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Versátil e intensamente comprometido com o trabalho, Marcos Caruso se divide na ponte aérea Rio-São Paulo e em dois papéis completamente diferentes. Nos palcos paulistas vive pela primeira vez um galã, o protagonista da peça As Pontes de Madison, na pele de um sedutor fotógrafo. O espetáculo, inclusive, está em temporada no Grande ABC. No dia 26, estreia em Santo André. No Rio, dá vida ao misterioso arquiteto Niemann, que chega a ter ‘ar’ de vilão, na novela global Tempos Modernos. “É bom fazer as duas coisas no mesmo momento. De segunda a sexta fico esquisitão e aos finais de semana estou aqui na peça, bonitinho (risos).”
Determinado, credita o sucesso dos 37 anos de carreira à obstinação. Mesmo tendo passado por momentos difíceis no início, e com um diploma de Direito debaixo do braço, nunca abriu mão da escolha que fez para a própria vida: o teatro. Nem mesmo quando chegou a faltar comida em casa. Foi justamente naquele momento que Caruso conseguiu transformar, literalmente, o drama que vivia na surpreendente comédia, o fenômeno Trair e Coçar é só Começar, que completa 24 anos em cartaz. “Foi a prova de que eu deveria investir naquilo que eu gosto, o teatro.”
Marcos Caruso recebe nossa reportagem duas horas antes de entrar em cena, no Teatro Renaissence, em São Paulo. No momento em que chegamos, falava ao telefone com ninguém menos que a atriz Regina Duarte. Franco e gentil ao mesmo tempo, mergulhou em nosso Papo-Cabeça. Caruso fala tranquilamente sobre política, fama, assédio dos fãs e o amor, tema central da peça que protagoniza, sem nenhum tipo de censura.
DIA-A-DIA – Conseguir sucesso muito grande no teatro, sendo que no País nem todos artistas conseguem sobreviver da arte. Qual o seu segredo?
MARCOS CARUSO – O segredo é a obstinação. E quando você é obstinado, conquista. Não é ser o melhor, mas bem-sucedido naquilo que você se propôs a fazer. Também não é ter fama, não é ser celebridade ou ser reconhecido. Tudo o que me propus a fazer fiz com muito prazer e obstinação. Consegui sobreviver 37 anos assim. O segredo é trabalhar 24 horas por dia pensando na profissão, não desviar o olhar das possibilidades em nenhum momento.
DIA-A-DIA – Aparecer na Globo é necessário para quem quer fazer sucesso no teatro?
CARUSO – Não, tanto que há sete anos eu só trabalhava em teatro e raramente fazia algo na televisão, nem tinha entrado na Globo. Mas é uma vitrine importantíssima, traz público. O lado ruim é que você passa a ser confundido com celebridade. E eu não admito ser confundido com celebridade, porque não sou. Extirpo essa palavra do meu dicionário. Sou um ator que se tornou conhecido pela televisão, mas não sou célebre. Eu não busco a fama. Busco a lágrima caindo dos seus olhos, o sorriso da sua boca e a reflexão do teu pensamento. Me tornar famoso ou conhecido é decorrência da minha profissão. É o ônus que eu tenho de pagar. Eu tenho que dar autógrafo, tirar fotografia, ser simpático com as pessoas.
DIA-A-DIA – Isso é ruim?
CARUSO – Não, é muito prazeroso quando você sente que a pessoa quer ser tocada pelo que você tem a dar à ela. Mas quando vêm falando “e aí, tio, dá um autógrafo?”, isso é ruim. Não para mim, porque dou autógrafo e vou embora. Mas é ruim para a pessoa que não sabe nem o meu nome, não tem interesse nenhum a não ser guardar aquele pedaço de papel por alguns dias ou algumas horas e que depois jogar fora. É ruim para a pessoa que vai se achar importante apenas por conta de um momento em que se encontrou com a celebridade, mas eu vou lá e tiro a foto. A minha obrigação é estar disponível.
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| "Já encontrei o verdadeiro amor. E volto a falar: esse tipo de cereteza você só tem uma vez na vida." Foto: Tiago Silva |
DIA-A-DIA – De onde surgiu essa paixão pelo teatro?
CARUSO – Surgiu de criança, por volta dos 7 anos. Minha avó era costureira e eu usava os retalhos para fazer bonequinhos de fantoche. E distraía as freguesas enquanto elas esperavam a prova de roupa. Ali, acho, que nasceu o ator, o autor, o diretor, o cenógrafo, o figurinista... Comecei a ser levado por uma tia-avó para espetáculos infantis. Ela teve essa sensibilidade de perceber meu talento e me acompanhou em espetáculos dos 7 aos 18 anos. Depois comecei a ir sozinho.
DIA-A-DIA – Elas chegaram a ver teu sucesso?
CARUSO – A minha avó não, mas minha tia, sim. Tenho muito orgulho disso. Ela faleceu com 80 e poucos anos e acompanhava totalmente meu trabalho, guardava recortes de jornal, era minha fã.
DIA-A-DIA – Teve fases em que deu vontade de desistir?
