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Nem sempre um mar de rosas

segunda-feira, 17 de agosto de 2009 Envie para um(a) amigo(a) Imprimir Comentar

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Regina Navarro Lins

“Eu nunca consegui que um relacionamento meu durasse mais de um ano e meio. Sempre me senti uma incompetente por isso, principalmente depois que conheci meus vizinhos: Dona Margarida e Seu Raimundo. Eles eram umas gracinhas. Tão unidos e se amando tanto! E estavam casados havia mais de 50 anos! Cada vez que subia com eles no elevador, ficava arrasada. Imaginava ter algum problema grave porque aquele casal era o testemunho da minha incompetência. Um dia meu telefone ficou mudo e precisei ir até a casa deles pra telefonar. Quando a empregada abriu a porta, parei perplexa. Eles estavam no sofá assistindo televisão, de mãos dadas. Essa noite tive de tomar um Lexotan para dormir. Eu estava me relacionando com um homem havia onze meses e já vinha questionando o término dessa relação. Uns três meses depois, o porteiro me avisou da morte do Seu Raimundo. Fiquei sem saber como agir. Precisava fazer uma visita de pêsames à Dona Margarida, mas imaginava sua dor, seu desespero. Como ela ia conseguir viver sem seu grande amor? Tomei coragem e fui. Cheguei logo dizendo que imaginava como sua dor era indescritível, e tentei algumas frases de consolo. Mas a reação dela me deixou atônita. Com tranqüilidade virou-se pra mim e disse: ‘Que nada, minha filha, na verdade foi um grande alívio. Eu já não agüentava mais. Ele era um chato. Nada estava bom. Já tive dia de preparar o arroz três vezes! Além disso, não fazia nada sozinho. Me acordava a noite toda sem necessidade. Era incapaz de buscar um copo d’água.’ Perplexa, ainda tentei argumentar: ‘Mas, Dona Margarida, estive aqui outro dia e encontrei vocês no sofá de mãos dadas!’ E então ouvi sua resposta, que encerrava definitivamente o assunto: ‘Isso era só um cacoete’.”

Esse testemunho esclarecedor sobre um longo casamento foi dado por uma moça de 32 anos, numa palestra minha sobre relações amorosas. É claro que nem todos os casamentos duradouros são assim, mas é muito comum as pessoas idealizarem um casal de velhos quando os veem juntos, sem ter ideia do seu cotidiano. Na palestra, a discussão girava em torno da possibilidade ou não de um casamento durar a vida inteira havendo amor, carinho e prazer na companhia um do outro. Alguns participantes defendiam a existência de ótimos casamentos duradouros. Foi então que a moça pediu para dar seu depoimento.
 
Ao ouvir o relato sobre a vida de Dona Margarida e Seu Raimundo, me lembrei de uma situação por mim vivida. Eu estava num belo casamento, com a igreja toda enfeitada e muitos convidados. Na hora dos cumprimentos, todos aguardavam na fila para desejar felicidades aos noivos. Foi então que ouvi a conversa de duas senhoras bem idosas a minha frente. Uma delas, referindo-se à noiva, disse baixinho: “Coitada, hoje começa a cruz dela.”
 
Por mais espanto que cause esse comentário, não podemos nos esquecer que as mulheres quando casavam, há 60 ou 70 anos, sabiam o pesado fardo que dali para frente teriam que carregar. Mas como o sofrimento sempre foi considerado uma virtude na nossa cultura judaico-cristã, havia compensações. Quanto mais difícil a vida e mais problemas tivessem, se suportassem tudo com resignação, adquiririam valor social.
 
Apesar da suspeita de que a vida a dois numa relação estável não seja uma coisa muito boa para a maioria, muitos preferem acreditar, por medo ou falta de alternativa conhecida, que é uma “proposta válida”, como declaram alguns artistas na mídia. O casamento obriga homens e mulheres a viver dentro de regras e normas estabelecidas, visando ao controle da liberdade de cada um. É na área afetiva e sexual que as limitações são mais claras. Você só deve amar uma única pessoa durante anos e somente com ela pode fazer sexo. É comum várias pessoas terem características que nos agradam e nos atraem sexualmente. Então, fica difícil cumpriressas exigências. O resultado é muita gente infeliz, sem prazer de viver, recorrendo a antidepressivos.
 
No entanto, de uns tempos para cá vem diminuindo muito a disposição das pessoas para sacrifícios. A maioria busca desenvolver ao máximo suas possibilidades e sua individualidade,evitando manter relações vacilantes. Há muito a ser vivido. Embora o grande conflito ainda se situe entre o desejo de permanecer fechado numa relação e a vontade de liberdade, as mentalidades estão mudando. Quem sabe as pessoas comecem a perceber que é possível viver bem sem formar um par? E que a idéia de complementação com o outro não passa de um grande equívoco.

 

Regina Navarro Lins, psicanalista e sexóloga, é autora de O Livro de Ouro do Sexo (Ediouro). E-mail para a coluna: [email protected]. Site: www.camanarede.com.br


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