Mesmo depois de se arriscar, escalar as montanhas mais altas e chegar ao topo, há um momento em que a vida parece não fazer tanto sentido. Dá vontade de mudar tudo, seguir nova trajetória. Alguns desejam abrir uma pousada de frente ao mar. Outros adorariam seguir a carreira artística. Há quem deseje trabalhar com artesanato ou largar tudo para lutar a favor do meio ambiente.
Em comum, todos apresentam a mesma virtude: coragem. Ímpeto que os leva a abandonar a zona de conforto para encarar o novo. É comum aproveitar a virada do ano para fazer pedidos e arquitetar planos de mudança. Para a maioria, no entanto, o tempo passa e os projetos acabam esquecidos no papel. Medo, insegurança, comodismo, críticas da família: são muitos os motivos que nos impedem de dar o primeiro passo. Imagine largar a velha vida, o emprego, livrar-se do chefe, das cobranças antigas, dar a reviravolta e seguir em busca de um sonho.
Nas páginas a seguir, conheça histórias de pessoas – anônimas e famosas – que fizeram isso. Elas integram minoria que se armou de coragem para enfrentar o maior desafio da vida: encontrar a felicidade, a plenitude de quem faz o que gosta. Algumas já chegaram lá, outras ainda estão no início da empreitada. Trajetórias únicas que se complementam em um mesmo sentimento: a confiança de que tudo pode dar certo.
Um modelo sustentável
Paulo Cezar Fahlbusch Pires, o Paulo Zulu, começou a vida como surfista profissional aos 16 anos, época em que também poderia ser visto pelas ruas e praias cariocas vendendo roupas e peixes. Bastou fazer o primeiro book, aos 28, para estourar no mundo da moda. Já morou em Paris e Nova York, mas hoje prefere residir com a mulher – a também modelo Cassiana Mallmann – e os filhos Patrick e Dereck na sossegada praia de Guarda do Embaú, em Santa Catarina, onde planta, pesca e administra sua pousada, a Zululand. Apesar de ainda fazer desfiles Brasil afora, cuida com muito carinho de tudo o que construiu por lá. Quando indagado sobre o motivo que o levou à hotelaria, o modelo é enfático: “A vontade de ter uma aposentadoria sustentável.” E faz um comparativo entre os dois estilos de vida: “Nos centros urbanos, corro atrás do lado profissional. Em Guarda do Embaú, corro atrás do lado pessoal.” Sente falta dos amigos que deixou no Rio, mas confessa-se aliviado por proporcionar aos filhos um cotidiano distante da violência carioca. “Considero-me empresário, surfista e lutador, modelo e pescador. Todas essas profissões se completam.”
Mão na massa
A publicitária Luana Massi, 35 anos, trabalhava no departamento de marketing de um banco e ganhava bem, quando decidiu abrir mão da estabilidade para correr atrás daquilo que gostava de fazer: doces. “No início, preparava as coisas em casa e levava para o banco para dar aos colegas. Pegava-me de madrugada fazendo bolos, criando receitas. Foi quando pensei que podia trabalhar com isso.” Como não existia curso profissionalizante em São Paulo, Luana Massi largou o emprego e foi para Paris fazer um curso de pâtisserie. “Ao tomar a decisão, não tive medo, não achava tão ousado. Na volta, percebi que não tinha mais meu salário e isso começou a pesar.”
Luana não se apertou. Passou a vender e a presentear as pessoas mais chegadas com as criações gastronômicas que fazia. “Conforme ia fazendo, fui aprendendo. Aprendi a adaptar as receitas francesas ao paladar brasileiro.Deu tão certo que, de repente, os bolos começaram a invadir minha casa, minha sala, e achei que devia abrir um local específico”, revela. Hoje, a publicitária tem marca própria, a Madeleine Doces by Luana Massi, que funciona numa casinha discreta na Vila Olímpia, Capital.