CARUSO – Sim, mas daí é que entra a obstinação. Se eu tivesse desistido nesse período de vacas magras, recuado e partido para outra atividade, não seria o que sou. E tenho uma prova muito clara, concreta disso. Depois de cinco meses de desemprego absoluto, onde não tinha nem o que pôr na mesa, penhorei duas pulseiras de ouro e um relógio da minha mãe para poder comprar comida, eu pensei “não há condições de viver assim” e meu pai falou “vai procurar um trabalho” e eu falei “não”. Comprei uma máquina de escrever e escrevi o Trair e Coçar é Só Começar. A necessidade é mãe da criatividade. Quando mais precisa mais você se torna mais criativo, não pode recuar.
DIA-A-DIA – O teatro deveria ser um espetáculo para o povo. Mas o acesso se torna difícil com ingressos tão caros. O que acha disso?
CARUSO – Eu discordo. O teatro não é caro. Ele se difere das outras artes por ser ao vivo e momento único. É diferente ir ao cinema, futebol, show de música. Ele tem um ritual, que faz com que as pessoas que não têm o hábito achem que o teatro é elitista, mas não é, é popular. Quanto ao preço, existem vários: meia-entrada para estudante, para idoso, descontos para grupo, descontos de começo e fim de temporada, campanha de popularização onde são cobrados a R$ 5 ou R$ 10. De 120 peças em cartaz, talvez em 20 você possa não ir porque os preços são muito caros, mas as outras, com absoluta certeza, sim. Se tiver interesse e procurar, vai ver que em determinadas épocas paga-se menos do que para entrar num campo de futebol, no cinema ou em um show. É muito fácil e simplista dizer que não vai ao teatro porque é muito caro. Essa é uma desculpa que eu não aceito.
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DIA-A-DIA – Acha que o real problema é a falta de hábito do brasileiro em ir ao teatro?
CARUSO – Acho. Nós não estamos habituados com o teatro na educação de base. Você estuda português, mas não estuda os dramaturgos na escola. Na França, se estuda Molière; na Inglaterra, Sheakespeare; na Itália se estuda Goldoni, mas nós não temos este hábito. Se fizesse parte do currículo escolar, incentivaria. Todos nós somos artistas e temos sensibilidade. Aquela pobre criança que está sobrevivendo do terremoto do Haiti, ela tem uma veia artística também, tem uma relação com a beleza, com a poesia. Voltamos para a minha tia-avó. Se você incentiva a criança na escola, ela será um adulto com hábito de ler, de tocar, de esculpir. Então, acho que esse é um problema cultural, educacional, o buraco é lá embaixo.
DIA-A-DIA – Ainda sente frio na barriga antes de entrar em cena?
CARUSO – Sinto todos os frios na barriga e em todas as noites. Meu coração acelera se tem na platéia alguém que eu conheço. Acho que o fato de ficar nervoso independe da experiência que se tem nos palcos. Não é sinal de fraqueza, mas de responsabilidade. A
Fernanda Montenegro morre de medo de entrar em cena todas as noites. E ela é a Fernanda Montenegro.
DIA-A-DIA – Você sempre achou espaço para falar de política em suas peças. Se fosse escrever uma peça hoje qual seria o tema?
CARUSO – Eu comecei a falar de política em 1984 com a Jandira Martini, quando da abertura democrática. Sua Excelência, o Candidato foi a primeira peça que falou abertamente sobre os desmandos da política. Então, a partir dessa data começamos a usar o tema como matéria-prima de nosso trabalho. Todas as peças colocavam dedos na ferida de problemas políticos, econômicos e sociais do País. A última foi Operação Abafa, em 2004. Mas a política hoje não serve mais. Chegou a um ponto de descrédito que nem rindo você consegue se identificar. Nós usávamos o riso na comédia como forma de extravasar a tragédia do cotidiano. Mas hoje a tragédia é muito maior. Os veículos jogam na nossa cara os escândalos de uma forma tão escancarada que se você tratar desse tema no teatro vai estar fazendo quase que uma peça infantil. Vai ficar ingênuo. Acho que este não é mais o momento de rir e de uma forma séria não dá para levar a política também. O Congresso iniciou o ano com menos da metade da Casa, as meias e cuecas estão cheias de dinheiro e nada acontece. Pelo contrário, manifestações em Brasília são combatidas com violência. Manifestantes que estão defendendo a ordem e o progresso, como diz a nossa Bandeira. Então, como tratar a política? Acho que este é um momento de pausa em relação a este tema.
DIA-A-DIA – Mudando completamente de assunto, o personagem que você interpreta em As Pontes de Madison, romântico, sedutor, é diferente de tudo o que já fez. Considera um desafio?
CARUSO – Um grande desafio. Primeiro desafio foi aceitar a peça. Quando a Regina (a diretora Regina Galdino) me chamou, eu disse que devia estar enganada, que devia chamar outro ator, porque eu não tenho esse perfil do homem romântico e gostoso. Mas, depois que comecei a ensaiar e assistir muitas vezes o filme – vi 11 vezes, porque queria ‘beber’ aquele material, me inspirar –, mais me distanciava da interpretação de Clint Eastwood e mais percebia que tinha dentro de mim um homem sedutor, ao meu modo. Um homem charmoso ao meu modo. Então, percebi que o desafio que seria uma coisa imensa – é a primeira vez que faço um drama romântico – se tornou um prazer. Mas sempre com o frio na barriga (risos).
