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quarta-feira, 2 de setembro de 2009 Envie para um(a) amigo(a) Imprimir Comentar

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Pasquale Cipro Neto

Na semana passada, “encerrei” a série de respostas aos leitores, mas, como o você já pôde ver pelas aspas que empreguei em “encerrei”, mudei de ideia. Vamos, pois, a mais três ou quatro consultas. A primeira delas diz respeito à expressão “nada a ver”. Um leitor diz que viu num livro a construção “Você não tem nada a haver com isto”, repetida no decorrer de um conto. Afinal, “Eu não tenho nada a ver com isso” ou “nada haver com isso”?

O que temos aí é o verbo “ver” (e não o verbo “haver”). Em textos clássicos, a expressão mais comum é “ter que ver” (em vez de “ter a ver”), como se vê neste exemplo de Camilo Castelo Branco: “Mas que tem isso que ver com o órfão?”. Na língua de hoje, talvez essa frase ficasse assim: “Mas o que isso tem a ver com o órfão?”. Independentemente da ordem e da opção por “a” ou “que” , o verbo é “ver”, e não “haver”: “Eu não tenho nada a (‘que’) ver com isso”.

A segunda consulta trata do emprego do infinitivo, que, como se sabe, é velha pedra no sapato de todos nós. Uma leitora pede comentários sobre a forma “assumirem”, presente nesta frase, escrita num texto sobre saúde pública: “Não interessa aos laboratórios assumirem esse papel...”. Em termos rigorosos, o infinitivo não deveria ter sido flexionado, já que, na verdade, o que se tem é o seguinte: “Assumir esse papel não interessa aos laboratórios”. Nessa ordem, fica claro que o infinitivo tem valor impessoal. O autor do texto certamente se deixou levar pela proximidade do verbo com o termo “laboratórios”, o que é perfeitamente compreensível, sobretudo quando se trata de língua falada. Na comunicação escrita, que muitas vezes pode ou deve ser objeto de releitura ou revisão, convém empregar a forma “assumir” (“Não interessa aos laboratórios assumir esse papel”).

A terceira consulta vem de uma leitora, que pergunta como se conjuga a primeira pessoa do singular do presente do indicativo do verbo “gerir”, que, como se sabe, significa “gerenciar”, “administrar”, “dirigir”. É bom lembrar que, assim como de “pedir” se faz “pedinte” (“aquele que pede”) e de “presidir” se faz “presidente” (“aquele que preside”), de “gerir” se faz “gerente”, que simplesmente é aquele que gere, ou seja, executa a ação de gerir.

Pois bem, a primeira pessoa do singular do presente do indicativo de “gerir” é igual à de “girar”: “eu giro”. Depois, cada um segue o seu caminho: “tu geres, ele gere, nós gerimos, vós geris, eles gerem” (de “gerir”); “tu giras, ele gira, nós giramos, vós girais, eles giram” (de “girar”). Como flexão do verbo “gerir”, a forma “giro” é muito pouco usada. Você já ouviu alguém dizer algo como “Eu giro as lojas da família”? Pouco provável. Nessas horas, as pessoas usam um sinônimo (“gerenciar”, por exemplo): “Eu gerencio as lojas da família”.

A quarta e última consulta diz respeito ao par “sortir/surtir”. Uma leitora quer saber se é correta a forma “sortiram”, presente nesta frase (extraída de um texto publicado numa revista semanal): “As medidas adotadas recentemente pelo Ministério da Saúde ainda não sortiram o efeito desejado”. Há equívoco, sim. “Surtir” significa “originar”, “causar”. A forma correta, portanto, seria “As medidas adotadas recentemente (...) não surtiram o efeito desejado”.

O verbo “sortir” significa “variar”, “misturar”. É por isso que se diz “balas sortidas”, que nada mais são do que balas de diversos sabores. O que temos nesse caso (“sortir/surtir”) é mais uma das tantas duplas de parônimos da nossa língua. Parônimos são palavras parecidas na grafia e na pronúncia, mas diferentes no significado. Bons exemplos “eminente/iminente”, “flagrante/fragrante”, “emigrar/imigrar” e etc. Até domingo. Um forte abraço.

Pasquale Cipro Neto é professor do Singular/Anglo Vestibulares, idealizador e apresentador do programa Nossa Língua Portuguesa, da Cultura. E-mail: [email protected]


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