Fernanda Souza chega ao estúdio imponente e chama a atenção de longe, com óculos escuros, longos cabelos loiros, jaqueta e calça jeans, blusinha e escarpin rosa. Exibe porte de mulherão, embora pessoalmente seja mais baixa do que aparenta na TV. Cumprimenta a todos com dois beijinhos, costume que a paulistana adquiriu dos cariocas, e se apresenta: “Prazer, eu sou a Fernanda“, como se isso fosse necessário. A atriz é um dos rostos mais conhecidos do Brasil devido à carreira que iniciou aos 5 anos de idade.
Antes da entrevista e do ensaio fotográfico, a atriz cuida do cabelo, da maquiagem e é orientada pelo assessor para negociar as perguntas. É dele que recebemos a informação de que Fernanda Souza não fala sobre vida pessoal – uma maneira de manter a privacidade mesmo sendo pessoa pública. Como se fotos da moça aos beijos com o modelo João Paulo Alcântara, apontado como namorado, não falassem por si mesmas.
Quem vê o belo sorriso estampado em campanhas publicitárias não imagina que a veterana Fernanda Souza possa se sentir pouco à vontade em frente às lentes fotográficas. O figurino foi uma de suas maiores preocupações. Mesmo estando bem magra – foi preciso ajustar as roupas de tamanho P –, ela faz questão de usar somente peças que acentuem a sua condição de mulher esbelta. “Essa roupa está me deixando muito gorda“, reclama sobre o vestido tomara que caia champanhe, que precisou ser ajustado à base de alfinetes ao corpo miúdo. “Tem certeza de que vocês vão tratar isso no Photoshop? Olha lá, hein!“, diz apontando o dedo para a repórter ao verificar que a cicatriz da cirurgia no nariz foi detectada pelos flashes.
Entre as cirurgias declaradas estão redução de mamas, lipoaspiração e intervenção para afinar o nariz. A típica adolescente gordinha ficou para trás, mas as inseguranças não. As primeiras fotos foram bastante contidas. Até que o assessor decidiu assumir o comando da sessão com elogios rasgados que arrancaram largos sorrisos e expressões de mulher fatal, e confiante. O incentivo surtiu resultados instantâneos e colaboraram para o sucesso das imagens que ilustram esta reportagem.
A atitude põe em contradição o discurso de que não tem medo de engordar para encarar um papel, como fez na novela O Profeta. Para viver a Isadora, a advogada sarada do Edifício Jambalaya em Toma Lá Dá Cá, ela emagreceu sete quilos em poucos meses. Fernanda Souza viverá sua primeira vilã em Entre Dois Amores, novela de Elizabeth Jhin que substituirá Cama de Gato.
MULTIFACETADA
Fernanda Souza chamou atenção logo na infância, quando foi escalada para apresentar o programa X-Tudo (1992) na TV Cultura. Em seguida, garantiu destaque no papel de Mili na telenovela infantil Chiquititas (1998), do SBT. Na Rede Globo, é lembrada pela doce caipira Mirna da novela Alma Gêmea (2005), atualmente reprisada na sessão Vale a Pena Ver de Novo, além de viver a professora gordinha Carola em O Profeta (2006).
A atriz reconhece que crescer na TV foi grande aprendizado, além de ter a oportunidade de trabalhar com ótimos profissionais. “O segredo é aprender e não só absorver tudo como uma esponja“, enfatiza. É grata por ter interpretado personagens caricatos e com grande possibilidade de criação, o que resultou na trajetória marcada pela versatilidade que pretende manter ao longo da carreira.“Não basta ter só talento e vontade. Se você não tiver a oportunidade e alguém que te dê um espaço para mostrar seu talento, não vai conseguir.“
Ainda neste ano, Fernanda Souza mostra versatilidade na telona como uma das protagonistas do filme Muita Calma Nessa Hora, com roteiro de Bruno Mazzeo. O longametragem, previsto para estrear em maio, conta a história de três meninas que vivem na favela de uma grande cidade. O último trabalho de Fernanda na TV foi no papel da mau-caráter Isadora, de Toma Lá Dá Cá, que encerrou temporada de dois anos e meio em dezembro. O trabalho lhe garantiu a imagem de mulherão pela primeira vez. “Eu já era mulher antes, as pessoas é que não viam“, diverte-se.
O visual com longos cabelos loiros chamava mais atenção do que Fernanda imaginava. Cabelos presos e boné garantiam discrição para cumprir a rotina de corrida na praia e surfe. Atividades que adotou para equilibrar o espírito e manter o corpo em forma. Quando encerrou as gravações do sitcom de Miguel Falabela, adotou o cabelo curto novamente. “Durante as gravações eu recebia cantadas da plateia, o que me incomodava demais. Vestiame daquele jeito para encarnar o personagem. Não é o tipo de roupa que eu usaria por aí.“ A sensualidade de Isadora rendeu até convites para posar nua em revistas masculinas. Nunca respondeu positivamente a nenhuma das propostas, mas garante que não tiraria nenhuma peça por menos de R$ 1,5 milhão.
