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Na sala com Danuza

domingo, 3 de janeiro de 2010 Envie para um(a) amigo(a) Imprimir Comentar

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Marília Ruiz

Habitué do eixo Rio-Paris, a escritora é simples, livre e diz que nos momentos mais felizes estava só

Simples. Danuza Leão é simples. Não é possível? É inimaginável? Também por isso ela o é. Ela não tem nhem-nhem-nhém. Não é boba. Não é melosa. Danuza Leão nasceu adulta. Adulta e livre. E faz isso com tanta competência que, não fosse ter ela mesma decidido revelar sua idade há quatro anos na última linha de sua autobiografia, ninguém poderia cravar se ela tem 30, 40, 50 ou 76. A intensidade dessa independência tem a ver com a sua trajetória intensa – vale a redundância. Intensa como o sofrimento de toda mãe que perde um filho (Samuel, em acidente, único assunto que ela não aceita mais falar em entrevistas). Intensa como uma mulher que troca um marido poderoso (Samuel Wainer) por um assalariado boêmio e seguro (Antonio Maria). Intensamente independente como quem decide viajar (todo) Natal e (todo) Réveillon para liberar filhos, netos e bisnetos das praxes familiares. “Quero todos livres como eu“, ensina.

Essa simplicidade pode ser notada nos seus textos/crônicas/colunas curtas (nada grossas) e diretas – ela assina colunas na Folha de S.Paulo, revista Claudia, e é autora, entre outros, de Na sala com Danuza (sucesso editorial de
1992 sobre etiqueta), Quase Tudo (autobiografia, em 2005), e do recémlançado De Malas Prontas (com dicas de São Paulo, Buenos Aires, Berlim e Londres). Danuza Leão escreve o que pensa do jeito que pensa. Não o que necessariamente faz. E não tem ‘estelionato’  literário nenhum nisso.

“Seria ótimo que vivêssemos em um clima agradável, gostoso... Que as pessoas se fizessem bem, fossem felizes sempre. Eu dou conselhos nas minhas colunas. Mas isso é muito fácil. Hoje, por exemplo, eu já tive 500 coisas dando errado neste apartamento: você acha que eu vou sair dando sorrisos para o porteiro? Não, não vou“, disse, emendando com uma gostosa risada (que nada tinha a ver com tantos problemas), que pontuou toda a longa entrevista que ela concedeu à Dia-a- Dia Revista em seu apartamento em Ipanema, Zona Sul do Rio de Janeiro.

Apartamento à la  Danuza

Danuza tem o hábito de colecionar fotos em casa

As fotos comprovam mais do que qualquer descrição da sua arquitetura e decoração.

Fotos, fotos e fotos: de Danuza e Danuza e seus amigos. Livros, livros e livros: de arte e sobre artistas,  principalmente. Amarelo: a cor da hora para a escritora (era tudo vermelho há menos de um ano). Com um único quarto nos 170 metros quadrados do imóvel adaptado – originalmente de três quartos: “Quando penso nos momentos em que fui mais feliz, estava sempre sozinha. Curioso...“ Sozinha, mas não solitária. Sempre com um bom livro, em uma das cinco ou seis ‘boas cidades’, hospedada em um de ‘seus’ hotéis.

O roteiro de felicidade de Danuza Leão, hoje, é assim: passa por Paris, Marrakesh, Buenos Aires, Veneza ou Rio.

“Uma das coisas que fico mais satisfeita em dizer é que já fui à Ásia, já fui aos museus, já vi tudo que tinha que ver, já fui para Tailândia... Agora não quero mais. É muito difícil você ter uma boa surpresa. E não quero mais perder tempo. Não quero aquele bando de gente vendo a Monalisa por meio de suas câmeras digitais... Ninguém se emociona com arte assim. Eu vou para a minha cidade, para o meu hotel, aos três ou quatro  restaurantes que são os ‘meus’. É muito melhor“, descreveu, emendando uma risada rapidamente cortada por mais uma observação: “Mas nem sempre eu fui assim. Hoje sou mesmo avessa à multidão. Mas já fui outra...“ Foi mesmo.

Aos 15 anos, a capixaba de Itaguaçu, então já moradora do Rio, frequentava a casa de Di Cavalcanti, de quem foi amiga, com quem colecionou histórias em Paris e para quem foi musa inspiradora para um retrato. Paris, sim, Paris, para onde ela se mudou aos 18 para ser modelo – frisese: a primeira modelo brasileira que desfilou no Exterior. Com 20 anos, já estava casada (só no civil) com um homem com o dobro da sua idade, dono de um jornal, que seria pai de seus três filhos e de quem se divorciaria antes dos 30 para viver uma paixão com um poeta pobre e boêmio – mas que tinha tempo para ouvi-la. Como não se vive de amor e cabana, com mais de 40, já avó, mudou de vida e foi comandar as noites de duas famosas boates cariocas – único capítulo de sua vida que ela lamenta. “Não
é arrependimento, não. Lamento. A noite não me deu nada, não me deixou nada. O que aprendi trabalhando em boate preferia ter aprendido lendo bons livros em casa. Teria sido melhor. Perdi muito tempo.“

