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| Rosemary conseguiu driblar as altas taxas do cheque especial e se tornou poupadora. Foto: Celso Luiz |
Por que somos incapazes de juntar dinheiro? Guardá-lo não depende de aumento de salário, não está relacionado só à subida dos juros e nem ao alto custo de vida. Não poupamos porque não temos educação financeira e nos esgoelamos no crédito fácil a fim de atender os desejos imediatos.
Juntar dinheiro depende única e exclusivamente de força de vontade e atitude. Sentimentos que nos fazem começar o regime, uma faculdade, dar fim a um relacionamento e tantos projetos que ficam no papel por pura acomodação.
Ninguém poupa dinheiro do nada nem reserva um percentual do salário sem motivação. Novamente, voltamos à história do regime. Você é capaz de passar dias comendo alface com o objetivo de entrar naquele vestido incrível?
Com o dinheiro é a mesma coisa. São os sonhos que nos incentivam a economizar. Como a casa própria, a independência financeira ou o desejo emergencial de se livrar das dívidas. Não é preciso esperar a segundafeira, o dia do pagamento, uma promoção ou outra desculpa para sair do vermelho. A menos de sete meses para a virada de ano, ainda é possível planejar aquelas férias (a realizarem-se a curto prazo), ou a aquisição do apartamento (este a longo prazo). É hora de ter vida financeira saudável. É possível encontrar a luz no fim do túnel. Topa o desafio?
SOBROU MÊS NO FIM DO SALÁRIO
Rosemary Ferreira é exemplo de que é possível se organizar. Com 39 anos, solteira e com amigos que curtem balada, ela não via limites no cartão para se esbaldar no sábado à noite. A coleção de latinhas na cozinha denuncia que a cervejinha entre os amigos fazia parte da rotina. Mas o mundo desabou após a morte da mãe. A dor emocional logo deu vazão ao rombo nas contas, já que contava com a mãe para rachar as despesas.
O raioX do extrato bancário de Rosemary é o seguinte: salário bruto de R$ 1.700, saldo líquido de R$ 1.400 e limite do cheque especial de R$ 2.700. Porém, a situação foi muito pior. Há alguns anos ela ganhava R$ 3.000 e estava com o cheque especial estourado em R$ 5.500. A dívida consumia pelo menos R$ 500 de juros todos os meses. O rombo não tirava o sono de Rosemary, que se reconfortava saindo com os amigos. “Como já estava com restrição de crédito, pensava que fazer uma dívida a mais, com a desculpa de me divertir, não faria diferença.”
O consultor financeiro Reinaldo Domingos, do Instituto Disop – baseado nos pilares diagnóstico, sonho, orçamento e poupança –, na Capital, explica que a família precisa conversar para definir o que quer em um ano, em dez e acima disso. “E não é o quanto se ganha, mas como se gasta. Se temos dificuldade em realizar compras, seja de uma TV, carro ou casa, é porque não buscamos reservas para realizar o sonho. E com a facilidade de crédito ninguém economiza.”
O importante é fazer anotações entre 30 e 60 dias, que funcionam como diagnóstico do orçamento. As despesas são divididas por vestuário, alimentação, lazer, moradia, educação.
“A função básica da planilha é identificar para onde o dinheiro vai. A partir daí, reduzir e canalizar energia para colocá-lo no lugar certo, que é nos sonhos da família”, aponta Reinado Domingos. E se ganhamos o dinheiro e não temos nada realizado, é porque estamos sonhando de forma errada, sem dar importância ao que se almeja para o futuro.
A vida de Rosemary mudou depois da consultoria financeira durante três meses. Passou a anotar todos os gastos, desde um chiclete até o aluguel de R$ 560. “Os valores grandes sabemos para onde vão. As pequenas despesas é que fazem o rombo no orçamento”, analisa Reinaldo Domingos, que recomendou a Rosemary que puxasse o freio de mão nas festas de fim de semana.
O apontamento de Rosemary também identificou a alta taxa de juros do cheque especial. A providência foi cancelar o limite de crédito e renegociar a dívida. Para esses casos, a dica de Reinaldo é parcelar com taxas de juros de no máximo 2%. “O ideal é que a parcela tenha o mesmo valor dos juros que o devedor já pagava no banco. E sem o limite de crédito, o salário entra integralmente na conta”, explica.