Fernanda é rígida consigo e adora olhar para a televisão e se perguntar se aquela na tela é ela mesma. “Quando me distancio do personagem, isso dá mais credibilidade à cena“, diz a atriz, que começa em junho as gravações de Entre Dois Amores, próxima novela das seis, na pele de sua primeira antagonista. “Sempre quis fazer uma vilã, dessas escrotíssimas, que as pessoas olham na rua e têm vontade de matar.“ É esperar para ver como essa loira ainda pode surpreender.
ROBIN HOOD
A atual paixão da atriz é pelo projeto social Fashion for Smile, da grife Bobstore, que consiste em vendas de camisetas com intuito de construir cisternas para famílias carentes no Nordeste. O papo com Tico Sahyoun rolou numa das últimas edições da São Paulo Fashion Week sobre o ato solidário em Canapi, no sertão de Alagoas, e conquistou o coração da atriz.
“O que mais me atraiu na ideia do Tico foi poder ajudar pessoas que estão abaixo da linha da miséria, coisa que a gente nem imagina. Água é tão fundamental que para mim é surreal encontrar pessoas que não têm o que beber. Em Alagoas tem gente com tanto dinheiro e mesmo assim existe muita pobreza. Vesti a camisa do projeto, literalmente, e me tornei uma das madrinhas. Fiquei mega-honrada. Nunca imaginei que isso pudesse acontecer“, relata.
O primeiro passo foi a construção de 17 cisternas para armazenamento de água das chuvas, que vão garantir suprimento para as famílias no período da seca. Cada cisterna beneficia de duas a três famílias. Nessa região, o abastecimento é feito em buracos de terra que ficam longe das casas e acumulam água diretamente da chuva sem nenhum tratamento. “Antes do projeto, 90% da população tinha problemas de diarreia. Sem contar que as famílias possuem um grandenúmero de crianças, as maiores vítimas das doenças por falta de água potável“, completa Fernanda. Ela comprou a briga e se autointitula Robin Hood, vendendo camisetas para os mais ricos para ajudar os mais pobres. Uma camiseta usada por Fernanda Souza inflaciona o produto e gera ainda mais dividendos à nobre causa. Num dos eventos, ela leiloou uma peça autografada por R$ 490.
Entre as gravações, reserva horário para viajar a Canapi e conferir o andamento das obras do teatro da cidade, que levará o seu nome. Além da sala de espetáculos, o complexo abrigará espaço para aulas de aperfeiçoamento profissional, projetos de geração de renda e aulas de reforço escolar num dos municípios mais pobres do País. A animação de voluntária de primeira viagem rende longos diálogos sobre a situação de miséria da região. “Nunca tinha pensado em participar de algum projeto específico, mas o Tico envolveu a gente. É do tipo de pessoa que conta sobre um projeto com os olhos brilhando e faz os seus brilharem também. Como atriz, tenho missão social de realmente fazer. Entendo quem não queria participar, mas acho bacana poder usar a minha imagem para fazer o bem.“
Da viagem que fez ao Nordeste, traz na memória histórias de vida de pessoas que não fazem das limitações financeiras motivos de tristeza. Ela conta entusiasmada sobre a trajetória de uma parteira de 80 anos que é uma das mais antigas moradoras de Canapi. “Ela já fez muitos partos e, durante todo esse tempo, seu sonho sempre foi o de ter uma cisterna. Quando ela disse isso, foi impossível conter as lágrimas. Como poderia imaginar que ajudaria a realizar o sonho de alguém com 80 anos? Não tem coisa mais mágica, mais bonita no mundo do que isso. É a minha vontade de retribuir por tudo que tenho.“
E olha que não é pouca coisa. Em 20 anos de carreira, Fernanda já fez inúmeros comerciais, oito novelas, uma minissérie, um filme e um programa infantil. Os rendimentos foram administrados com ajuda da mãe, que investiu em imóveis. Hoje, ela mora sozinha no Rio de Janeiro e sustenta a família em São Paulo. Uma forma de retribuir aos pais o empenho em levála para testes de casting por toda a infância. “Eu não teria chegado aonde cheguei sem a ajuda deles. Ninguém faz nada sozinho, por isso eu reconheço com carinho, com palavras. Meu pai, minha mãe e minha irmã são peças fundamentais no meu sucesso“, agradece.