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Filhos? Por que tê-los? Mas o que fazer sem eles? Como filho único minha experiência materna é única. Todos os filhos únicos sabem disso. Tudo é direcionado, tudo é só pra você. Ter irmãos seria dividir as afeições, o amor, os cuidados?
Até há pouco tempo eu sentia dificuldade em dividir o que era meu. Até eu ter filhos... Só assim consegui, finalmente, compreender não só esse amor (materno), como também passei a acreditar que cada filho é único, mesmo sendo 2, 3 vários...precisamos oferecer amor a cada um deles da maneira que cada um necessita. Uns precisam de mais atenção, repreensão e até carinho mais que os outros.
Acho mesmo que o instinto materno existe com uma força além da compreensão. Uma força d'alma, talvez além dos sentimentos, uma força que só uma mãe pode sentir, compreender e transmitir a cada um de seus filhos. Um amor materno tudo sabe, tudo quer, tudo pode. Nada pode substituir o amor, a entrega, o carinho de uma mãe.
O instinto materno existe? Sim! Apesar de os estudiosos acharem que isso é mero sentimento construído. (Adilson Alchuiy é jornalista, poeta, escritor e, acima de tudo, filho) |
Ser mãe é padecer no paraíso.” A frase clichê, que tem origem indefinida, correu por tantas bocas ao longo dos séculos que se tornou quase verdade absoluta. O carinho e a afeição são tão imediatos que as mães juram que o sentimento só pode ser instintivo. A recepcionista Luciana Borges sentia no corpo os efeitos disso e tinha certeza que os filhos – ela é mãe de Beatriz, 5 anos, e Mateus, 9 – estavam com fome no mesmo momento em que os seios começavam a vazar. Foi à flor da pele que também pressentiu quando Mateus não passava bem. E estava certa: o menino havia deslocado o braço em um acidente doméstico. “Ser mãe foi a melhor experiência da minha vida. Sempre fui apegada a crianças e só não tenho mais para não comprometer o orçamento familiar”, diz Luciana.
Será que o tal instinto materno existe? Controvérsias não faltam. Segundo a mestre em Psicologia Maria Tereza Maldonado, não. Para a especialista, o que ocorre é amor materno, um sentimento adquirido pelo contato e disposição de amar uma criança. “O instinto materno seria verdadeiro se a mulher tivesse em seu equipamento biológico algo que a levasse a amar automaticamente seu filho. E ela não tem. Algumas pensam ter porque começam a amá-los ainda na gestação. Isso prova que o amor é construído no seu psiquismo. O mesmo acontece nas adoções. O casal passa a construir afeição pela criança, antes mesmo de conhecê-la. O amor, assim como um feto, é gestado. Nem toda mulher consegue amar seu filho logo que ele nasce”, polemiza.
O psicanalista José Ângelo Gaiarsa discorda. Para o especialista, o instinto materno existe entre todos os grandes mamíferos – golfinhos, baleias, chimpanzés e também os seres humanos – pelo menos, até os cinco primeiros anos de vida do filhote, que é frágil e totalmente dependente dos cuidados da fêmea para sobreviver.
A dentista Maristela Lobo é exemplo de que o amor pela criança aflora mesmo em situações inesperadas. Planejava engravidar apenas depois que entregasse a tese de doutorado, mas a filha, hoje com 3 anos, chegou seis meses antes do esperado. Mas, o amor por Luíza floresceu como algo intrínseco. “Foi um período bem difícil porque sou da geração que quer trabalhar. Porém, quem não é mãe não consegue descrever este amor, que parece até mais forte do que o que sinto pelo meu marido”, descreve.
TURBILHÃO DE SENTIMENTOS
A experiência de dar à luz, para a mulher, gera mais do que apenas um tipo de sentimento. Até porque, nem sempre a gravidez foi planejada ou ocorreu no melhor momento. Além disso, a idéia de cuidar de uma pessoa totalmente dependente pode assustar, gerar frustração, culpa e sofrimento. “É uma situação que vem acompanhada de receio e é possível que a mulher não ame os filhos de imediato”, afirma a psicóloga Mariana Chalfon.
Assim, o instinto dá a vez para a construção de um relacionamento, como aconteceu com a professora e agente comunitária de Saúde Elaine Regina Coli Bizzoto, 40 anos, que entrou em depressão quando descobriu a gestação inesperada. “Não pensava ter o segundo filho, tinha outros planos para a vida. Não me sentia feliz, estava apenas conformada.” Durante os quatro primeiros meses ela apenas chorava e se sentia culpada por estar gerando uma vida que não queria. “O apoio da minha família e a minha fé foram essenciais para que interiorizasse que ser mãe novamente era privilégio.” Hoje João Victor está com 4 anos. A aceitação de se tornar mãe é conquistada dia a dia com a convivência com o pequeno e auxílio de terapia.
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| Foto: Agnews |
ADOÇÃO
Mulheres que adotam podem desenvolver o mesmo laço de carinho que teria por filhos biológicos. A psicóloga Mariana Chalfon explica que o arquétipo materno (padrões inerentes à psique humana e que aparecem em diversas culturas) é bipolar e a ativação positiva ou negativa é determinada pela relação da fêmea com o seu rebento e a sociedade em que está inserida. Assim, ser mãe numa metrópole é diferente do que em tribo indígena,
por exemplo.
