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Atrás de um grande homem

domingo, 4 de julho de 2010 Envie para um(a) amigo(a) Imprimir Comentar

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Miriam Gimenes

Foto: Celso Luiz
Deuzeni Goldman, a primeira-dama do Estado, optou por ficar à sombra do marido para que ele brilhasse. Foto: Celso Luiz

Uma viagem feita a Cuba, em 1980, está entre as mais marcantes na vida da primeiradama do Estado de São Paulo.  Embora a primeira filha, Paula, tivesse pouco mais de 1 ano, teve de deixá-la para acompanhar o marido, o então deputado federal Alberto  Goldman (PSDB), que integrava delegação de parlamentares que visitaria o comandante Fidel Castro, além de outros dois países. Passou 33 dias entre uma ponte aérea e outra, enfrentou tempestades durante o voo, mas nada pesou mais do que a saudade da filha. “Vivia pelos cantos chorando, na maior tristeza”, lembra.

Esta é só uma das passagens que ela pretende detalhar no livro Histórias e Estórias que Tenho Para Contar, ainda em fase inicial de composição. Tem 59 anos, é advogada, decoradora e agora presidente do Fundo de Solidariedade e Desenvolvimento Social e Cultural do Estado de São Paulo. Ela quer contar a sua versão sobre o relacionamento de 38 anos com Alberto Goldman, com quem está casada há 32 anos.

Tornou-se primeira-dama no dia 7 de abril, data em que José Serra (PSDB) deixou o cargo e Alberto Goldman, o vice, assumiu oficialmente como governador. “Tive de parar todos os meus compromissos, vida pessoal, para ficar em função das coisas daqui. Trabalho  12 horas por dia”, ressalta. Deixou de lado as aulas de dança de salão, piano, ginástica – reclama que em três meses engordou dois quilos – e de promover reuniões familiares.

Tudo bem, isso não a incomoda no momento. Esta é a hora de se expor, de mostrar algo que será reconhecido publicamente. “Por que estou permitindo esta invasão (entrevista) na minha vida? Preciso de um pouco de visibilidade para dar conhecimento dos meus projetos. Não adianta fazer e ninguém ficar sabendo”, acredita. É a primeira vez, de fato, que é vista não apenas como mulher de político, mas uma mulher que trabalha – e sempre trabalhou – e que em  muito contribuiu para que Goldman ocupasse seu espaço na política nacional.

Com vocês, Deuzeni Goldman, a Deuza para os íntimos.

Ser mulher de político não é fácil. Pelo menos é o que diz Deuza. O casal morou por 26 anos separado – à época em que Goldman era deputado federal e residia em Brasília –, e ela teve de assumir o papel porto-seguro do marido. “Em uma família tem de ter sempre um que está na retaguarda, no caso eu, para que o outro possa brilhar. Tive, inclusive, muita oportunidade de crescer na minha profissão e me segurei. A partir do momento que me dedicasse à carreira, a vida familiar ficaria no prejuízo”, acredita. Por conta desta opção, muitos acham que ela sempre foi dondoca, pelo fato de gostar de se arrumar e ser exuberante. Pelo contrário: trabalhou 18 anos com advocacia, outros dez com decoração e em período integral como mãe e avó.

Aos que a julgam pela beleza, a primeira-dama dá o recado. “A aparência abre portas, mas não garante permanência.” Determinada e perfeccionista, Deuzeni diz que nunca desistiu de nada do que começou – lembra de diversos cursos em que foi a única a permanecer até o fim – e que pretende deixar sua marca no Fundo de Solidariedade.

Por hora, além de implementar os 11 projetos deixados em andamento por Mônica Serra, ela também mexeu no espaço. Mania de decoradora. “Cada uma tem de marcar o seu estilo.” Reutilizou bustos que estavam dispersos no prédio, móveis antigos, colocou mantas e abajures em sua sala, o que a deixou mais aconchegante. Pretende trocar o piso e pintar o prédio pelo lado de fora.

 

Foto: Celso Luiz
“A aparência abre portas, mas não garante permanência", afirma a Primeira-dama do Estado

FUNDO SOCIAL

O Fundo de Solidariedade fica no Parque da Água Branca. Embora tenha uma história de amor com o local – desde pequena morava próximo e quando os filhos nasceram, os levava lá para brincar –, o sentimento não é o principal motivo pela ideia de revitalização. “É mais pelo fato de ver um parque desta magnitude sem ser explorado como deve. Acho que qualquer pessoa no meu lugar teria essa vontade, inclusive por eu gostar de mexer com planta, porque sou paisagista”, justifica. Entre os principais projetos a serem tocados no local estão Campanha do Agasalho, Visão do Futuro, Casa da Solidariedade, Espaço da Terceira Idade, Jogos Regionais dos Idosos, Pedalando e Aprendendo, Agente Multiplicador, Geração de Trabalho e Renda e Núcleo de Atendimento ao Idoso.