Ela ganha menos e ainda passa 24 horas pensando em doces. “Ter o próprio negócio não é fácil, ganho 70% do que eu recebia no banco, fico o dia inteiro ligada, lembro de coisas no meio da noite. Não paro nunca.” Porém, diz, a satisfação não tem preço. “No banco, tinha horário de entrar, não tinha hora para sair, tinha chefe. Hoje, tenho mais autonomia, o trabalho é muito mais prazeroso, me realizo muito mais. Valeu a pena.”
Fim do estresse
Cláudia Pugliesi, 45 anos, chegou onde muito jornalista sonha em chegar. Foi apresentadora do BATV, jornal da Rede Bahia, afiliada da Rede Globo, trabalhou como chefe de reportagem na Record, onde ficou por uma década. Também passou pelo SBT, TV Gazeta e RedeTV!. Mas foi se desiludindo com a carreira.
Em grande parte das empresas que trabalhou, era obrigada a deixar de registrar assuntos importantes, porque iam contra os interesses dos donos. E vice-versa. “Por várias vezes percebia que, na verdade, o que eu fazia era assessoria de imprensa para o governo, que é quem sustenta a mídia. Por exemplo, em uma empresa não podia falar do impeachment do Collor porque foi ele quem fez a concessão da emissora aos donos. Outra emissora
era bem intencionada, mas explorava a mão de obra dos estudantes. Me vi num estado depressivo por causa das minhas omissões“, desabafa a jornalista.
Cláudia, que sempre praticou ioga,começou a questionar a própria profissão quando foi convidada a dar aulas no lugar de uma professora que precisaria se ausentar. “Vi como as pessoas saíam bem da ioga, ao contrário do que acontecia no meu trabalho. Lá as pessoas eram estressadas e, às vezes, saíam bravas comigo, porque eu mandava fazer alguma coisa que talvez elas não quisessem.“
Um outro episódio pessoal também pesou na escolha de Cláudia por um caminho diferente. “Tenho um filho de 20 anos que não vi crescer por conta do trabalho. Um dia entrei no banheiro e vi que ele tinha se desenvolvido sem que eu percebesse.“ E a jornalista resolveu por um ponto final na carreira. “Pedi demissão e entrei no caminho da ioga. Hoje me recrio todos os dias. Aprendi que não preciso de tanto dinheiro para sobreviver.“
Como professora, Claudia se reaproximou do filho que hoje pratica a atividade física com ela. “Também adquiri um corpo melhor e melhorei o relacionamento com o meu marido.“
Das contas aos palcos
Por pouco, o galã de Caras & Bocas Malvino Salvador não seria apenas mais um engravatado preocupado com números em meio às peculiaridades da Zona Franca de Manaus. Quando estava passando para o último ano de Ciências Contábeis, surgiu a possibilidade de seguir carreira de modelo em São Paulo. Malvino topou o desafio e não demorou muito para ingressar no mundo artístico. Em 2001, estreou nos palcos com o musical Blue Jeans, dirigido por Wolf Maya, e pouco tempo depois estava nas telinhas da
TV como Tobias da novela Cabocla.
Do rádio à radiestesia
Ele tinha a carreira que muita gente pediu a Deus. Era cantor na fase áurea do rádio. Compôs e interpretou músicas italianas nos microfones das emissoras Tupi, Nacional e Record ao lado de Nelson Gonçalves e Emilinha Borba. Fez apresentações na Argentina, Bolívia, Paraguai e Venezuela. Até que nos idos de 1960 passou uns dias em São Thomé das Letras (MG) e nunca mais saiu de lá. A desigualdade que já imperava na Cidade Maravilhosa o incomodava. “Costumava ficar no 21º andar da Rádio Nacional. Olhava pela janela e via o povo na Praça Mauá, muita gente passando fome. Me entristecia.”
O sossego e a aura mística que envolvem o município mineiro o cativaram. “Abandonei tudo no Rio. Nem cheguei a rescindir o contrato. Devo a multa até hoje”, ri Oriental Luiz Noronha, 71 anos, que divide o tempo entre a pousada que ergueu, os livros que escreve e as pesquisas que empreende nas áreas de radiestesia, ufologia e arqueologia. “No Rio, só via escravidão, consumismo. Aqui, observo a energia que emana da natureza. Compreendi a alma da Terra”, completa o estudioso, autor de livros sobre seres holográficos, a quarta dimensão e o mundo subterrâneo de São Thomé das Letras.
