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Caixa de pandora

domingo, 7 de fevereiro de 2010 Envie para um(a) amigo(a) Imprimir Comentar A- A A+

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Eliane de Souza e Raquel de Medeiros

Em 1968, seis anos após a criação da pílula anticoncepcional, feministas queimaram seus sutiãs em frente ao Senado em Washington, nos Estados Unidos. Os lábios bradavam por igualdade, oportunidade e liberdade sexual. Era dada a largada para um caminho íngreme,longo, mas de grandes conquistas. As mulheres continuam a percorrê-lo, determinadas a conquistar mais e mais. Imaginem que em pleno século 21 ainda não é tão fácil assumir que nós gostamos de sexo sim. E quem não gosta, não é mesmo?

“O sexo só tem limite quando um dos dois se sente incomodado“, afirma a maquiadora Pietra Príncipe De Luca, 27 anos. Há alguns anos tal comentário chocaria a sociedade, uma vez que o papel da mulher era fazer do ato sexual uma prática para a procriação. Mas Pietra jamais pensou assim. Ela é contemporânea, sente prazer, procura o parceiro ideal, toma iniciativa nos relacionamentos de sexo casual e jamais espera que o bonitão, com  quem ficou na balada na noite anterior, telefone no dia seguinte. Ela não tem medo de falar sobre suas experiências sexuais com as amigas, inclusive na TV, onde apresenta o  programa Papo Calcinha, do canal Multishow. “Acho o sexo casual completamente plausível. Pode ser com alguém que você conheceu hoje por um amigo em comum na boate, com alguém com quem você gosta de dividir um pouco de seu tempo e seu tesão sem compromisso.“

Quem perdeu o bonde da história poderia acreditar que o despertar da mulher para o sexo  é fato recente e aconteceu após a flexibilização dos valores religiosos, por incentivo da mídia ou pelo desejo de se compararaos homens. Até porque antigamente alguns estudos  apontavam que a mulher não tinha desejo sexual. Mentira! A vontade de ser livre  sexualmente sempre existiu. Começou bem lá atrás. No período colonial as casadas e  insatisfeitas frequentavam as missas em busca de galanteios masculinos. Tudo muito discreto, secreto, por baixo dos panos. Até que em 1949, a corajosa filósofa Simone de Beauvoir publicou O Segundo Sexo, manifesto pioneiro do feminismo no qual propunha formas de relacionamento entre homens e mulheres. E ela não falava da boca para fora: extravasava os desejos pessoais em conjunto com o marido, o filósofo Jean-Paul Sartre,  em um casamento aberto e sem muitos limites. Cada qual vivia relações paralelas sem  que isso os afastasse como casal.

É fato que nós, mulheres, progredimos muito, mas, se ainda não alcançamos plenamente a liberdade sexual, em parte a culpa é nossa, que pensamos mais e agimos menos. “As  mulheres ainda se preocupam com o que o homem vai pensar se transarem no primeiro encontro. Enquanto pensarem assim, não estarão plenas. Até porque alguém quereria um homem que pense dessa maneira? Não serve nem para abrir a lata de palmito“, ironiza Pietra.

Se a mulher articulada pode espantar um homem retrógrado entre quatro paredes, a independente, com bagagem cultural e desejo consciente, assusta mais ainda. “Mesmo que esteja de calcinha fio dental, salto15 cm e uma quantidade quase imperceptível de celulite“, brinca Pietra, que desafia as mulheres a encontrarem parceiros que sejam exceções, mesmo que para isso seja necessário experimentar vários. Por que não?

Aqui no Brasil, Leila Diniz foi um dos ícones desta luta. Representava – e ainda hoje representa – a busca pela liberdade sexual. Ao revelar publicamente seus comportamentos e ideias sobre a liberdade sexual, recusar os modelos tradicionais de casamento e contestar a lógica da dominação masculina, ela personificou as radicais transformações da condição feminina no País. “Leila fazia e dizia o que muitas queriam fazer e dizer. Com vida amorosa livre e prazerosa, com o seu corpo grávido de biquíni, trouxe à luz do dia  comportamentos e valores já existentes, mas que eram vividos como estigmas, proibidos ou ocultos“, explica a antropóloga Mirian Goldenberg, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Liberdade com limites


“Em pesquisa com as camadas médias do Rio de Janeiro, quando as questionei o que mais invejavam em um homem, responderam em primeiríssimo lugar: a liberdade. Quando perguntei aos homens, quase a totalidade disse categoricamente: nada“, afirma Mirian.

Explicação para o resultado deste estudo é que a mulher hoje ainda vive engessada pelas regras da sociedade: ela pode e deve ter prazer sexual, mas não pode ter iniciativa nem manifestar desejo. “Não precisa ser virgem, mas deve ter poucos parceiros sexuais. A dupla moralidade impõe comportamento controlado para ela e livre para ele. Elas aceitam passivamente o controle sobre o seu corpo e sua sexualidade. Estão longe de ser meio Leila Diniz“, analisa a antropóloga.