Todos, sem exceção, são importantes para a primeira-dama, mas o xodó é a Praça de Exercícios do Idoso, local que tem 400 m2 e que pretende dobrar de tamanho. Neste espaço é possível se exercitar sem a necessidade de um instrutor, porque os aparelhos têm explicação de como funcionam e estão cada vez mais requisitados. O projeto pode ser expandido pelos 645 municípios do Estado, por meio de convênio – já assinado com 275 prefeituras – e custeado pelo Fundo. Basta oferecer o terreno e a mão de obra.

A função de uma primeira-dama, no entanto, não é apenas com o social. A agenda de Deuzeni é lotadíssima. “As pessoas acham que é glamour. Para mim, não é nada, é só trabalho até agora.” Ela tem de chefiar 100 funcionários da Pasta, tocar os projetos, receber delegações estrangeiras, representar o governador em eventos e, como toda mulher, resolver os assuntos de casa.

Mesmo em curto espaço de tempo, ela se encaixa mais no estilo Lu Alckmin (mulher do ex-governador Geraldo Alckmin) ou Marisa Letícia (atual primeira-dama do País)? “Da Lu, com certeza. Não conheço a Marisa, não sei dizer, mas sei que a Lu é muito ativa, atuante, veste a camisa e trabalha bastante.

 
ENTRAVES DA VIDA PÚBLICA


O casal Goldman costumava ir duas vezes por semana ao cinema. Reunia a família quase que diariamente. Assistia a espetáculos de música na Sala São Paulo. Mora em Higienópolis. O tempo verbal da última frase é no presente porque a residência foi a única coisa de que não abriram mão em virtude do cargo ocupado por Alberto Goldman. Passaram uma semana no Palácio dos Bandeirantes, porque assim que assumiu o cargo, o governador teve de ser operado para retirada de tumor da próstata, mas logo trataram de voltar para casa.

“A gente gosta muito de onde mora há 18 anos. Estamos tão bem instalados... O Palácio é muito grande, a gente vai perdendo tudo pelo caminho. Fiquei tão cansada os dias em que passei lá...”, conta.

É certo que Deuzeni, por diversas vezes durante estes 32 anos, teve de mudar sua rotina por conta do casamento. Aprendeu a gostar de política e filiou-se ao PSDB. Mas concorrer a um cargo eletivo, nem pensar. “Entendo bem, leio jornal todos os dias, sei o que se passa no mundo. Isso é cidadania, não é obrigação porque sou mulher do governador.” Fez campanha em épocas de eleição, mas não queria que o Goldman se candidatasse novamente. “Ninguém merece mais uma eleição.  Como eleição é complicado... como é difícil. Tenho pavor de ano eleitoral porque a vida da gente vira de pontacabeça.” Para sua sorte e felicidade, Goldman já anunciou a Serra que, caso o tucano chegue à Presidência, não pretende ser ministro e que vai investir em um sonho: escrever. Esta é a primeira vez que o marido mostra-se cansado com a vida política, algo questionado há muito pelos filhos. “Uma vez eles falaram isso: ‘por que vai continuar nesta vida?’ Ele (Goldman) disse: ‘se eu sair, outro vai ocupar o meu lugar e não sei se vai ter a mesma experiência. Acho que tenho muito a contribuir.’” Por ter sido casada apenas com ele, Deuza não sabe dizer a vantagem ou a desvantagem de conviver com um ocupante de cargo público. “As crianças nunca quiseram se dedicar à política porque é muito difícil. É mais ônus do que bônus.” Ainda assim, ela diz ter orgulho de Goldman, por ser uma pessoa íntegra, que defende seus ideais e que pretende trabalhar neste ano nas eleições de Serra e Geraldo  Alckmin, para governador.

 

Foto: Celso Luiz
Deuzeni após um dia de trabalho no Fundo Social do Estado: nos próximos seis meses pretende mostrar seu trabaho; ela não é uma dondoca como muitos pensam. Foto: Celso Luiz

CHEGOU SUA HORA

O hábito em arrumar-se antes de sair de casa, independentemente do destino, vem da adolescência. Por ter nascido no Interior, diz que as pessoas sempre reparavam na vestimenta das outras. “Lá (Tupã) ninguém vai à padaria sem um batonzinho”, exemplifica. Esta realidade virou lei para Deuzeni, que, assim como escova os dentes, passa o lápis nos olhos e faz maquiagem todos os dias.