Perder tempo pode não ser a expressão exata, mas antes de “ser feliz“ escrevendo, Danuza foi jurada de programa de auditório (“Eu odeio fazer televisão“, disse ao responder, por telefone, a um convite para comparecer a um programa de TV), dona de loja, produtora de telenovela, relações públicas e apresentadora. “Fiz tudo que surgiu. A vida foi me levando... Tudo que eu fiz e faço, fiz e faço com empenho e vou o mais fundo que posso. Em tudo. Tudo me ensinou muito. Mas do tempo em que trabalhei na noite, não tenho boas recordações... Já ser modelo em Paris
era bom, era bom o mundo que estava descobrindo, o mundo da Europa, o mundo dos adultos... Hoje sou feliz
lendo e escrevendo.“

Mas Danuza já foi feliz na rua, na praia, na Marquês de Sapucaí e no Maracanã.

Dentre as fotos na sala, Danuza guarda uma com o ex-presidente cubano Fidel Castro

Praia de Ipanema, biquínis vanguardistas, ensaios de escola de samba e jogos do Vasco no estádio lotado estavam na sua agenda sempre muito atolada de compromissos sociais.

“Mas o Rio de Janeiro me empurrou para dentro de casa. A violência foi fazendo isso... E fui ficando dentro de casa, dentro de casa... E agora não saio mais mesmo. Ligam e me convidam para alguma coisa na Barra, eu penso, penso, agradeço e não vou. Não quero. Por isso gosto tanto de viajar, porque fora posso sair a pé, passear, dar uma volta. Sou livre. Aqui, em Ipanema, não dá. Meu programa ideal aqui é sair para jantar com mais duas ou três pessoas, porque, com mais do que isso, surgem muitos temas na mesa e dispersa. Saio, como alguma coisa que eu gosto, bato um papinho e volto para casa. Só“, descreveu.

Charme simplório? Se é charme, podemos usar mais um adjetivo para descrevê-la: charmosa. De um charme sem frescuras e rebuscamentos. Porque ela não tem aquele charme meloso das ‘unanimidades’. Ela é charmosa e pronto! Ela é ela. Gostando ou não, conhecendo detalhes de sua biografia ou não, o que não se pode dizer é que ela passa despercebida.

Nem pelo chinelo comum customizado com uma flor vermelha, nem pelo vaso très chic decorado com flores compradas em loja chinesa de R$ 1,99, nem pelas obras espalhadas pela sala, nem pelas bolsas fake “made in
China“ que pendura nos ombros.

Por quase uma hora, Danuza explicou o seu Danuza simples jeito de ser. A seguir, alguns dos principais trechos:
 

DIA-A-DIA REVISTA – Você é feliz?
DANUZA LEÃO – Às vezes sim, às vezes não. Feliz eu não sou. Mas ninguém é, certo? Felicidade vem de vez em quando e você aproveita. No resto do tempo, você pode estar bem ou estar mal. Eu estou mais vezes bem do que mal.

DIA-A-DIA – Quando você foi ou é feliz?
DANUZA – Preciso pensar para lembrar momentos de felicidade... nesses momentos eu estava sempre sozinha. Minha felicidade não depende de outras pessoas. Não sei se é mais fácil ou mais difícil: mas é bom que seja assim, porque eu só preciso de mim.

DIA-A-DIA – Você é feliz trabalhando? Escrevendo?
DANUZA – Gosto, gosto muito de ler e de escrever. Mas escrever pode ser dolorido. E eu não tenho orgulho de nada de que escrevo: nem livro nem coluna. Sou extremamente rigorosa com as coisas que faço. Nunca acho que está
suficientemente bom. Nada. Com os outros sou mais crítica, não sou rigorosa. Foi doído escrever o Quase Tudo (autobiografia). Mas mergulho quando começo algo assim. Não sei o que se passa no mundo quando estou fazendo uma coisa dessas. O editor, à época, disse que eu teria dois anos para terminar: e escrevi em nove meses.
Não paro. Não tenho processo. Escrevo e releio, escrevo e releio. Mudo, melhoro e acrescento. Gosto muito de escrever. Antes eu gostava muito de praia, mas agora não pode mais depois das oito da manhã. Chato. Aliás, não se pode nada. Tudo é proibido. Era muito mais divertido antes.

DIA-A-DIA – Antes?
DANUZA – Quando eu era mais jovem, quando se podia sair, quando se podia comer qualquer coisa, quando se podia fumar... Agora tudo faz mal e tudo está riscado da vida social. O mundo ficou perigoso.

DIA-A-DIA – Você tem medos?
DANUZA – Bem, tenho medos normais. Tenho medo da violência.  Tenho medo de barata, mas esse acho que todo mundo tem, não? Sou capaz de ir dormir em um hotel se vejo uma barata aqui. A barata me paralisa.

DIA-A-DIA – Esse seu medo de ‘mulher’ quase não combina com a sua personalidade. Você sempre foi adulta,
sempre foi independente...
DANUZA – Verdade. Nunca tive boneca. Não gostava. Com 6, 7 anos, ia para o meu quarto ler uma revista e um livro. Era disso que gostava. Quando leio ou ouço que alguém guardou a criança que foi no coração, eu me pergunto: mas
o que é isso? Desconheço ser criança. Não gosto.