Tatá, como é conhecido, diz ter sido abduzido aos 10 anos e usa a poesia para desafiar os leitores a descobrirem a magia da cidade: “Que venham para crer, que creiam para voar, que voem para criar além da imaginação. Em São Thomé das Letras, em São Thomé das lendas, em São Thomé das naves que vêm e das naves que vão.”
Paixão sobre duas rodas
Quando a mãe do carioca Paulo de Tarso Martins soube que ele iria trocar a carreira bem-sucedida de arquiteto para dedicar-se integralmente à Sampa Bikers – empresa que fundou em 1993 para agenciar roteiros de cicloturismo Brasil afora – não conseguiu disfarçar a decepção, pelo sacrifício que a família fez para pagar a faculdade dele. “Acho que minha mãe não entende minha escolha. Quando perguntam o que faço, ela diz que eu fico por aí andando de bicicleta.”
Quem descobre o quanto ele ganhava como arquiteto, se surpreende: “Minha remuneração era dez vezes maior do que hoje. Em compensação, minha qualidade de vida melhorou 100 vezes.”
A Sampa Bikers surgiu da vontade de se reunir com amigos para pedalar à noite por trilhas e estradas próximas da Capital. A ideia deu tão certo que virou um grande negócio. “Hoje, viajo à beça, trabalho em casa e faço o horário que quero”, diz Paulo, que parece administrar bem a fórmula da própria felicidade: “Quando você faz o que gosta sem se preocupar com o quanto vai ganhar, sem ser ganancioso, acaba sendo mais feliz e uma hora consegue se estabilizar financeiramente.”
Oportunidade de ouro
Ela correu literalmente atrás do seu sonho. Em uma virada de ano, Maria Zeferina Rodrigues Baldaia, 37 anos, assistiu à vitória da portuguesa Rosa Mota na São Silvestre e disse à família: “Um dia quero correr igual a essa mulher. Minha mãe respondeu que bastava eu acreditar e aquilo ficou na minha cabeça”, conta a atleta, que ajudava os pais na lavoura desde os 12 anos. Trabalhou como cortadora de cana até os 22, em Sertãozinho, no interior de São Paulo mas nunca permitiu que a exaustão, nem a falta de um tênis, a impedissem de treinar.
Após 11 horas de trabalho árduo na plantação, das 6h às 17h, ela corria de pés descalços na rodovia em torno do canavial. Aos 15, conseguiu patrocinador. “Viajava de carona, dormia em banco de praça, fazia de tudo para participar das provas.” Os resultados começaram a aparecer em 2000, com a conquista da primeira maratona, e atingiram o auge em 2001, com a vitória na São Silvestre. “Conheci Paris, Inglaterra, Japão, Estados Unidos, Holanda e Itália”, diz a atleta, que há um ano partiu para outra: tomou posse como vereadora de Sertãozinho. Mas sem deixar as corridas. “Se Deus quiser, daqui a três anos estarei em Londres para representar minha cidade.”
Do interior para o mar
“Deixei de lado parentes e amigos em prol de uma causa na qual acredito, que é a de preservar as baleias”, afirma Leandra Gonçalves, 27 anos. Ela nunca foi rata de praia, não viveu com o pé na areia e nem cresceu com intimidade com o mar. A jovem sempre morou em Jundiaí. Porém, o sonho sempre esteve no oceano.
