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O pai da Mônica

domingo, 4 de julho de 2010 Envie para um(a) amigo(a) Imprimir Comentar

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Christiane Ferreira

Foto: Andreia Iseki
Cartunista na sede da Maurício de Souza Produções, na Capital. Foto: Andreia Iseki

Ele dorme bem dia sim, dia não. Faz questão de twittar sem a ajuda de outras pessoas e seus números mostram que é sucesso absoluto: já vendeu mais de 1 bilhão de revistas em quadrinhos, criou 200 personagens, tem mais de 2.500 produtos licenciados. E assim como suas criações infantis, o tempo não passou para Mauricio de Sousa, que, aos 74 anos – faz 75 em 27 de outubro –, meio século de carreira, acompanha de perto tudo o que diz respeito à Turma da Mônica.

Entrar no universo dele é voltar ao lúdico tempo de criança, com a Mônica, Magali, Cascão, Cebolinha e outros tantos personagens que estampam paredes, quadros e ganham vida em bonecos e brinquedos, que fazem parte da vida real de milhares e milhares de crianças no Brasil e no mundo.

Eu mesma confesso que lembrei de minha infância, quando comumente era chamada de Mônica – era baixinha, gordinha e dentuça, prato cheio para os cruéis coleguinhas. Cruéis até então. Aos 32, depois de conhecer Mauricio, me dou conta da honra que isso significa. Afinal, a Mônica, criada quando a filha do  desenhista tinha 2 anos e meio, é sua personagem de maior sucesso, segundo ele mesmo diz.

“Não sei o porquê disso. Ela não foi a primeira e era secundária. Acredito que tenha a ver com liderança, firmeza de caráter, não levar desaforo para casa. A Mônica agrada meninos e meninas, que querem enfrentar situações de perigo da mesma forma que ela”, deduz o artista, comparando o sucesso da personagem como uma novela, que nunca se sabe ao certo o resultado até entrar no ar e ser testada  pela audiência.

A dentuça de fala firme que roda o coelho Sansão muitas vezes para atingir o amigo Cebolinha também já foi benquista por donas de casa. Mauricio recorda que há alguns anos, em pesquisa encomendada por uma marca de produtos alimentícios, a baixinha brava era referência. ”Elas queriam ser a Mônica.” A pequena também é a única personagem infantil que se tornou embaixadora do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) por ter grande influência no País. E é também admirada pela ala feminina da Indonésia, um dos maiores países muçulmanos do mundo.

Para quem já foi comparada com algumas das crias de Mauricio, tal atitude não acontece à toa. A maioria é baseada em pessoas reais. ”Quando não é alguém único, é um misto de pessoas, como um Frankenstein (montado por partes). Assim, os personagens já nascem vivos, humanos, com características bem  conhecidas. Você sempre conhece alguém semelhante à Mônica e ao Cebolinha.”


PÃO DE QUEIJO QUENTINHO E GULOSEIMAS A VALER

Na sala de reuniões da MSP (Mauricio de Sousa Produções), na Lapa, Capital, pão de queijo, balas, refrigerantes, quitutes irresistíveis a qualquer criança (e também adultos) aguardam os jornalistas que serão atendidos de maneira exclusiva. Mauricio entra e pergunta: ”O pão de queijo é só para vocês?”. E logo trata de pegar um e vai à sua sala.
Simpático, lembra com carinho da região e do Diário do Grande ABC (empresa que edita a Dia-a-Dia Revista),  que segundo ele, na década de 1960 era responsável por rodar cerca de 700 mil exemplares do jornal da Turma da Mônica. ”Era uma publicação distribuída pelo País inteiro, que possibilitou fazermos depois a revista da Mônica e tudo mais.”

Em 50 anos de carreira, os números impressionam: são 1.200 páginas de quadrinhos por mês; detém 80% do mercado brasileiro do segmento; são 400 livros didáticos etc.
Hoje Mauricio de Sousa tem uma equipe que o auxilia. Mas tudo passa pelo seu crivo. Certa vez, atentou para o fato de que as histórias estavam  iguais. Encontrou solução. ”Mandei todos embora. Sugeri: se mudem para longe, busquem qualidade de vida.”

Todos os profissionais continuam com ele. ”Tenho 15 roteiristas em diversas regiões do Brasil. O resultado foi maravilhoso, as histórias ficaram  diferenciadas”, afirma o cartunista, que aprova desenhos e roteiros pelo celular ou pelo computador. Uma vez por mês reúne todos para uma festa.

Mauricio também tem auxílio em outras áreas do trabalho. E é a inspiração da personagem baixinha e briguenta que hoje é o braço-direito do pai – Mônica é diretora da MSP. Quando questiono se ela é brava mesmo, ele responde: ”Ela diz que não (risos)”. E continua: ”Quem eu colocaria na direção comercial da minha empresa? Só uma pessoa que rodasse o coelho, que fosse firme”, afirma o pai.

Além da filha, sua mulher, Alice Takeda, também o acompanha. Ele a considera sua voz na área artística. ”Estou cercado de mulheres”, brinca.