DIA-A-DIA – Acha que seus personagens lhe ajudam a se descobrir também como pessoa?
CARUSO – Sim, ajudam a desenvolver um lado que eu conhecia, mas não desenvolvia por vergonha, por achar que sou muito magro, muito alto, muito comprido, careca. Como dizia o Nelson Rodrigues: o ator tem essa chance única de morrer todas as noites e aos sábados, duas vezes por noite. Não é lindo (risos)? Posso ser um assassino, um estuprador e acertar também, fazer boas ações. Se posso errar e acertar através dos personagens, eles acabam me influenciando, sim. É um ensaio para a vida.
DIA-A-DIA – Quando você está trabalhando longe de casa, de quem sente mais saudade? Tem alguma pessoa em especial?
CARUSO – Do meu filho e do meu pai, que são pessoas muito próximas.
DIA-A-DIA – A peça As Pontes de Madison fala do amor. Você acredita no amor?
CARUSO – O amor é a ‘mola mestra’ da humanidade. Ninguém vive sem amor e se não pelo amor. É pelo amor à profissão, à família, a você mesmo. É por amor que você se move. E encontrar o verdadeiro amor – e correspondido, que é o melhor – é coroar uma vida. Acredito plenamente no amor.
DIA-A-DIA – Por que acha que as relações estão tão passageiras?
CARUSO – Porque vivemos numa época em que tudo é curto. A internet faz com que você chegue ao outro lado do planeta em curto espaço de tempo, a mudança da tecnologia é feita de maneira imediata, vivemos em um mundo imediatista. De noite, as famílias não se encontram e conversam sobre o dia, mas um filho fica num computador, o outro no laptop, o outro no iPod, a mãe num lugar, o pai no outro. Então, as relações também se tornam curtas e descartáveis. A gente está descartando com muita facilidade tudo e é nesse momento que tem de investir no humano, que acho que será o diferencial deste terceiro milênio. A tecnologia e a ciência se desenvolvem de maneira absurda e o ser humano está fazendo o oposto, se fechando nas casas, nos computadores. Até a linguagem está mais curta, então é natural que os relacionamentos encurtem também.
DIA-A-DIA – A peça fala de traição. Vale tudo por uma paixão?
CARUSO – A peça fala do verdadeiro amor, não é traição. Por exemplo, você é casada, eu sou casado, nos olhamos agora e descobrimos um sentimento. Não estamos falando de um interesse físico ou vamos dar uma trepadinha, não é isso. O que a peça fala é do amor, daqueles que a gente tem certeza que é uma vez na vida e nunca mais. Não importa quantas vidas você viva. Na história da peça, eles sabem que se amam verdadeiramente, que as almas se encontraram absolutamente. É maior do que uma traição. Ela traiu o marido porque durante quatro dias ficou com esse cara? A peça não fala disso, mas do encontro do verdadeiro amor.
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DIA-A-DIA – Você já se deparou com situação como essa, encontrou seu verdadeiro amor?
CARUSO – Já. E volto a falar: esse tipo de certeza você só tem uma vez. Você pode ter tido três ou quatro maridos ou namorados, amou os quatro, mas verdadeiramente foi um só. Se você não ‘pegou’ naquela hora, passa e nunca mais volta.
DIA-A-DIA – Você contracenou com sua ex–mulher Jussara Freire nesta peça, antes da Denise Del Vecchio. Foi mais difícil ou mais fácil?
CARUSO – Mais difícil e mais fácil. Mais fácil pela cumplicidade de um casamento que
durou 20 anos, eu olhava nos olhos dela e já sabia o que queria dizer. Ela olhava nos meus e já sentia o que eu queria dizer. Eu sabia onde pegar nela, já tinha uma coisa de epiderme, uma química, que foi um facilitador muito grande. E, por outro lado, complica porque você está falando de amor e de momentos de muita sinceridade e verdade. E, usando uma memória emotiva do que aconteceu no casamento, você fica muito mais próximo de talvez até retomar alguma coisa com essa pessoa. Então, aí fica difícil, porque não era essa a intenção (risos). A intenção era fazer a peça e não resolver um problema parado no tempo. Nós somos grandes amigos. (Jussara Freire saiu na primeira temporada da peça. Segundo Caruso Caruso, o motivo da mudança de planos foi a dificuldade que ela teria para conciliar as futuras viagens do grupo de teatro com o remake da novela Uma Rosa com Amor, do SBT, onde interpreta Dona Pepa.)
DIA-A-DIA – Você é feliz?
CARUSO – Muito. Muito feliz. Eu talvez mereça, mas não admito que mereça ter tanta felicidade, em todos os níveis. Sou extremamente saudável, tenho meu pai vivo com 89 anos e saudável, tenho dois filhos saudáveis. E a saúde é o maior bem que o ser humano pode ter. Além disso, estou na profissão que eu escolhi e mais: venci nela. Então, minha filha, o que mais você quer?