A primeira proposta do banco era pagar a dívida em parcelas com 4% de juros ao mês. A negociação seguiu até a taxa de 1,89%. Com parcelas de R$ 150, quitou a dívida em um ano e ao mesmo tempo economizou R$ 50 ao mês na poupança. A meta agora é comprar um computador. “Como vou fazer pagamento à vista, posso pedir bom desconto.” A etapa seguinte foi começar a economizar. Com salário já tão restrito, cortou outros gastos, como serviço de identificação de chamadas do telefone fixo, e tirou todos os aparelhos eletrônicos da tomada, até o telefone sem fio. Muitos não imaginam como a luzinha acesa em eletrônicos no modo stand by podem sim onerar a conta de energia elétrica. Com essas atitudes, a conta caiu de R$ 40 para R$ 10. “Em alguns meses gastei menos de R$ 10 e precisei acumular consumo de dois meses para pagar o mínimo.”
Como trabalha perto de onde mora, Rosemary almoçava em casa e gastava mais combustível. Passou a levar marmita. As baladas foram limitadas a uma por mês. O resultado é promissor. “Como terminei de pagar a dívida em maio, me sobram R$ 150 por mês que a partir de agora vou aplicar para comprar minha casa.”
UMA APOSENTADORIA MAIS TRANQUILA
A coordenadora de responsabilidade social Lidice Lia Arrebola, 50 anos, também contou com o auxílio da educação financeira para custear os sonhos e planejar aposentadoria. O desejo é continuar trabalhando, só que à frente de uma ONG e subsidiada por previdência privada. Como nunca é tarde para poupar, Lidice destina 25% do salário de R$ 6.500 para o plano de previdência privada PGBL (Plano Gerador de Benefício Livre) financiado pela empresa e que só poderá ser sacado daqui a cinco anos.
O planejamento financeiro foi executado sem necessidade de aniquilar dívidas, mas o apontamento de despesas não deixou de revelar surpresas. “Em 15 dias percebi que gastos com farmácia, presentes, vacina e carro quebrado chegaram ao montante de R$ 2.000”, assustase Lidice.
O próximo sonho é adquirir apartamento na praia sem cair no financiamento. Para isso, conta com o FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) que acumula há 25 anos, economias de 13º salário e férias de anos anteriores, além de poupança. “A minha expectativa é de que consiga comprar o imóvel mobiliado em dois anos”, anima-se.
INVESTIMENTO
Especialistas ensinam que investir torna-se mais estimulante quando há um sonho definido. É a partir daí que será estipulado quanto será investido, em quanto tempo e qual a melhor alternativa. É preciso estar atento ao mercado e ter consciência de que alguns investimentos exigem riscos.
A poupança, a mais conservadora, teve rentabilidade abaixo da inflação nos quatro primeiros meses de 2010. Rendeu 2,10% no período, valor inferior aos 2,65% da inflação, o que significa que o poupador perdeu o poder de compra porque sua rentabilidade foi inferior à inflação.
Há diversas opções de investimento que dependem de quanto tempo o dinheiro poderá ser investido, como detalha o consultor Reinaldo Domingos no quadro ao lado com tipos de aplicações disponíveis. Recomendação que teria sido útil ao fotógrafo Mario Cortivo, que foge do perfil conservador e apostou na Bolsa de Valores para fazer o dinheiro render. No início a brincadeira começou com aplicações que iam de 10% a 30% do salário.
Com tantos riscos, sacou o dinheiro com apenas quatro meses e teve rendimento semelhante ao da poupança. Voltou a comprar papéis em 2008, mais informado sobre o mercado de ações e disposto a investir a longo prazo. “Como fiquei desempregado e já estava com casamento marcado, tive que tirar o dinheiro depois de seis meses. Ainda assim lucrei 40%. Passados 15 dias, estourou a crise mundial e os investidores viram os lucros caírem pela metade”, conta o investidor comemorando o golpe de sorte.
É POSSÍVEL GANHAR MAIS?
Para o publicitário e investidor autônomo Antônio de Júlio, pedir aumento salarial não é a única alternativa para garantir orçamento no azul. Para ele, o desafio é manter sem perder. Os riscos são abrir empresa sem conhecer o ramo ou com financiamentos. “Vivemos em época em que as grandes fortunas são feitas em quatro ou cinco anos como frutos de boas ideias. A Google é um exemplo. Isso se alcança investindo em relacionamentos dentro e fora da empresa e enxergando oportunidade de negócios”, enfatiza.
Na metodologia adotada pelo publicitário na Money Fit – programa que utiliza métodos de educação financeira com técnicas de desenvolvimento pessoal –, o ideal é que a renda bruta seja dividida em investimentos, sobrevivência e lazer. “Dessa forma é possível identificar onde diminuir gastos. Valor de aluguel ou prestação de casa não oscilam, mas produtos de higiene pessoal e gastos com telefone são facilmente revisados e o valor economizado pode ser direcionado para a poupança”, ensina Antônio de Júlio.
