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| Intensamente dedicado à profissão, o diretor do Fórum de Santo André, João Antunes dos Santos Neto, admite que sonha em ter mais tempo para a vida pessoal. Foto: Andréa Iseki |
“As pessoas imaginam que juiz não tem vida normal e ele tem”, afirma o diretor do Fórum de Santo André, João Antunes dos Santos Neto. Tudo bem, mas a rotina não é fácil. O despertador toca às 7h. No apartamento em que mora, em Moema, João Antunes está pronto para começar a trabalhar. Ainda em casa, revê processos que restaram do dia anterior e manda, eventualmente, as sentenças para a secretária. Por volta de 9h, é hora de praticar esporte.
”Sempre faço academia ou dou uma corrida, todos os dias.” Chega a hora de ir ao Fórum, onde almoça e começa a segunda parte do expediente. ”De tarde tenho as audiências e os processos comuns. Os mais complicados levo para casa, onde tenho minha biblioteca.” O dia acabou, mas à noite há mais para fazer, é a terceira e última parte da rotina de trabalho. ”Sou professor universitário e uma vez por semana dou aula na Escola Paulista da Magistratura. Me dou bem com os alunos, gosto muito de gente, mas lecionar como atividade complementar é cansativo.
” Antigamente, a rotina era mais apertada. Professor titular na Faculdade de Direito de São Bernardo, João Antunes foi obrigado a pedir licença. ”A atividade estava consumindo muito tempo da minha vida.”
O grande incentivo do juiz sempre foi a mãe, também advogada. ”Não digo que me influenciou somente na profissão, mas em todos os projetos. Ela foi jogadora de basquete, me incentivou a fazer esporte, a estudar. Minha mãe foi uma pessoa singular e sensacional.”
E foi no escritório da progenitora que João deu os primeiros passos na carreira, como estagiário e também ao se formar pela Faculdade de Direito de São Bernardo. Ao ser aprovado em um concurso público, passou a procurador de Santo André e, depois de dois anos, aprovado em primeiro lugar no Concurso da Magistratura, virou juiz. Passou por Jundiaí, Ilha Solteira, Palmital e Capital. Só em 1993 chegou ao Fórum de Santo André.
Apesar de parecer redundante, o magistrado diz que seu maior desafio é fazer justiça. ”Não é uma atividade como carregar sacos de batata, mas é estressante porque estou o tempo inteiro atento. Cometer uma injustiça sempre repercute no patrimônio e na vida pessoal de cada um.”
Para manter tantas responsabilidades, foi preciso aprender a conviver com pressão. ”Queira ou não nos cobramos e há um estresse emocional pelo fato de querer evitar um erro.”
A pressão, João sente também na vida pessoal, já que acaba vivendo de forma mais discreta para não causar nenhum conflito. ”Me cobro até nos momentos de lazer, assistindo a um jogo de futebol, por exemplo. Eu não vou xingar, dá até vontade, mas seguro porque estou num lugar público. Controlo o que vou beber, roupas que vou usar...”
Casos complicados não assustam o magistrado, que vê na dificuldade uma forma de aprender. ”Quando as pessoas dizem ‘este é um caso muito complicado’, acho que é o preferido do juiz. É quando sento, estudo, busco uma doutrina diferente. Tem que fazer pesquisas de jurisprudência, de lei, não é só ouvir a versão de uma parte e de outra e achar um dispositivo legal.”
O filho – um advogado de 27 anos, que mora com ele – é o maior companheiro. ”Estou sempre com ele, saímos para almoçar, assistimos jogos.” A cumplicidade dos dois tem um motivo: João foi pai aos 19 anos e considera que ambos têm cotidianos parecidos.
Entre os principais projetos está a vida pessoal. O juiz quer mais tempo para fazer o que gosta, além da profissão. ”Estou com 46 anos e tenho quase 21 anos como juiz. Penso em otimizar um pouco mais de tempo para mim. Quero conciliar trabalho, dar minha parcela de contribuição para a sociedade, mas poder me dedicar mais à vida pessoal.”
Enquanto não consegue o desejado tempo livre, para amenizar o estresse João – que é divorciado – investe no lazer. ”Gosto de ir ao cinema, passear com amigos, tenho minhas namoradas por aí também e adoro viajar.” Em agosto, se conseguir um substituto para o cargo no Fórum, deve tirar alguns dias de folga e ir para Califórnia. ”Férias regulares de 30 dias são muito difíceis de conseguir, mas uns dez ou 15 dias são possíveis, só que tem de planejar com muita antecedência. Ano que vem devo fazer uma viagem para Rússia e Estônia com alguns amigos, daquelas que há todo um planejamento e muita vontade de fazer.” Um descanso merecido.