Ele é pai, ator com 28 anos de carreira, compositor, roteirista, diretor de teatro e, nas horas vagas, faz animação com bonecos de massinha e decora casas. Sua primeira vez no palco, aos 8 anos, foi em espetáculo comandado pelo pai, um bailarino clássico. Agora, Bruno Garcia é reconhecido por ser ator versátil, principalmente quando o assunto é comédia. Fazer rir não é sua única qualidade. Ele já fez vários papéis como sedutor envolvente, levando as mulheres à loucura. No cinema, interpretou um pernambucano com sotaque carioca e gírias paulistas em Lisbela e o Prisioneiro, atuou como o comerciante emergente Hércules Galvão na novela Três Irmãs e fez papel de homem e mulher no extinto Sexo Frágil.
“Tenho facilidade com o humor e acabo sendo referenciado por isso, mas também adoro fazer drama. Fiz a minissérie Queridos Amigos em 2008 e adorei, foi algo totalmente diferente de tudo o que já tinha feito na televisão. Acho incrível o poder de penetração que a comédia tem e a resposta imediata do público, como a gargalhada e a lembrança dos telespectadores por poder levar energia positiva para a vida deles.”
Durante a entrevista, minutos antes da última temporada de Comédia dos Erros, em São Paulo, ele acende um cigarro e toma café. Um ritual para relaxar antes da montagem, de quase duas horas. Mantém a barba farta e a expressão séria. É do tipo que gosta de responder objetivamente e olhando nos olhos do entrevistador. Fala pouco da vida pessoal, prefere dar projeção ao seu trabalho.
O ator não imaginava que sua carreira seguiria pelo humor. Ele defende que esta é uma característica das artes de interpretações brasileiras. Definindo sua trajetória por fazer o que aparecia, desenrolou-se em peças, comerciais e filmes. “Você só recusa se não pode fazer ou quando está com o boi na sombra”, afirma Bruno, que ainda não encontrou “a sombra”. Ele se apresenta apenas como ator “referência” por fazer rir, diferentemente de outros que se sentem rotulados quando seguem por uma mesma vertente.
MINISSÉRIE
Depois de viver o atrapalhado Galvão em Três Irmãs, Bruno Garcia aparece novamente na telinha na pele de Daniel Júnior, o herdeiro do milionário Daniel (José Wilker) na minissérie Cinquentinha, com estreia prevista para o dia 8.
Daniel Júnior é o único filho homem do empresário que deixa a herança para ser dividida entre as quatro ex-mulheres. A mãe, Rejane (Betty Lago), é ex-hippie que viveu plenamente a época de sexo, drogas e rock-’n’roll, e também uma das postulantes à herança. Daniel Júnior trabalha numa plataforma de petróleo e é pai de Vanessa (Tatyane Goulart), que vai namorar um jovem ligado ao tráfico de drogas. Este é um papel atípico para Bruno, que na maioria das atuações na TV fez o tipo cafajeste e sedutor. “O personagem é carente por não ter um pai presente e tem influência muito forte do universo feminino. A fragilidade faz com que ele se distancie do passado. Então, vai trabalhar com petróleo ficando no mar metade do mês. Assim permanece longe dos problemas da terra. A filha fica aos cuidados da avó.”
Na vida real, Bruno Garcia também tem uma filha: Bella, 10 anos, fruto do casamento com a estilista Marta Macedo, de quem se separou em 2002. Mesmo sendo viciado em trabalho, sempre encontra tempo para passear com a menina na orla do Rio de Janeiro. Dizendo-se pai zeloso, afirma que nunca teria coragem de interferir na escolha do namorado dela. “Esta seria uma atitude completamente anacrônica. Posso tentar educá-la o melhor possível para que tenha condições de fazer boas escolhas, mas não gostaria nem um pouco de que fosse com alguém envolvido com o tráfico.”
A esta altura da entrevista o ator incorpora o papel de formador de opinião e dá sua versão sobre o aumento do envolvimento de traficantes com famílias de classe média. “É necessário haver acompanhamento dos filhos por parte dos pais. Houve uma permissividade muito grande porque eles trabalham muito e se sentem culpados pela ausência. Muitos suprem a ausência comprando presentes, mas uma coisa não valida a outra. As crianças precisam aprender a ouvir ‘não’ para conhecer limites e, quando ficarem adultos, estarem preparadas para a frustração.”
Ele fala com carinho sobre o tempo de qualidade que gosta de manter com a filha. Desliga o celular quando está com ela para que não tenham interrupções com assuntos de trabalho. Mantém cumplicidade, mas não abre mão da autoridade. “Tenho de me manter firme, sempre com diálogo aberto, pelo menos até a adolescência, para ajudá-la a superar essa fase tãodifícil. Eu me considero um bom pai e, claro, já tive que dizer ‘não’ muitas vezes”, revela.
ASSÉDIO
As caminhadas com a filha pelas areias cariocas só não são mais frequentes por conta do assédio dos fotógrafos. “Acho absurdo que no Brasil permita-se publicar a foto de uma criança sem autorização dos pais. Se acontecesse isso em qualquer outra situação, a criança sairia com uma tarja preta nos olhos. Mas no meio artístico isso acontece, como se todos os artistas quisessem essa exposição. Eu não quero. O máximo que posso fazer é evitar.” A reclamação de Bruno é a mesma de muitos outros atores, que criticam o assédio em torno das celebridades e o preço que se paga pela fama, tendo imagens de momentos íntimos capturadas pelas lentes dos paparazzi. “Como se trabalhar bastante já não fosse um preço muito alto”, indigna-se.
Mas trabalhar bastante não é problema para ele. Quando consegue um intervalo entre TV, cinema e teatro, Bruno aproveita para aprimorar outras habilidades artísticas. Tem uma peça escrita que pretende montar assim que viabilizar patrocínio. “Descobri que não tenho a menor vocação para captação de recursos. Infelizmente, a arte ainda não tem o reconhecimento necessário no Brasil.” Também faz animação stopmotion – técnica em que os personagens são feitos com massa de modelar –, além de desenhar, pintar e decorar ambientes. “Minha mãe diz que admira muito meu trabalho como ator, mas ainda acha que minha verdadeira vocação está nas artes plásticas.” Para alegria do telespectador, Bruno até aceita os conselhos maternos, mas por ora não pensa em desistir das artes cênicas.