RESERVA PARA EMERGÊNCIAS
Desemprego, doença ou imprevistos podem arruinar de vez o orçamento. É por isso que economistas recomendam uma reserva estratégica para emergência. O valor deve ser de pelo menos seis salários.
Reinaldo explica que um desempregado reduz o padrão de vida quase pela metade. Assim, o dinheiro guardado seria suficiente para arcar com despesas de pelo menos um ano. Antônio de Júlio ressalta que o valor reservado deve ser separado antes das contas do mês. “Não pode estar atrelado a aplicação de risco, porque pode ser que o dinheiro seja necessário a curto prazo.”
CURTO PRAZO
Quando se tem pouco dinheiro guardado ou montante que deverá ser utilizado em menos de seis meses, o ideal é optar por poupança. Caso o prazo de resgate seja superior a seis meses, poderá investir em fundos de renda fixa ou variável, sempre observando taxas de administração e retenção de impostos.
LONGO PRAZO
No caso de previdência privada, é necessário saber se ela será utilizada para a redução na base de cálculo do imposto de renda. Se sim, o melhor é o PGBL (Plano Gerador de Benefício Livre). Seu investimento na Bolsa deverá sempre estar abaixo de 25% do total de dinheiro disponível.
MÉDIO PRAZO
Se tiver montante superior a R$ 5.000, pense em fundo de renda fixa ou variável. O tempo de investimento deve ser o mais longo possível, pois quanto maior o prazo de investimento, menor o imposto cobrado semestralmente ou no momento do resgate. Caso o montante seja maior, até 20% deste valor poderá ser aplicado em ações da Bolsa de Valores.
Fique atento às seguintes orientações:
? Diversifique seus investimentos.
? Não concentre todo o dinheiro em uma única instituição financeira.
? Distribua-o em pelo menos três de primeira linha e grande porte
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| Lia investe 25% do salário na aposentadoria. Foto: Thiago Silva |
CARTÕES DE CRÉDITO E CHEQUE ESPECIAL
Cartões de crédito e cheque especial são os maiores vilões de quem está endividado. Estas linhas de crédito são as mais desburocratizadas dos bancos e por conta disso contam com juros altíssimos. Quem gasta mais do que recebe invariavelmente usa o cheque especial e o cartão de crédito como complemento de renda e transforma as dívidas em bola de neve.
O consultor financeiro João Batista Sundfeld explica que muitas pessoas usam o cartão de crédito com a falsa sensação de que não estão gastando.Mas um dia a fatura chega e é preciso pagar o valor total. Quitar mínimo é como tentar subir numa escada rolante no sentido oposto. O pagamento mínimo representa apenas 10% da dívida. No mês seguinte o comprador deve o restante da fatura mais 12% de juros do uso do crédito rotativo. O consultor Antônio de Julio concorda e adverte: “Calcula-se que 40% do lucro das operadoras de cartão de crédito venha de juros. Por isso é importante negociar dívidas em atraso.”
O presidente do Andif (Instituto Nacional de Defesa dos Consumidores do Sistema Financeiro), Donizét Píton, reitera que há operadoras de cartões de crédito que cobram muito acima da média – de 13% a 16% de juros ao mês e 7% de pagamento mínimo da fatura. “Pessoas que pagam o mínimo há um ano têm a dívida triplicada. A recomendação é usar o cheque especial e o cartão apenas se tiver a certeza de que vai conseguir pagar”, alerta.
Antônio de Júlio avisa que o erro está em consultar o extrato bancário e não estar atento às artimanhas dos bancos. O extrato apresenta saldo e limite disponível com o crédito consignado todos juntos, como se o consumidor tivesse o cheque especial como salário. Para endividados, o Andif aconselha fazer uma perícia em cima da conta que está estourada. Assim é possível descobrir o quanto se deve, de fato. Em seguida é importante fazer um recálculo e negociação.
CARROS
A necessidade de compra imediata impulsiona a maioria dos consumidores para financiamentos de automóveis. Redução do IPI, promessas de taxas baixas e constante desvalorização dos automóveis fazem essa roda girar ainda mais rápido. A questão é: posso manter um carro? A prestação não sai por menos de R$ 400, tarifa impraticável para quem ganha R$ 2.000, que é o salário médio da classe C. A esse carro ainda somam-se custos com manutenção, seguro e estacionamento. “A estimativa é de que o custo da manutenção mensal seja de 3% do valor do carro”, explica Reinaldo Domingos
Outro grande agravante da prestação a longo prazo é a depreciação do bem. Um carro zero-quilômetro vale menos 15% quando sai da concessionária. A isso é somada a quantidade de meses de financiamento, que já foram de 60 meses e agora podem chegar a 84.
