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Galã de meia-idade

domingo, 3 de janeiro de 2010 Envie para um(a) amigo(a) Imprimir Comentar

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Raquel de Medeiros

Humberto Martins despe-se da imagem de ‘sex symbol’ e mostra maturidade

É surpreendente ver como a imagem que Humberto Martins mostra na mídia, como o sedutor garoto-propaganda de um comercial de cerveja, é exatamente oposta a aquela que ele carrega atrás das câmeras.

O ator despe-se do papel de sex symbol e surge com jeito pouco tímido, mas de alguém que tem muita experiência de vida, grande preocupação com a saúde e com os filhos, humor discreto e, sem um pingo de vaidade.

Nicole, filha do ator, de apenas 2 anos e meio, está na sala ao lado durante a entrevista. Humberto faz questão de levá-la para assisti-lo nas gravações e assim passar mais tempo com a menina. “Tenho três filhos, são parte de mim. Passo com eles o tempo que posso. Ligo todo dia, quero saber. E, no mínimo, toda semana os encontro. Se tenho que trabalhar, pego e trago a Nicole para ficarmos juntos. A criança sente muito mais falta, insegurança e solidão“, enfatiza Humberto.

O ator, que já fez dezenas de personagens descamisados em novelas das sete, ao melhor estilo do autor Carlos Lombardi, revela que já se incomodou com papéis em que a beleza física era evidenciada. “Preocupei-me em uma época por causa dos personagens que facilitavam este tipo de estereótipo. Mas acho que houve rotulação  temporária e coerente.“

Na visão dele, os rótulos foram quebrados com o tempo. “Sempre teve dramaturgia e muita vida nos personagens, não foi só expressão corporal. De cinco anos para cá, diz que tudo mudou. Desde Sinhá Moça (2006), em que houve a desconstrução horrorosa, que adorei fazer, despi-me de toda a vaidade e entrei naquele universo como um pobre coitado, sujo, imundo. Trouxe uma bagagem de aprendizado grande. E tenho um passado mais contundente na minha carreira antes desta sequência toda (dos descamisados) que ficou na cabeça do público“, explica, deixando transparecer que ainda sente certo incômodo.

Ele admite que um ator tem de se livrar do estereótipo com o esforço do trabalho. “Se o profissional não tiver âmago, morar gente dentro dele para interpretar os personagens, saber usar o material orgânico para saber fazer as cenas, com certeza vai se prejudicar. Vai ficar só a imagem de um cara que já foi ‘aquele cara’. O que não aconteceu comigo, graças a Deus“, compara.

Como feitor Bruno em Sinhá Moça (2006)

O ator admite que as novelas de ação o deixavam desgastado. “Foi uma etapa, é necessário fazer todos os estilos. Esses personagens são tão difíceis quanto os dramas. Tem de ter disponibilidade física muito grande e estar bem o tempo inteiro. São muitos dias gravando. Fica puxado e estressante. Você acaba fragilizado psicologicamente. Corre,
pula e, se não deu certo, tem de fazer dez vezes até conseguir.“

Como Ramiro, na novela global Caminho das Índias, enfrentou uma dramaturgia mais densa e dramática. O personagem revelou que Humberto Martins é mais do que um corpo sarado na televisão. “Ramiro foi mais cansativo interiormente no início até os primeiros capítulos. Depois que o compreendi, ficou mais fácil.“ O ator não tem preferência por estilos, revela ser bastante flexível na profissão. “É bom flutuar por todos eles e estar com o leque aberto para aquilo que for necessário na hora do trabalho.“

Numa dessas coincidências da vida, Humberto Martins afirma que o drama vivido pelos personagens Raul e Ramiro nessa mesma novela foi bem parecido com o que passou na vida real, com o irmão. “Com 23 anos trabalhava com meu pai e meu irmão e não estava do jeito que queria. Só que em vez de fingir que morri, como o Raul fez, eu disse ‘toma tudo aí que vou procurar o caminho’. Meu irmão é quem me massacrava“, entrega, bem-humorado.

Ator viveu problema semelhante ao de Ramiro

A comparação com a vida real não aflige Humberto Martins e nem os papéis que exigem mais emoção. É preciso saber dividir as coisas. “Nunca fiz análise, sou meu próprio terapeuta. Não levo meu personagem para a casa.
Quando a gente é mais novo as coisas se misturam às vezes. Não ficava com resquícios daquilo, mas tinha dificuldade para me livrar. A cena passava na cabeça, ia dormir pensando, é um erro gravíssimo. Aprendi que para ser ator e continuar tendo saúde só dar atenção a algo no devido momento.“ Essa lição de vida ele estende para tudo na vida. “Não adianta ficar pensando hoje no que vai fazer amanhã. Amanhã de manhã, depois do café, você pensa.“

Parceiros de trabalho

Trabalho ou família? A profissão é para Humberto o principal pilar da vida, como ele mesmo define. “Considero assim. Não que a família seja menos importante, um depende do outro. Senão, como fica o sustento das minhas contas, da minha casa?“

As experiências de Humberto Martins o deixaram cético em relação ao amor. Ele confessa que não crê em casamento. “Não acredito muito não. Essa palavra casamento já dá um argh (faz careta). Principalmente para mim, que tenho uma profissão aberta. Você está aqui, daí é convidado para fazer uma peça em São Paulo, dali sai para outros lugares e assim fica muito difícil manter um casamento“, explica. Sem especificar muito, cita a dificuldade em lidar com as cobranças das parceiras. “E tem o ciúme da mulher, deve ser difícil ser casada com um cara que nem eu. E deve ser complicado para o cara ser casado com uma atriz, entende? Têm pessoas que conseguem, mas, na minha profissão, acho difícil. Criam rumores muito fortes que não conseguem ser entendidos entre um e outro, compreende?“