Foto: Andréia Iseki
"Quem eu colocaria na direção comercial da minha empresa? Só uma pessoa que rodasse o coelho, que fosse firme", comenta Maurício de Souza

AS VIVÊNCIAS QUE CULMINAM EM HISTÓRIAS

O desenhista é pai de dez filhos –  Mariangela, Mônica, Magali, Maurício Spada, Vanda, Valéria, Mauricio Takeda, Marina, Mauro e Marcelo. Todos se tornaram personagens de quadrinhos, exceto o caçula, Marcelinho, 11 anos. Mauricio diz estar negociando com o filho sobre essa questão. ”Há alguns anos criei um personagem baseado nele, era Marcelinho, o certinho. Porém, ele não aceitou, disse que era um mico. Penso em outra característica dele, que é poupar dinheiro, para entrar na turma.”

Apesar de os filhos estamparem revistas, o desenhista faz questão que cada um tenha a sua personalidade, que não sejam somente ”filhos do Mauricio”. ”Eles têm a realidade deles, a gente conversa, mas não se mistura.” Porém, o caçula adora dar palpites e fazer críticas. ”Ele é o mais chato”, diz o pai em tom de brincadeira.

Com uma equipe de roteiristas para auxiliá-lo, Mauricio tem um xodó com Horácio, o único criado e desenhado somente por ele. O dinossauro verde é uma espécie de alter ego do criador. ”Horácio é atemporal, não tem referências e fico livre para fabular. Acontece com outros cartunistas que usam animais para se queixar de alguma coisa, colocar algum sentimento ou emoção, qualquer coisa que não possa ser colocado na boca de uma menininha.”


A TURMA VOOU PARA LONGE

E são muitos os projetos com a marca da Turma da Mônica, além dos quadrinhos, livros, material escolar, brinquedos etc. Há também o Parque da Mônica, que permaneceu por 17 anos num shopping da Capital, com média de visitação de 500 mil pessoas por ano.

Agora a intenção é criar um parque piloto, que vai visitar todas as cidades do Brasil.
As pracinhas em shoppings, eventos temáticos que oferecem diversão às crianças que passam pelo local, são outro braço da turminha.

Além do Brasil, Mônica e seus amigos alçaram voos bem longe. O Parque da Mônica será montado em Angola. Na China, os gibis da turma já alfabetizam crianças. E as criações do cartunista chegam a cerca de 30 países.

No Brasil, as novidades não param. Penadinho, Astronauta e Horácio vão se transformar em filmes 3D. Quando questiono sobre um projeto 4D sobre o qual me foi divulgado antes da entrevista, Mauricio desconversa e brinca que a fonte da informação ”é linguaruda”, sorri e muda de assunto.


Foto: Andréa Iseki
Mauricio e seu alter ego, o dinossauro Horário. Foto: Andrea Iseki

A ROTINA DO CRIADOR

Com legado incalculável, Mauricio afirma que isso só aumenta a sua responsabilidade. Em suas histórias demonstra preocupação em falar de temas como preconceito, morte, drogas, saudade etc. Já sobre a violência – que também ocorreu em sua vida real, quando o filho caçula foi sequestrado e mantido em cativeiro por 18 dias em abril de 2008 –, Mauricio argumenta que o melhor é falar da não violência.  ”Não dela em si, mas da possibilidade de um mundo não violento, que é possível. É meio na base do Gandhi.” Sobre o sequestro, não gosta de comentar, resumindo apenas ”estava no lugar errado e hora errada”.

Suas criações aparecem na hora em que senta em frente a uma página em branco, com a confiança de um profissional maduro e também com dom dado por Deus. ”Durante quase 30 anos desenhei a página do Horário, que saiu no Diário também. Pegava o papel, começava a escrever, sem planejar ou saber o que ia dar. No final, a história estava pronta”, conta.

Mauricio é incansável. Sua rotina de trabalho começa cedo. Duas vezes por semana pratica exercícios físicos e chega a brincar com a repórter quando pergunto se faz atividades todos os dias: ”Que é isso? Ninguém é de ferro”. Diz que é para manter o corpo em ordem. Escreve, consulta o computador, planeja o dia. A tarde faz reuniões para verificação do material, às vezes estica e vara a madrugada escrevendo, recebe material do Exterior que vem nesse período, aprova dublagens, entre outros. No dia da entrevista, vinha de maratona de 48 horas, em virtude de viagem fora do País.

Ele também faz questão de twittar. Acredita que não faz sentido deixar tal tarefa para outra pessoa. ”É uma ferramenta que não permite que eu escreva muito e é ideal para quem não tem tempo, como eu. No Orkut, às vezes recebia romances e não dava tempo de ver. Ou faço ou não faço.”

Com o pique e a cabeça cheia de ideias desse criador, crianças e adolescentes ainda têm muito a ganhar  com seus personagens. A próxima página em branco o aguarda.


NÚMEROS IMPRESSIONANTES

* Mais de 1.000 músicas foram criadas para a turminha.
* Cerca de 1 milhão de pessoas frequentam as pracinhas da Mônica. O número é maior em época de Natal, quando pode atingir mais de 4 milhões de visitantes.
* Mais de 2.500 itens de produtos licenciados.
* O portal da Turma da Mônica possui marca de 60 milhões de page views ao mês.
* O site Máquina de Quadrinhos (www.maquinadequadrinhos.com.br) é o primeiro editor de quadrinhos do Brasil, onde já foram criadas 250 mil histórias em seis meses.
* Mais de 100 empresas nacionais e internacionais  são licenciadas para produzir quase 3.000 itens com os personagens de Mauricio de Sousa.


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