Recentemente, comercial de uma marca de chinelos foi censurado no Brasil por mostrar uma idosa incentivando a neta a fazer sexo sem compromisso. A sociedade que se diz tão liberal mostrou-se indignada e reclamou.A propaganda foi retirada da TV, mas permaneceu na internet. Será que se fosse um avô com o neto causaria tanto furor? “De fato não há liberdade sexual para a mulher. Cerca de 90% delas ainda se sentem mal em fazer sexo por sexo, apenas 10% afirmam conseguir separar transa de afeto“, diz o psicólogo especialista em relacionamento amoroso Ailton Amélio da Silva, da Universidade de São Paulo. “Na prática, ela é mais travada, porque na sociedade ainda há o preconceito de se transar com vários pode até não arranjar namorado. E também porque para ela a transa sempre teve mais consequências, como a gravidez e a obrigação de educar esse filho“, esclarece o profissional, também autor do livro Relacionamento Amoroso.

Pesquisa feita pela Universidade do Texas, nos Estados Unidos, constata isso. Enquanto eles têm excitação relacionada à necessidade evolucionária de espalhar seus genes, elas fazem escolhas pensadas, pois carregam a responsabilidade se ficarem grávidas. Talvez essa seja uma das respostas ao fato de terem vida sexual com menos aventuras, mesmo com o advento da pílula anticoncepcional. O estudo revela que há muitos fatores que diferenciam o desejo sexual feminino do masculino. Enquanto eles são mais visuais, elas levam em consideração características como personalidade, senso de humor, confiança e status.

Na opinião de Ailton Amélio, a mulher terá dificuldade para alcançar a igualdade sexual.  “Isso está implantado na genética e demora muito para ser revertido. Biologicamente, como só pode engravidar a cada nove meses, não interessa transar a qualquer hora. Interessa mais qualidade do que quantidade.“

Para a sexóloga Regina Navarro Lins, ainda há esperança. “Elas querem ter prazer e deixar de serem passivas. A mulher passou a tomar iniciativa nos relacionamentos, porém, ainda existem as que esperam o telefone tocar no dia seguinte. A fronteira entre os gêneros masculino e feminino está se dissolvendo. Acho que em 20 anos elas serão tão livres quanto os homens.“

Chefe de família

Com a chegada do atual milênio e o desenvolvimento da mulher no mercado de trabalho, o panorama mudou. Hoje, a maioria é responsável pelo sustento da família. Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, do IBGE, a proporção de famílias chefiadas só por mulheres aumentou de 24,9% em 1997 para 33% em 2007. Durante o mesmo período, famílias formadas por casais com filhos e chefiadas por elas também  representaram ascensão, passando de 600 mil para quase 3,3 milhões.

História da mulher


Mais do que entender a revolução sexual feminina, é importante identificar na história quando de fato as mulheres deixaram de ser donas do próprio corpo. Assim que o patriarcado se instalou, a sexualidade feminina foi aprisionada. “Há 5.000 anos os homens descobriram que tinham participação na procriação. O descobrimento do macho como pai coincidiu com o surgimento da propriedade privada. Ele ficou obcecado pela certeza de paternidade para deixar herança só para o filho”, cita Regina Navarro. É ultrapassada a concepção de que o homem precisa ser forte, ter poder, nunca falhar, transar com todas, enquanto que a mulher deve ser casta, não gostar de sexo, delicada, frágil e boba. “O sistema patriarcal oprimiu ambos os sexos, porque corresponder ao ideal masculino também não é fácil. Mas elas foram mais vítimas, pois eram aprisionadas, nelas podia-se bater, matar, estuprar”, relembra Regina Navarro.

A revolução sexual foi a virada contra esses valores. Teve início com o direito ao voto, a entrada no mercado do trabalho, o direito ao divórcio e o controle sobre o corpo, com o uso de preservativos e o aborto, que no Brasil só é permitido por decisão judicial em em casos de estupro ou risco de vida da mãe.

A pílula


A guinada para a mudança de costumes foi o advento da pílula anticoncepcional, em 1962. “Uma moça para casamento tinha de mostrar que não gostava de sexo, mas na metade do século 20, ela passou a conhecer o orgasmo e a querer prazer. Também pode transar com quem quiser sem culpa, entendendo que sexo énatural“, diz Regina Navarro.

E essa liberdade tem ligação com a ascensão da mulher no mercado de trabalho. “Há 30  anos uma separada era vergonha para a sociedade“, comenta Thiago de Almeida,  especialista em relacionamentos.

A executiva de contas Simone Serrano, 36 anos, rompeu tabu familiar, ao se divorciar após cinco anos de casamento, por não convencer o marido de que poderia educar a filha e ainda continuar no mercado de trabalho. “Fui criticada por minha família e muitos  estimulavam a continuar em um casamento falido“, conta Simone, que se casou novamente.

A artista plástica Marize Tamaoki, 54 anos, é outro exemplo de que a situação mudou: se divorciou após 25 anos de casada. A rigidez de sua família a faz agir de forma diferente com as filhas Daniela, 32 anos, também divorciada, e Mirela, 24. “Elas falam abertamente sobre  relacionamentos e trazem os namorados para dormir em casa.“

Marize mostra que é possível ser feliz sozinha. Fez amigas solteiras e conheceu outras  pessoas, independentemente de idade. Seu namorado tem 38 anos.

