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Ele não é qualquer um

domingo, 7 de março de 2010 Envie para um(a) amigo(a) Imprimir Comentar

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Miriam Gimenes

Foto: Marcelo Corrêa

Não é normal um menino aos 6 anos pensar no futuro. Ainda mais se essa preocupação surge durante passeio de carro com os pais pela orla de Santos em um dia ensolarado. O máximo que ele deveria se interessar era por um jogo de futebol na areia ou prever a temperatura da água na qual mergulharia minutos depois. A menos que esse garoto tenha nascido com a estrela, aquela que predestina alguns a fazer a diferença na vida. “Lembro que eu olhava pela janela do carro e falava: Eu quero ser alguém.” Fernando Torquatto conseguiu.

Considerado o queridinho das celebridades – Taís Araújo e Reinaldo Gianecchini não mudam o visual sem antes consultá-lo –, ele é um dos profissionais mais requisitados no setor da beleza. E como se isso já não bastasse, também é consultor de produções da Rede Globo, além de atuar atrás das câmeras como fotógrafo. No currículo? Produções de Belíssima, Da Cor do Pecado, Maísa – Quando Fala o Coração, Fantástico, Os Normais, Viver a Vida e a próxima novela das nove, Passione, que estreia em maio.

O maquiador recebeu a equipe da Dia-a-Dia Revista em seu estúdio, em Ipanema, no Rio, em um típico dia carioca de sol escaldante. Explicou por que foi na Cidade Maravilhosa que consolidou sua carreira, onde também se casou com Marina Morena, filha de criação de Gilberto Gil, e fez muitos, muitos amigos. Ressaltou a importância da imagem na vida de qualquer pessoa e a paixão que tem pelo sexo oposto, celebrado por ele não só no dia 8 de março, mas diariamente. “Só gosto de ser homem porque existem mulheres.”

Conheça um pouco mais deste certo alguém que todas as mulheres, com certeza, gostariam de ter a tiracolo.


Vocação

Fernando Torquatto nunca pensou em ser maquiador. Formado em Programação Visual, faculdade que fez esse paulista ir morar no Rio em 1988, ele entrou no mundo da beleza por acaso. Foi nessa época que deu os primeiros sinais de sua vocação. “Tinha aula de  fotografia na grade curricular e eu maquiava as minhas colegas de turma, meio de brincadeira, para poder fazer os trabalhos.”

A primeira chance de mostrar seu talento viria pouco tempo depois, em 1995, quando trabalhava de vendedor em uma loja. Um de seus clientes, que era diretor de comerciais, viu as fotos produzidas por Torquatto e o convidou para fazer o make de publicidades. “O que eu sabia de maquiagem era o que eu tinha aprendido com minha mãe ou lido em revista. Deu certo: consegui enganar bem as pessoas”, diz, sorrindo. Foi a mãe – que morreu há dez anos –, segundo ele, quem mais o influenciou na carreira. Isso porque ela era uma apaixonada por cinema, comprava revistas – cujas capas o maquiador tentava  reproduzir desenhando – e conversava com o filho sobre as divas da telona. Com ela, também aprendeu a gostar de música. Tanto que chegou a gravar um CD demo. Mas não pretende investir na carreira.

Do pai, herdou o encantamento pela fotografia, que passou a exercitar há apenas cinco anos, para não competir com outros profissionais do meio, porque não julgava ético.

No início, no entanto, o fato de ser maquiador causava estranhamento nas outras pessoas. Não sabiam se ele era o modelo da produção, maquiador, fotógrafo ou tinha qualquer outra função. “Sempre foi uma curiosidade que alimentei em relação a mim de uma maneira saudável e acabou virando um charme a mais. Acho bom não ser óbvio.”

Torquatto também recebeu o prêmio de melhor maquiador brasileiro e foi o primeiro a assumir uma marca multinacional. Era o passo que precisava para concretizar o sonho de criança.

Foto: Marcelo Corrêa

Sorte ou Talento?

Embora as situações em sua vida tenham acontecido por acaso, o maquiador acredita que nada vingaria caso ele não agarrasse as oportunidades. “Depois de 15 anos, se eu não tivesse consistência tanto pessoal quanto profissional e artística, não ia ter como permanecer no mercado. É muita responsabilidade você cuidar de uma novela com 100 personagens, dar consultoria a uma empresa e aumentar 20% de vendas em três anos. É um monte de coisas, mas hoje em dia me sinto maduro para sentir esse pesinho nas minhas costas com muita alegria.”

Ele acredita, no entanto, que o seu diferencial tenha sido esse tal estranhamento que causava nas pessoas – ou a curiosidade, como prefere dizer –, além de toda sua bagagem cultural e artística. “Vejo e ressalto como é importante pesquisar e estudar.” Foram esses atributos que lhe renderam o convite da figurinista global Gogóia Sampaio, em 2004, colocando-o em destaque no mundo do entretenimento com a novela Da Cor do Pecado. O profissional foi responsável por desvincular a imagem de Giovanna Antonelli da Jade, de O Clone, para a vilã Bárbara, que tinha o cabelo curto e loiro, look que virou febre na época.

