se recuperar de um relacionamento conturbado até encontrar alguém que compartilhe os mesmos objetivos.” Como contraponto, a psicóloga e consultora de relacionamentos Regina Vaz afirma que alguns têm esse comportamento para camuflar situação de solidão. “Alguém que está sozinho pode estar inconscientemente indisponível e não afim de dar uma chance à vida. É preciso ser tolerante e entender que relacionamento perfeito não existe.”
Para a jornalista Maristela do Valle, autora do livro Viaje Sozinha, estar só nunca foi problema. “Uma vez estava viajando para Viena, vi um grupo falando português e resolvi pedir dicas. E, inesperadamente, me convidaram para ir com eles. Se estivesse com mais gente não caberia no carro. Eles viraram companheiros de viagem na época.” Em outra oportunidade, sem poder levar o namorado, Maristela resolveu botar o pé na estrada novamente. “Como estava com vontade, fui sozinha. E quando você está sem ninguém há necessidade de falar com as outras pessoas e as amizades acontecem”, explica.
A célebre frase ‘fundamental é mesmo o amor, é impossível ser feliz sozinho’, da música Wave, de Tom Jobim, talvez sirva somente para caracterizar épocas remotas. Será? Só o tempo dirá...
CURIOSIDADES
Jovens
É cada vez maior o número de jovens solteiros que buscam ferramentas de interação on-line para encontrar um parceiro. A maioria dos cadastrados tem entre 25 e 35 anos.
Bem-sucedidos
Sites de relacionamento também abrigam candidatos educados e bem-sucedidos. Entre os pretendentes de uma grande agência 97% deles têm nível superior ou mais e renda acima de R$ 2.000.
Segurança
Para suprir a insegurança de se conhecer alguém pela internet, portais investem em ferramentas que vão além do bate-papo por texto. Alguns disponibilizam conversas por voz e vídeo, teste de personalidade para detectar perfis compatíveis e selo de autenticidade para comprovar que o candidato apresenta dados verdadeiros.
Final feliz
No Brasil, um portal já recebeu mais de 1.000 histórias de sucesso entre namoros, casamentos e até relacionamentos que geraram filhos. Estados Unidos Nos Estados Unidos, 17% dos encontros se iniciaram pela internet, contra 11% que começaram em bares e restaurantes.
França dos solteiros
A França é um dos países com maior número de solteiros. Mais da metade tem mais de 60 anos, somando perto de três milhões. Por isso, algumas agências de relacionamentos brasileiras fazem parceria com redes francesas para tentar equilibrar o déficit.
- Em 10 anos, a idade média do primeiro casamento na França aumentou de 27 para 30 para as mulheres e de 29 para 32, para homens.
- Após a separação, 23% dos homens encaram o segundo casamento.
Fonte: ParPerfeito, Metade Ideal e A2 Relacionamentos