É dona de grande acervo de roupas e acessórios – tem uma bolsa Chanel há mais de 20 anos –, e ressalta que nunca comprou por conta da marca. “Prezo a qualidade. À época que comprei essas bolsas não existia a fama, este absurdo de preços.” As peças têm valor sentimental para ela.

Deuzeni deixa os acessórios de lado quando faz o que mais gosta: mexer no jardim. Paisagista de formação, é no sítio em Itatiba onde se livra do estresse da cidade grande e passa mais de sete horas – sem beber ou comer – cuidando de suas plantas, apesar de ter um jardineiro. A primeira-dama também gosta de fotografias, de viajar, ir às compras com a neta e da vida anônima. Por conta do cargo, tem de andar com seguranças, o que a obriga a deixar de lado todas as atividades já mencionadas e a permanecer apenas com o inglês, aprendido em casa, de manhã, com professora particular.

Se fosse em outros tempos,  Deuzeni diz que até gostaria de todo este status, da proteção, mas acredita que perdeu a privacidade. “Vou fazer 60 anos, já vivi muita coisa. Agora estou em uma fase que queria ter um pouco de sossego. Mas não estou reclamando, não. Vou dar o melhor de mim e tentar fazer a diferença”, promete.
Pois bem, Deuzeni, chegou sua hora!


ELA, POR ELA MESMA

Deuza define-se como sincera. “Está escrito na minha testa o que penso, não sei dissimular.” É gregária, gosta de pessoas, tem muitos amigos, cinco filhos (três deles do primeiro casamento de Goldman), três netas, é família e adora fazer reuniões. Tem como lema “nunca deixe para amanhã o que você pode fazer hoje”, o que a faz muito ativa. Nasceu em Tupã, interior de São Paulo, fez magistério e mudou-se para a Capital aos 18 anos. Empregou-se na construtora que Goldman era proprietário e aí nasceu a grande história de amor de sua vida.

Ele tinha três filhos e um casamento em crise. Iniciou-se um relacionamento que durou seis anos, até que decidiram casar. Deuzeni diz não ser culpada pela separação. “Ele sempre disse que eu fui conseqüência e não causa”, justifica. Cita como exemplo o fato de se dar bem com os enteados, porque os conheceu ainda pequenos e as netas, filhas deles, a tratam de avó. “Amor é convivência, não é?”

Paula, a filha, brinca que a mãe conheceu o pai rico e casou-se com ele quando ficou pobre. Deuzeni explica: “Não é bem assim. Na época em que nós decidimos ficar juntos, ele estava apenas se dedicando à política. Ou você é um bom político ou é um bom empresário. As duas coisas é complicado”. Goldman fechou a construtora e entregou-se definitivamente aos ofícios  parlamentares.

Muitos, conta a primeira-dama, não acreditavam que o relacionamento daria certo. “Ninguém dava um tostão porque ele era bem mais velho, judeu, político. Eu era cristã, bem mais jovem, ele tinha três filhos. E no fim faz 32 anos que a gente está casado, 38 juntos”, comemora.

E qual o segredo para que o amor permaneça por tanto tempo? “Sempre digo que consegui chegar até aqui porque ele ficou 26 anos em Brasília, a gente não  teve o desgaste natural de qualquer relação. Agora, a gente mora junto, mas com a vida que temos, não há tempo de brigar.”

Deuzeni revela que os dois prezam para que o romance permaneça vivo no casamento.
Inclusive, comemoram todo dia 19 – data em que saíram pela primeira vez – com bilhetinhos ou frases de amor. “Ele mandava flores até uns três anos atrás, mas agora está tão corrido...”, reclama. Ainda assim, em 19 de setembro, ambos deixam a agenda de lado para festejar o  primeiro encontro, religiosamente.


Comentários

Iara Scheiner
20/09/2010
Parabéns, Deuzeni!! Sem palavras!
Jacques
06/07/2010
Nada como termos pessoas capazes e inteligentes que acompanham os nossos politicos. Parabéns Sra Goldman por dar continuidade ao trabalho da ex- primeira dama do nosso Estado. Pena que não podemos falar o mesmo da 1ª Dama do nosso Brasil, é lamentável.

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