Uma mulher que resolve adotar, mesmo sem as condições biológicas de uma gestação, tem o arquétipo materno no sentido de cuidar e nutrir uma criança. “Genitora e mãe são papéis diferentes. A primeira está vinculada à maternidade apenas biologicamente. O sentimento de se apropriar como mãe de um bebê pode ser construído”, enfatiza a psicóloga.
Um exemplo recente é a jornalista Glória Maria, que após 30 anos de trabalho – a maioria deles dedicada à Rede Globo – resolveu dar uma reviravolta na vida. Passou dois anos afastada da TV, mudou-se para a Bahia e aproveitou para trabalhar como voluntária na OAF (Organização de Auxílio Fraterno), em Caixa d’Água. Foi lá que se encantou por duas garotinhas. Não tinha a intenção de adotar, mas não resistiu ao imenso amor que sentiu pelas irmãs Maria, 2 anos, e Laura, 1, e resolveu lutar pela inesperada maternidade. Hoje, as duas moram com a jornalista, como mãe e filhas.
A atriz Angelina Jolie também aumentou a prole por meio da adoção. Apesar de início de carreira bem polêmico – onde parece ter assumido a personalidade da primeira grande personagem da carreira, a modelo Gia Carangi, com direito a notícias sobre bissexualidade, vício em drogas e brigas com o pai –, hoje a atriz é exemplo de doação e amor ao próximo. Tem seis filhos junto com o ator Brad Pitt, dos quais três são adotivos. O primeiro deles foi o bebê cambojano Maddox Chivan Jolie-Pitt, em 2002. Em 2007, se tornou mãe de Pax Thien Jolie- Pitt, que havia sido abandonado num hospital no Vietnã. Na Etiópia, em 2005, encontrou Zahara Marley Jolie-Pitt, que também entrou para a família. Depois disso, Angelina teve mais três biológicos e boatos especulam sobre o desejo da atriz em aumentar o clã Jolie-Pitt.
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A recepcionista Luciana Borges – mãe de Beatriz, 5 anos, e Mateus, 9 – diz sentir quando os filhos precisam dela. Amor que vai além de qualquer explicação
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A QUÍMICA DA MATERNIDADE
A ideia de que o amor não teria vínculo biológico é contestada pela ciência. A oxitocina, hormônio produzido no cérebro e liberado na corrente sanguínea durante as contrações do parto e lactação, é uma substância relacionada ao afeto, à confiança e, obviamente, ao comportamento materno.
“Na gravidez, o hormônio produzido é liberado na circulação. Determina a dilatação e expulsão do bebê. Após a primeira mamada, a mulher novamente fica inundada desse hormônio que estimula o desejo de cuidar da criança”, explica o professor de ginecologia e obstetrícia da Faculdade de Medicina do ABC e diretor do Caism (Centro de Atenção Integral à Saúde da Mulher) de São Bernardo, Rodolfo Trufald.
A substância também é benéfica para a saúde feminina, já que com a liberação do hormônio, o útero volta ao normal com rapidez. Com o passar do tempo, a liberação de oxitocina cai e é substituída por hormônios próprios da mulher, como a progesterona e prolactina, que facilitam a expressão de modos típicos delas.
MODOS DE MÃE
Antigamente, por hábito, as crianças eram cuidadas por babás. Depois, em meados do século 18, as mães passaram a dedicar-se exclusivamente aos rebentos. Hoje, a situação parece retornar ao princípio. Por necessidade de trabalhar, mulheres são obrigadas a deixar seus filhos novamente com empregadas ou em escolas, muitas vezes, por período integral. “Ficam um ou dois turnos em creches e escolas, têm babás na esfera doméstica e mesmo nos fins de semana estão acompanhadas destes trabalhadores especialistas em puericultura”, afirma a professora de Antropologia da Universidade de Brasília Soraya Fleischer.
Muitas destas mães guardam culpa por não poder passar mais tempo com os pequenos. Para a especialista, é preciso aprender a viver de acordo com a mudança dos tempos. “Talvez tenhamos que pensar mais em qualidade do que em quantidade de tempo junto deles.” A professora de Educação Física Selma Moreno que o diga. É mãe de seis filhos e teve que aprender a dividir o tempo entre eles, de acordo com a necessidade de cada um. “Sempre há aquele que precisa de mais atenção do que o outro, seja para dar carinho ou para repreender.”
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| Elaine Regina Coli Bizzoto e João Vítor: de grande susto a um amor sem fim |
Recentemente, a atriz inglesa Helen Bohan Carter, casada com o diretor Tim Burton, foi questionada em entrevista sobre o modo de criação dos filhos. Com esquema ousado, a família da atriz mora em três casas separadas dentro do mesmo terreno, ligadas por túneis. A mãe tem uma residência, o pai tem outra e os filhos pequenos vivem em outro teto, com babás. A afirmação causou polêmica. A antropóloga Soraya Fleischer questiona: “As mães e pais estariam relegando a criação de seus rebentos ou estariam inventando formas de poder conviver com eles sem que isso seja um fardo quase impossível?”
Tradicional ou ousado, instintivo ou construído, não importa. Ninguém pode duvidar desse amor que é completamente único e insubstituível.