Há três anos, Leandra abriu mão da vida confortável e tranquila de sua cidade para se aventurar como bióloga do Greenpeace, fazendo passeatas e conscientizando as pessoas sobre a importância das baleias e da vida marinha. “Além da família, às vezes o namorado fica de lado também, por isso tem de ser uma pessoa que compreenda e respeite o meu dia a dia.“ Leandra já passou quatro meses em alto-mar, dentro de um navio na Antártida para estudar as baleias e impedir que fossem caçadas pela frota japonesa. “Você passa muito tempo longe, é difícil, mas vale a pena.“
Quando não está em viagem, fica na caótica São Paulo, para onde teve de se mudar a fim de assumir o cargo de coordenadora da Campanha de Oceanos do Greenpeace. A família preferia que ela ficasse em Jundiaí e fizesse trabalhos na região, como na Serra do Japi e na Mata Atlântica. A jovem, porém, quis caminhar por trajetória diferente. “O apoio da família
veio só depois do mestrado. Foi aí que viram que minha decisão era séria, de verdade.“
Do anonimato à fama
Antes da fama, eles exerceram atividades que nem os fãs desconfiam. Você conseguiria
imaginar Marilyn Monroe trabalhando como operária em uma fábrica de munição; Silvester Stallone de garçom; o eterno Indiana Jones Harrison Ford de carpinteiro, Ivete Sangalo vendendo marmitas, John Bon Jovi fazendo faxina e Alexandre Pires lavando roupa? Pois acredite: eles também tiveram seus minutos de anonimato. No filme Mudança de Hábito, a atriz hollywoodiana Whoopi Goldberg interpreta uma cantora de cabaré que, após testemunhar um assassinato, se vê obrigada a viver dias de freira em um convento para despistar os bandidos. Na vida real, sua mudança foi ainda mais contrastante. Antes de arrancar risadas do público nas telonas, a comediante maquiava defuntos em uma funerária. Mais mórbido que isso só mesmo o passado do cantor Rod Stewart, que trabalhava como coveiro em cemitério de Londres.
Na política, também são muitos os casos de quem aproveitou a fama para enveredar nos caminhos da carreira pública. O ex-presidente norte-americano Ronald Reagan brilhou em filmes como Santa Fé Trail (1940) e Kings Row (1942). Trajetória semelhante foi trilhada pelo ex-fisiculturista e astro de cinema Arnold Schwarzenegger. De mister universo e ícone dos filmes de ação das décadas de 1980 e 1990, ele passou a governador do Estado da Califórnia. No Brasil, as bancadas já serviram de palco e gramado para nomes como Agnaldo Timóteo, Clodovil e Ademir da Guia. Mais do que exemplos de ascensão, eles são a prova de que é possível sim mudar de vida para concretizar suas aspirações mais íntimas. Confira abaixo as profissões inusitadas que algumas celebridades desempenharam antes de se tornarem famosas.
Antonio Banderas: Era jogador de futebol em um time de Málaga.
Rod Stewart: Coveiro de cemitério em Londres.
Ronald Reagan: De ator a presidente dos Estados Unidos.
Nelson Gonçalves: Engraxate, tamanqueiro e lutador de boxe.
Malvino Salvador: Caixa de banco, vendedor de roupas e modelo.
Elza Soares: Operária em fábrica de sabão.
Ary Fontoura: Cantor de churrascaria.
Dedé Santana: Trapezista, engraxate, verdureiro e mecânico.
Ney Matogrosso: Trabalhou no laboratório de anatomia patológica do Hospital de Base da Aeronáutica em Brasília. Também confeccionou artesanato em couro.
Chico Buarque: Foi topógrafo. Chegou a cursar arquitetura por dois anos.
Roberto Carlos: Foi auxiliar administrativo do Ministério da Fazenda antes de ser coroado rei.
Ronald Golias: Participou de um grupo de acrobacias aquáticas, foi funileiro e ajudante de alfaiate.
Edson Celulari: Corretor de imóveis.
Waldick Soriano: Motorista de caminhão e garimpeiro.
Zé Ramalho: Garoto de programa.
Zeca Pagodinho: Feirante, anotador de jogo do bicho e camelô.
Zezé Polessa: Abandonou a medicina por amor ao teatro.
Elke Maravilha: foi bancária, secretária trilíngue e bibliotecária.
Erasmo Carlos: Office-boy, vendedor e porteiro.
Gal Costa: Balconista de loja de discos.
Leandro e Leonardo: Lavradores em plantação de tomates.
Claudinho e Buchecha: Pedreiros.