Até a quitação do bem, a estimativa é de que o carro já não valerá um quarto do preço inicial. Com a prestação muito alta, o consumidor acaba pagando por dois carros e não poupou nada. “Somos presas fáceis da armadilha do crédito fácil”, considera o consultor da Disop.
DICAS NA HORA DA COMPRA
Faça as seguintes perguntas:
Este produto realmente vale a pena, agrega valor para mim ou para quem for presenteado? Se a resposta for ‘sim’, espere para comprar no dia seguinte. Assim, não será movido a comprar por impulso.
Há algum similar mais barato?
No caso de equipamentos eletrônicos, é importante avaliar especificações técnicas para encontrar similares. Lançamentos sempre pesam mais no bolso.
Eu tenho ou não dinheiro para comprar?
Antes de entrar num financiamento, avalie quanto poderia economizar juntando dinheiro.
Quanto custa?
Faça cotações na internet e em pelo menos mais três lojas físicas.
Qual o preço à vista?
Com dinheiro em mãos é possível negociar e conseguir descontos.
Como pedir desconto
Pedir desconto deveria ser regra, essencial como saber o número do próprio manequim. Atitudes simples como chegar com sorriso no rosto, ser cordial com o vendedor e elogiar o atendimento da loja já criam clima favorável para negociações. Um vendedor motivado e chamado pelo nome pode dar até 5% de desconto, e o gerente no mínimo mais 5%. “Se criar um clima assim na loja, você terá todos os benefícios. Essas são dicas comportamentais, para criar simpatia com quem você nem conhece. Afinal, ninguém oferece ajuda por nada”, lembra Reinaldo Domingos.
CRÉDITO FÁCIL
Um dos grandes destruidores de sonhos é o crédito fácil, por mais contraditório que possa soar. Quer o tão sonhado eletrodoméstico? Basta pagar em suaves prestações. Ledo engano. O erro é incluir o valor da parcela no orçamento e não prestar atenção ao preço final da mercadoria, que pode até dobrar. “Somos naturalmente compulsivos e os produtos mexem com a nossa emoção. O marketing publicitário e o crédito fácil fazem com que você compre aquilo que não desejava para impressionar as pessoas que não conhece, com dinheiro que não tem”, define o consultor Reinaldo Domingos.
Um exemplo prático: para comprar uma TV de R$ 2.000 é necessário juntar R$ 200 por mês por 10 meses. Mas a maioria prefere pagar R$ 166 em 24 meses (total de R$ 3.984) para saciar o desejo imediato. “Quem paga o dobro desmonta o cenário de ganho porque vive em patamar que o dinheiro não paga despesas básicas, nem prestação e muito menos sobra para poupar. A consequência é a dívida, que gera inadimplência e que leva à falência pessoal financeira”, alerta Reinaldo Domingos
IMÓVEL
Em tempos de abertura de crédito para classe média baixa em financiamentos imobiliários que podem durar até a próxima geração, o sonho da casa própria se materializa em prestações intermináveis para a maioria dos brasileiros. A justificativa para entrar em financiamentos de 30 anos com juros que fazem o valor do imóvel triplicar é a de que a parcela investida é igual ao aluguel de uma casa, este sim um dinheiro empregado sem retorno.
Antônio de Júlio conta que a maioria dos compradores não contabiliza gastos além da prestação, tais como condomínio e taxas de entregas de chaves e parcelas intermediárias (em casos de imóveis comprados na planta), sujeitos a constantes mudanças de valores por conta da especulação imobiliária. O especialista recomenda investimento em consórcio, já que as taxas são baixas e há possibilidade de empregar FGTS e outras economias para dar lance. Caso este seja maior do que o dos outros consorciados, o comprador é contemplado com carta de crédito.
O casal Eliene Rodrigues e Alexandre Romera economizou para adquirir a casa própria sem entrar em financiamentos. Não tiveram custos com aluguel porque moraram por 11 anos na casa dos pais de Alexandre. “Sempre tivemos nossas economias e com quatro anos de casados compramos o terreno à vista”, ensina a vendedora Eliene, 41 anos. Cada um tinha salário fixo de pouco mais de R$1.000 mais comissões. Devido à oscilação de rendimentos, a poupança era necessária para que não fossem surpreendidos. Os dois trabalhavam e praticamente um salário inteiro era direcionado para poupança.
Com as economias, gastaram R$ 70 mil em dois anos para a construção da casa. “Só a sala é do tamanho dos três cômodos onde eu morava antes”, recorda Eliene. Passados nove anos, hoje o imóvel está avaliado em R$ 300 mil. Como se vê, realizar o sonho é possível, basta planejar e realizar.