/Estilo Angélica

Artes plásticas no pós-crise

segunda-feira, 1 de março de 2010 Envie para um(a) amigo(a) Imprimir Comentar

Compartilhe:

Cristie Buchdid

Leda Maria do Prado. Foto: Denis Maciel

Passo a passo, o mercado de artes se recupera da crise. A artista plástica Leda Maria do Prado, que morou 23 anos em São Bernardo e reside há sete em Nova York, onde é curadora da Ward-Nasse Gallery, no Soho, lembra a falência de muitas galerias, mas vê luz no fim do túnel. Compradores voltam aos poucos, mas ainda buscam obras de menor valor. Em passagem pelo Brasil, ela também revela que a arte contemporânea é a mais vendida e critica os que compram com vistas à decoração.

Como o mercado de arte reagiu no pós-crise no mundo?
Sentiu os efeitos, como outros setores. Artistas renomados venderam trabalhos pela metade do preço. Isso se percebe em leilões da Christie’s e da Sotheby’s. Depois do verão de 2009, galerias antigas e tradicionais de Nova York encerraram atividades.

E como foi durante a crise?
As pessoas pararam de comprar e de investir não só em artes, como em coisas básicas. O mercado estava preocupado e as galerias perceberam queda de público e de vendas. Em termos de visitação, a Ward-Nasse Gallery caiu cerca de 40% na crise. Agora se recupera aos poucos. De dezembro para cá, retomou 15%.

A crise alterou a preferência de consumo?
Sim. Agora o público, em Nova York, procura trabalhos abaixo de US$ 10 mil. Antes vendíamos bem obras acima desse valor.

E no Brasil?
Também não está fácil. Ouço reclamações de galeristas que não estão vendendo como antes. Eu tenho levado muitos artistas brasileiros para Nova York e eles dizem que o mercado é muito competitivo no Brasil. Também abordam a falta de espaços para exposições e para vendas em São Paulo, no Rio e no Nordeste em relação à quantidade de artistas.

Qual é o tipo de obra mais procurada?
Com certeza, as telas.

E as esculturas?
Não vendem tanto porque os materiais, como bronze, e o frete são caros, o que aumenta o custo das obras. Por isso, acaba elitizando um pouco esse mercado. Outro problema é o espaço, pois em Nova York, por exemplo, os apartamentos são pequenos.

Qual é o estilo mais valorizado?
A arte contemporânea é a mais vendida. A aceitação é boa. Acredito que é porque combina mais com a decoração, é mais descontraída, solta. Geralmente não está ligada a temas, como política ou religião.

E o acadêmico?
Também existe público para o acadêmico. Mas no figurativo tem uma cena, na qual é possível reconhecer o assunto de imediato. Às vezes, o tema não agrada.

Nesse quesito, o abstrato leva vantagem?
Sim, porque em geral o tema é desconhecido. Por isso, tende a agradar.

A arte clássica, com inspiração renascentista, vende?
As de artistas renomados vendem em leilões. Tenho contato com artistas italianos com trabalhos de qualidade, mas como não são renomados, as obras têm menor valor.

Como é a variação de preferência do público?
No Soho, o público é mais jovem e, em geral, prefere a arte moderna. Diz que é cool. Já na Califórnia, por exemplo, o público é mais conservador e prefere o estilo acadêmico. Fizemos exposição na L.A. Art Fair, em Los Angeles, e lá é mais tradicional.

Qual é o perfil do comprador de artes atualmente?
É variado. Os jovens também gostam de assemblage, que é da família das esculturas. É um trabalho interessante. Temos compradores antigos e colecionadores que visitam todo mês a galeria em busca de novidades. Eles buscam um pouco de tudo, moderno e acadêmico, e querem artistas emergentes. Esse público compra mais como investimento, pensando no futuro.
 

Qual é o nível cultural dos consumidores?
Tem uma grande diferença entre os que compram com conhecimento de arte e os que compram para decorar. Infelizmente, o público está bem dividido.

Como investem os que têm nível cultural maior sobre as artes plásticas?<EM>
Eles buscam artistas emergentes e acompanham a evolução de seus trabalhos. Compram como um negócio e não se preocupam com os preços. Esse público é o grande investidor e paga os valores mais altos do mercado. No entanto, no momento de crise, aproveitaram para negociar preços e barganhar, mesmo sabendo que a obra vai se valorizar.
E o público que compra para decorar?
Compra pela cor, para combinar com a decoração.

É crescente a procura de obras apenas para decorar?
Não vejo um crescimento, mas tem um grande número. São pessoas que geralmente têm muito dinheiro, mas não têm cultura. Elas não visitam exposições ou museus, mandam seus decoradores. Isso acontece mesmo com celebridades, que geralmente buscam preços altos e artistas reconhecidos. Tudo por status.

Qual é sua análise da compra vinculada à decoração?
Eu odeio isso. A morte, para um artista, é quando alguém quer comprar um trabalho pela cor, para combinar com o sofá, com a cortina. É horrível. São pessoas que não têm conhecimento e nem cultura. Não se interessam por arte. Para elas tanto faz arte ou artesanato. Isso é alienação.

Por qual estilo artístico as galerias se interessam mais?
Depende da galeria, da localização, do público, do espaço que tem, de quanto tem para investir. Com a crise, estão acabando as galerias que investem no artista até ele fazer nome. Nesse novo cenário econômico, os artistas têm de se bancar, principalmente os novos.

Cite artistas brasileiros que estão em ascensão no mercado internacional.
A aceitação da arte brasileira é boa no mercado internacional. A Ward-Nasse tem 800 artistas, sendo que dez foram escolhidos para a L.A. Art Fair. Desses, quatro são brasileiros. Mauro Soares, de Campinas, é bem aceito. Seu trabalho figurativo é como pontilhismo, com riscos em tela. Laerte Agnelli, de São Paulo, faz telas figurativas. Lu de Paula, de Florianópolis, que mora em São Paulo, fez sucesso pela composição e texturas em telas abstratas, usando materiais como tecido e tinta acrílica.

Cite nomes do Grande ABC com trabalhos bem aceitos nos Estados Unidos.
Carmelo Gentil Filho, de Santo André, agrada muito com óleo sobre tela em trabalho figurativo no qual retrata paisagens. Milton Mota, da mesma cidade, faz trabalho geométrico em telas. É tridimensional e de justaposição de peças.


Comentários

janio pires senna
20/11/2010
www.janiopiressenna.com.br
Rose Moreira
28/03/2010
Olá! Foi de muita valia abordar este assunto. Estou de malas prontas pro exterior e estava insegura quanto o que e me aguardava lá fora, mesmo tendo vários convites pra expor. Agora sei que meu estilo está bem cotado. Você está de parabéns pela matéria, bisous. Rose Moreira.

Nome:

E-mail:

Comentário:

Código segurança:

Voltar
Publicidade

Diário do Grande ABC. Copyright © 1991-2012.Todos os direitos reservados