Perguntamos se ele se preocupa com a passagem dos anos já que sempre foi um ator admirado pela beleza. Ele corrige: “Ainda sou!“. Depois revela  que só percebe que o tempo está passando quando se olha no espelho. “Aí você se dá conta, pensa no passado, nos erros que cometeu, nas coisas que aprendeu, no que está vivendo agora. Isso é maravilhoso. Dá segurança, paz, tranquilidade muito grande.“ Para o ator, a passagem do tempo é constatação do amadurecimento. Ele se recorda do momento em que o pai morreu. “Ele pegou no meu braço e falou: ‘Meu filho, estou indo embora e ainda não vi tudo.’ Eu entendi tudo ali.“ Humberto se mantém em silêncio
por segundos, pensando. E completa. “Tem uns 11 anos que ele se foi. Ficaram muitas coisas dele na minha cabeça. Era um homem de frases curtas, mas profundas. Uma vez fiz algo errado e ele disse: ‘Na vida não tem meio termo. Ou você é mocinho ou é bandido, escolha o que você quer ser. Bandido meio mocinho é bandido.’“

Como Ramiro em 'Caminho das Índias' Descamisado: papel em 'Kubanacan" (2003)

Na profissão, no entanto, pode oscilar entre mocinhos e bandidos. Ele acha impossível definir quais personagens ainda quer fazer. Mas acredita que a chegada dos anos vai lhe mostrar o caminho. “À medida que o tempo vai passando e mudando teu rosto, tua voz, tuas expressões, as histórias também mudam. As histórias que faço hoje, de um homem de quase 50 anos, são diferentes das que farei daqui uns anos, de um homem de 60, 70 anos. O que vier está de bom tamanho.“ Com nítido amadurecimento físico e emocional, ele confessa ter uma mania de
infância, que não consegue largar de jeito nenhum: o surfe. “É a minha academia, porque é completo. Trabalha corpo, mente, respiração e é muito prático e simples. Por exemplo, posso fazer das seis às oito horas e chegar bem no trabalho. E se sair cedo ainda dá para surfar das quatro até as seis da tarde. Eu já deixo as coisas no carro.“ E advinha o que ele faz nos tempos livres? “Surfo, vou à praia“, para variar. O golfe é outro esporte da preferência do ator. Tanto que se ofereceu para ensinar o esporte para o ator Rodrigo Lombardi. “O Rodrigo sempre pediu para aprender, desde oinício da novela Caminho das Índias. Um dia falei ‘vamos’! Aí comecei por uma palestra e ele estava doido para pegar no taco (risos). Ele se saiu superbem, é um golfista promissor!“, elogia Humberto.

O ator não tem dificuldade de se relacionar com os colegas de trabalho e afirma que não há competição. E cita um grande amigo com um largo sorriso. “O Alexandre (Borges) é meu irmãozão. A gente senta no boteco junto para tomar cafezinho, comer pão com linguiça. Ele toma um chope e eu como um pão com linguiça. Ele fuma um cigarro e eu fico espanando“, conta, dando risada.

Se não fosse ator, Humberto não se apertaria. Surpreendentemente, diz que tem talento para marcenaria, dar aulas e até para trabalhar em obras. “Talvez pudesse ser um profissional de golfe, trabalhando num clube como professor. Mas poderia também ser marceneiro, porque conheço marcenaria e serralheria. Além disso, conheço tudo de obra, de mecânica. Também fui velejador por muitos anos, poderia ganhar dinheiro levando e trazendo barcos a vela de um lugar para o outro. É por isso que eu não tenho medo da vida. Posso me virar. Mas acho que ser ator é muito bacana, porque vivo todas estas vidas sem correr o risco de estar realmente com a mão na massa (risos).“

Entre os projetos futuros estão convites para dois filmes e uma peça. Humberto afirma que não sabe se vai aceitar, porque precisa descansar, sem se preocupar com personagens. “Emendei cinco novelas, uma atrás da outra, preciso de um tempo para ser eu mesmo.“

E não tem essa de viajar, não. Humberto quer ficar de chinelo, tranquilo, na sua cidade natal. Pelo jeito não será difícil encontrar Humberto surfando nas praias do Rio. Sorte das cariocas.

Jogo rápido

Nome: Humberto Martins Duarte

Nascimento: 14 de abril de 1961

Ator: Lima Duarte e Tony Ramos

Atriz: Laura Cardoso, Fernanda Montenegro e Paloma Duarte
Bebida: Suco de frutas

Medo: De ter medo

Sonho: Que as guerras se acabem, que achem as curas das doenças. Sonho em ver um mundo melhor, com amor incondicional, sem cobranças, egos e egoísmo. Com cada um respeitando as conquistas e os direitos de cada um.


Comentários

Fátima
26/11/2010
Pra quem achava que ele só fazia sucesso por ter beleza física se enganou, para mim o grande divissor de águas foi o feitor Bruno, ela traballhou tão bem que conseguiu ficar feio, parecia que tinha tido um AVC. Ah! Uma vez eu li que o Antônio Fagundes não conheceu o HM num evento porque ele estava de camisa, só que ele se esqueceu da cueca vermelha que ele usava numa série. Saúde, Paz e Sucesso.
Paula Ferraro
29/01/2010
Bem oportuna a correção feita pelo ator à colocação da jornalista, no 16° parágrafo do texto acima. Afirma a jornalista que HM "sempre foi um ator admirado pela beleza" e ele a corrige "Ainda sou". Que despreparo da jornalista! O cara arranca suspiros das mulheres e ela diz que ele "foi...admirado pela beleza"? Se ela não sabe, agora, além de admirado pela beleza madura, é admirado pelo talento exibido em horário nobre e em rede nacional.

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