O fato de o mundo da beleza ser um lugar em que a maioria é composta por homossexuais preocupou a mãe de Torquatto. Não por conta da opção sexual do filho, mas pelo preconceito que poderia sofrer. “Para mim não seria problema ser confundido. A partir do momento em que você trabalha, não depende de ninguém, não tem muita importância o que faz da sua vida. O que me aborrecia no começo acabou virando diversão.”

Sua postura junto a profissionais como Duda Molinos e Mauro Freire levantou o moral do setor. “A gente ajudou o profissional de beleza a se levar a sério e a ser respeitado, independentemente da sua opção sexual.”


Mundo Glamour

Ele está nas melhores rodinhas cariocas, participa de festas que poucos podem ir e tem intimidade com quem nunca imaginaria. Mas nem por isso acha que é melhor do que ninguém. Não é porque Carolina Dieckmann frequenta seu estúdio, Camila Morgado comenta situações da vida pessoal ou Taís Araújo o procura às vezes para conversas informais que Torquatto não consiga observar o meio. “Não dou importância ao que elas significam. Eu comemoro, parabenizo alguma conquista importante da carreira, mas não é exatamente o fato de elas serem famosas que me importa. Acho que eu vejo mulheres que escolheram uma carreira difícil de se destacar, que precisaram de muita força para chegar a um ponto ‘x’ de vida.” Torquato adora deixá-las divinas, mas é no momento de intimidade que mais gosta de estar com as amigas/celebridades. E ele preza tanto as amizades, independentemente se é famoso ou anônimo, que até as fotos desta matéria foram feitas pelo sócio Marcelo Corrêa, e a produção, pela irmã, Maria Torquatto.

A fama, para ele, é um elixir muito perigoso. “Se você tomar aquilo em doses homeopáticas, vai te ajudar a ter leveza, manter o brilho pessoal. Mas se beber demais, você se confunde, é meio absinto.” Quem é inteligente, para ele, nunca passa da dose. E acrescenta: assim como em qualquer profissão, o meio artístico está sujeito a ter gente equivocada.


Mulher

Torquatto gosta de mulheres fortes. Talvez por ter a mãe como musa inspiradora – ela criou oito filhos, dentre eles uma única mulher, e ainda tinha tempo para se arrumar e manter-se bonita – em suas criações, maquiagens e fotos, é isso o que gosta de mostrar. “Em todos os meus trabalhos, de uma certa forma, eu celebro a mulher. Virei maquiador por isso.” Para ele, as mulheres conduzem o mundo.

E é por conta dessa responsabilidade que acha importante que elas estejam sempre bonitas, independentemente da conta bancária ou dos atributos físicos. Diz que é necessário se conhecer para explorar o que melhor tem para oferecer. “Olhar-se ajuda a trabalhar a autoestima, que é fundamental. Beleza está muito nisso. Quando você tem segurança, se conhece, o seu olho brilha.”

A importância da imagem se dá, segundo ele, porque vivemos numa época em que esse quesito é essencial. “Quando você chega, a maneira que aparenta vai fazer com que as pessoas abram mais portas, ouçam com atenção. Não tem nada a ver com perfeição de traços ou beleza. Tem a ver com atitude, de você estar completamente valorizado dentro da
sua realidade estética. É um recurso fundamental.”

Foto: Marcelo Corrêa

Arquivo Pessoal

Torquatto não é homem do tipo que troca lâmpada ou arruma o fio descascado do liquidificador. Mas nem por isso deixa de ser perfeito aos olhos femininos.

 Com porte atlético – costuma ir à academia quase que regularmente –, ele é vaidoso e gosta de cuidar de quem ama (no caso, Marina Moreno).

Prestes a completar dois anos de casamento, ele diz que só agora a mulher está aceitando mais os pitacos profissionais dele. “No começo ela era mais reativa a certas coisas porque não queria muito misturar a pessoa física com a jurídica. Mas agora viu que não é um olhar técnico, é um olhar carinhoso, gentil, de parceiro. Está usufruindo com inteligência do que eu posso oferecer”,brinca.

O maquiador faz questão de ressaltar, com esse exemplo, a importância em saber lidar com as diferenças no relacionamento. “Em dois anos, a gente já passou daquela fase Disney, em que tudo é incrível. Agora é vida real. Você tem de negociar certas coisas (entre elas, está a questão de ter um filho) e ocorrem certos embates. Mas se você tiver inteligência, amor, flexibilidade para poder se adaptar a essas diferenças, sem nunca deixar de ser legítimo, tudo fica mais fácil.”

Torquatto acredita que Marina está com ele porque gosta de seus atributos, e também pelo fato de ele não ligar em discutir a relação ou de ir ao shopping fazer compras – confessa que até ajuda a escolher as peças.
 
“Nunca vou ser um cara padrão por mais que me esforce.” Você seria um homem perfeito aos olhos femininos, então? “Não existe ninguém perfeito. Se existisse, até o meu trabalho
seria muito chato”, finaliza.


Jogo Rápido
Nome: Luis Fernando Torquatto Silva
Nascimento: 13/11/1968
Local: Santos
Livro: Biografias
Filme: Sociedade dos Poetas Mortos (Peter Weir)
Música: Qualquer uma do Michael Jackson
Hobby: O que me descansa a cabeça é ver gente passar. Gente é o que me alimenta.
Cidade: Nova York
País: Itália


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