Em meio a tantas mudanças, os homens estão perdidos. “Quando estão em busca de  prazer ficam assustados. O homem tinha prazer com prostitutas e a esposa, ‘pura’, era só para ser a mãe dos filhos. Hoje nenhum homem aguenta mais isso porque já conheceu outro tipo de mulher“, opina Regina Navarro.

Religião

Mais do que costumes de família e tradição, a religião também teve papel importante na retração da liberdade sexual. Até hoje o catolicismo condena o uso de pílulas e camisinhas e também não aceita realizar o segundo casamento. “A religião é muito relativa e não tem mais a força de antes. Assuntos como virgindade e homossexualidade são criticados pela Igreja, mas ninguém deixa de ser gay por isso“, diz Regina Navarro.

No entanto, em pleno 2010 há grupos de jovens que querem resgatar os ensinamentos religiosos e defendem a virgindade até o casamento. Alguns são identificados pelo uso de um anel. “Acho que uma minoria deve ter razões pessoais para querer ser virgem e não entendo o motivo. Se é algo que faz bem, reprime isso em nome de quê?“, questiona Regina Navarro.

O teólogo Valdemir Alexandre da Silva afirma que a religião não impõe limite apenas à mulher. E acredita que a mídia ajuda a difundir a ideia do sexo para o homem como algo banal. “A mídia bombardeia a mulher e a família, impondo certas regras. Mas Deus sempre preservou o homem e a mulher e assim é o manual de Dele para o ser humano.“

A estudante de jornalismo Marcelle Sansão tem 20 anos e planeja se casar virgem. Católica praticante, a escolha pela virgindade vem pela religião e pela experiência dos pais. “Meus pais casaram-se virgens. E hoje em dia se não for para casar virgem, quero que ao menos seja com alguém especial.“ A decisão é motivo de piada entre as amigas. “Os meninos dizem que não tem mais ninguém assim. Mas garotas que ‘liberam’ facilmente existem aos montes“, aponta orgulhosa.

Independência ou morte

No Brasil, a chegada da mulher a postos exclusivamente masculinos se deu pelo desejo de elas manterem independência financeira e pela necessidade de complementação de renda. “Cada vez mais a mulher se dá conta de que não deve depender do homem porque é uma prisão. Sem trabalho não pode se separar por estar sempre à mercê do marido. Por conta disso, e incentivada pelas mães, é que elas estão dando importância a uma carreira profissional e se casando cada vez mais tarde“, diagnostica Regina Navarro.

A professora de Educação Física e designer de interiores Thaís Amorim Gonçalves, 21 anos, namora e não pensa em se casar antes de se firmar profissionalmente. “Meu avô já dizia que uma mulher só pode sair de casa se o seu trabalho e o seu marido puderem proporcionar o mesmo padrão de vida da casa dos pais.“

O equilíbrio é mais fácil quando o casal percebe que toda a relação é regida por companheirismo. Enquanto ele deve aprender a dividir as tarefas domésticas, a mulher deve saber que só poderá ter filhos se o parceiro também desejar. “Eles não dividem as tarefas por culpa da mulher, que acha natural que ele leia o jornal enquanto ela prepara o jantar depois de um dia de trabalho.“

Na busca do prazer

A busca pelo prazer sexual feminino incentivou o surgimento de nova profissão: personal sex trainer, que ajuda aqueles que querem evoluir na cama. Fátima Moura traduz o fetiche
sexual em brinquedos e soluções para casais que querem incrementar a relação. “Antes elas procuravam porque queriam agradar o homem, hoje querem se desenvolver como mulher. Ela foi para o campo profissional e ficou dura“, sintetiza Fátima. Aos poucos a mulher está se livrando da vergonha de ter novas experiências e atingindo a satisfação sexual. Porém, ainda tem de enfrentar o preconceito de homens e, surpreendentemente, de mulheres. “Quem investe causa medo nas outras, há uma concorrência.“ Mais do que um
companheiro que demore nas preliminares, Fátima detectou que um parceiro que dê atenção, apoio e carinho ainda ocupa os sonhos das moçoilas.

Queixas de insatisfação sexual feminina também são assunto diário no consultório de Thiago de Almeida. “As mulheres ainda se sentem culpadas e acham que sua função no casamento é proporcionar prazer ao marido“, explica o psicólogo, que atribui esse raciocínio à falta de diálogo sobre sexo.

Enfim, a verdade é que o sexo é uma grande brincadeira. Não há – ou não deveria existir – regras ou fórmulas a seguir. Na intimidade, a única obrigação que a mulher tem – e o homem também – é ser feliz. E ponto.


Comentários

Maria Helena
10/02/2010
Olá, boa tarde! O texto é muito interessante. Vou ler com mais calma. Infelizemente a mulher ainda é um pouco podada, limitada e contrangida quando tomam a iniciativa na hora do sexo. Assim acaba sufocando o prazer e sufocando a liberdade na hora de amar. Talvez se não amasse, sentisse mais que o homem, fosse mais fácil.

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