DIA-A-DIA – E como foi ser mãe, então?
DANUZA – Amor de mãe transforma e você faz coisas impensáveis. Com a maternidade, você deixa de ser totalmente independente e passa a ter mais responsabilidade. Mas me dou muito melhor com meus filhos hoje do que me dava quando eles eram pequenos. Não tenho jeito com criança. Não tive com meus filhos, não tive com
meus netos... Não batizei ninguém.  Ninguém fez isso comigo... (risos).

Foto da cantora Nara Leão, morta em 1989; Danuza não conseguiu mais ouvir as músicas da irmã

DIA-A-DIA – Se foi ‘difícil’ ser mãe de criança, deve ter sido difícil ser criança, ser filha, não?
DANUZA – Na verdade, desde que era pequenininha, bem pequena, com 4, 5 ou 6 anos, nunca tive amigas da minha idade, nunca brinquei de boneca, nunca gostei de coisas de criança. O mundo infantil não fez parte da minha
vida. Não sou e nunca fui mulher de nhem-nhem-nhém. Acho até que pela minha independência adquiri uma coisa: mentalmente sou bissexual. Tem uma parte que sou mulher, e uma parte, absolutamente masculina. Foi mais fácil
crescer sem essas amarras infantis. Mas é engraçado: às vezes me pego pensando nos conselhos do meu pai. Ele sabia de tudo. Eu que não me dava conta. Era complicado ser filha dele: ele fazia uma coisa, mas me aconselhava outras. Com 16 anos você não pode entender. Mas hoje... Já com a minha mãe, tive uma relação complicada. Até hoje não sei explicar. Ela tinha dificuldade de se comunicar. A gente se comunicava pouco e mal. Com a minha irmã (Nara Leão, cantora, morta em 1989), ela era diferente. Nara era mais dócil, e eu era independente demais.

DIA-A-DIA – Você criou seus filhos para serem assim?
DANUZA – Claro... Procurei não dar muitos conselhos para os meus filhos. Mas, como disse, temos uma relação muito melhor agora que somos todos adultos. A maternidade existe quando eles são pequeninos, né? Se bem que, para falar a verdade, basta um filho meu pegar um avião ou uma estrada que não sossego enquanto não sei que está tudo bem. Mas eles sempre foram livres. Minha filha (Pinky Wainer) estudou em colégio de freiras em Paris só porque era o melhor. E os meninos, que estudaram na Suíça, também. Mas só por isso... Sou avessa à religião e à
cerimônia. Não gosto. Aliás, detesto... (risos)

DIA-A-DIA – Qualquer cerimônia?
DANUZA – Todas. Acho estranho, não entendo por que as pessoas precisam de tanta enrolação. A vida pode ser simples: duas pessoas se gostam e passam a ser marido e mulher. Pronto! Meus filhos não casaram, meus netos não casaram. Aliás, um dos meus netos, que ficou mais próximo da família da minha nora depois que meu filho
morreu (Samuel), casou-se e eu fui... (risos). Não teve padre, mas teve mesa, entrada, noiva. Eu só pensava: ‘Meu Deus, esse não é meu universo!’ (risos) Outra coisa: você pode me explicar o que é a Academia Brasileira de Letras? O que é aquilo? Como pode? Tem algo que seja menos na vida do que a Academia Brasileira de Letras? Eles vão lá e se levam a sério... Eu não me levo a sério.

DIA-A-DIA – E qual é seu universo? Tem Deus?
DANUZA – Não, não acredito em Deus. Não tenho fé. Não tenho amuletos. Ainda estou esperando: se Deus existe, ele tem obrigação de me dar uma fé, não tem? Outro dia estava vendo umas fotos minhas de criança e tinha lá uma de uma procissão em Vitória (ES): eu estava de anjo com asas azuis de peninha. Você pode imaginar? (risos) Que culto é esse? Isso não existe para mim. Não cultivo nada. Aliás eu me cultivo. Pode ver que tem um monte de fotos minhas espalhadas pela casa. Mas sou eu. O que eu fiz. E não sou apegada a essas coisas. Sou apegada ao que
tenho. Quando enjoo, mudo tudo, troco, dou. Simples. Sem incomodar e ser incomodada. Simples sim, mas com glamour dela, Danuza Leão.


Comentários

Daniel Narkunas
26/03/2010
Uma pessoa simples feliz e sem medos é isso que percebo em Danuza que adoro ler e sempre fico cada vez mais impressionado quando revejo alguma materia sobre ela.Parabens pela reportagem.
Vera Jordan
07/01/2010
Fiquei impressionada com Danuza. Foi uma viajem fotografa-la. Me chamou muito a atenção sua simplicidade, coragem de ser ela mesmo, fazer o que gosta do jeito que lhe agrada, sem preconceitos e cobranças. Encontrei em Danuza a liberdade! Parabéns a Marilia Ruiz e a Revista, toda a galera esta mandando muito bem!. Bjs Vera Jordan

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