Fazenda Nova Gokula, em Pindamonhangaba, abriga sede da filosofia Hare Krishna no Brasil
Na entrada, uma vaca me observa sossegada, como que dizendo: “Aqui sou eu quem dá as cartas”. Mais adiante, a placa com inscrições em sânscrito e o som do maha-mantra que ecoa de dentro de um templo rosado desanuviam
qualquer sombra de dúvida: chegamos à Fazenda Nova Gokula, comunidade-sede da filosofia Hare Krishna no Brasil. Fundada no ano de 1978 em área de 119,5 hectares nos arredores de Pindamonhangaba, a cerca de 160 quilômetros de São Paulo, a propriedade é perfeita para quem quer se aprofundar na cultura indiana sem ter de carimbar o passaporte para o Oriente. E ainda ganhou ares de moda desde que a novela Caminho das Índias revelou aos brasileiros os costumes da terra de Gandhi e Madre Tereza.
Assim como esses líderes espirituais, Nova Gokula preza a simplicidade – algo bem distante da opulência que se via nas casas de Opash e Shankar na telinha. A hospedagem é rústica: há camping (R$ 8 por pessoa) e pousada com opções de quarto (R$ 70 por casal), suíte (R$ 80) e chalé (R$ 100). A maioria dos celulares fica fora de serviço e não há telefones fixos.
À noite, a escuridão é total. Todos dormem cedo para estar de pé já na primeira cerimônia do dia no templo, realizada impreterivelmente às 4h30. E os animais parecem sentir que estão em território sagrado, onde o “Não matarás” da lei mosaica é praticado em sua plenitude. Vacas e pavões circulam por toda parte. Entram sem cerimônia nos terraços do templo, das lojas, da lanchonete e das casas. Não à toa, diversas aves silvestres apreendidas com traficantes são liberadas ali pelo Ibama.
Várias espécies são facilmente avistadas em trilhas guiadas aos fins de semana pelo brâmane Rama Putra Das, que também comanda rituais de fogo, cria pavões, cultiva plantas, produz essências de óleo, toca harmônio e ministra aulas de Bhakti-Yoga no templo – filosofia baseada na literatura tradicional da Índia, o Srimad Bhagavatam. Esse perfil de versatilidade e autossuficiência, aliás, é comum entre os devotos. “Aqui, as castas não são determinadas pela linhagem familiar, mas pela vocação que cada um apresenta”, esclarece.
A trilha começa às 9h com exibição de filme sobre conduta ecológica. Depois, todos se aquecem com exercícios de alongamento e respiração (pranayama). A caminhada propriamente dita dura cerca de duas horas, margeando o bosque de Radharani, a Casa dos Mestres (construção que hospeda gurus e turistas a R$ 150 por casal, com café da manhã), rio e pequenas quedas de água gelada que massageiam as costas dos banhistas. “Também damos palestras direcionadas a grupos. O pacote com trilha, aulas de ioga e de medicina ayurvédica e o ritual do fogo sacrificial para queima dos karmas, com bufê de frutas no fim, custa R$ 50 por pessoa”, diz Rama Putra.
Outra opção é o pancha karma, pacote de uma semana que inclui massagens com óleos especiais, banhos de
imersão, sauna e dieta personalizada seguindo os preceitos da medicina ayurvédica. “Antes de mais nada, fazemos
uma anamnese com o indivíduo para definir se ele tem predominância de pita, vata ou kapa (elementos que determinam o biótipo do indivíduo, sua personalidade e o consequente estilo de vida que deverá seguir para alcançar o equilíbrio)”, explica o terapeuta Vijaya Marga.
NOT DOG
A comida é capítulo à parte em Nova Gokula. As especialidades vão desde a coxinha de carne de jaca com catupiry da lanchonete até samosas de recheios diversos e muito, muito curry. Tudo, é claro, de origem vegetal. E delicioso.
O cachorro-quente deles chama-se Not Dog, com salsicha de soja. A maionese não leva ovos, a cevada substitui o cafezinho e o cardápio da pizzaria frisa que a mozarela foi feita sem coalho animal.
Para beber, tchai ou lassi (iogurte batido com leite e incrementos a gosto do freguês, como água de rosas, frutas
e cardamomo). “Procuramos adaptar a comida indiana ao paladar do brasileiro, acrescentando salada às refeições e menos condimento às receitas”, afirma a dona do Restaurante e Pizzaria Gokula, Govinda Devidasi. O almoço vegetariano custa R$ 17, incluindo salada, suco e sobremesa.
E a carne não é a única restrição. Logo na entrada, uma placa esclarece o turista de que cigarros, bebidas alcoólicas, jogos, animais de estimação e sexo fora do casamento também são proibidos. Assim como andar de biquíni pelas dependências da fazenda, longe da cachoeira. O jeito é aproveitar o contato com a natureza para abdicar dos vícios materiais e elevar o espírito a Krishna. E este alimento Nova Gokula tem de sobra.
A namoradinha do amigo de Roberto
Uma mansão de quatro andares chama atenção em meio ao verde de Nova Gokula. Não só pela imponência ou pelo cor-de-rosa das paredes, mas por abrigar alguém que brilhou nas passarelas, estampou capas de revista e deu o que falar na década de 1960. Trata-se de Maria Stella Splendore, considerada a primeira top model do Brasil e que atraiu os flashes da imprensa nacional ao se casar com o aclamado figurinista Dener Pamplona de Abreu aos 16 anos.
Além de desfilar para estilistas do quilate de Ektor e Valentino, Sri Splendore gravou disco, estrelou no cinema e fez novela na TV Tupi. Quando preparava-se para entrar no estúdio de Hebe Camargo, na TV Record, um jovem cantor
chamado Roberto Carlos puxou papo com ela. Era o início de uma amizade que culminaria em um caso de amor. Há quem diga que a paixão teria inspirado o Rei a compor o hit Namoradinha de um Amigo Meu, mas a ex-modelo prefere manter a discrição: “Isso só o Roberto pode dizer”.
Sua autobiografia, lançada em 2008, no entanto, dá detalhes sobre o romance: “Roberto chegou encabulado e, sem dizer uma palavra, pegou minha mão e me levou ao seu quarto. Dener foi o primeiro homem na minha vida e Roberto foi o segundo. Disse isso a ele”.
A relação foi rápida, mas mantém um ponto de interrogação na cabeça de Maria Stella, que até hoje não sabe se é Roberto ou Dener o pai de sua filha Maria Leopoldina, nascida em 1967. “Falamos sobre o assunto, mas éramos muito imaturos. Eu tinha 18 anos e ele, 25.” No início dos anos 1980, outra paixão arrebatou o coração da ex-modelo: a devoção a Krishna. Basta falar no movimento liderado por Bhaktivedanta Swami Prabhupada para seus olhos brilharem. “Foi um marco na minha vida. A fama me incomodava. Por isso, quis me tornar monja”, diz a missionária,
que morou nos Estados Unidos, na Índia, e hoje vive em Nova Gokula.