A escolha da roupa pode até passar despercebida por alguns, mas o código de moda se faz cada vez mais presente, seja na hora de arrumar um bom emprego ou seduzir o sexo oposto, seja para revelar à sociedade os próprios valores.
O doutor em Comunicação Social pela Universidade de São Paulo Gilson Monteiro explica que a compra de uma roupa não é apenas uma decisão solitária do consumidor. Funciona também como uma forma de se expressar dentro do processo global de comunicação, uma marca de separação da sociedade em castas e classes. “Quando o consumidor decide comprar uma roupa, ele não está apenas adquirindo alguns pedaços de panos bem costurados. Está comprando também toda a representação imagética de grupo que a vestimenta representa.”
O caso envolvendo a universitária Geisy Arruda, que foi expulsa e novamente aceita na Uniban (Universidade Bandeirante de São Paulo) após ir à aula com um vestido curto, deixou em evidência as diversas interpretações da sociedade em relação ao figurino.
A estilista e consultora de moda Maria Zeli é uma das defensoras do dress code. Ela afirma que cada roupa tem seu horário e local ideais, além de atender a diferentes biótipos. A quebra das regras – nem tão rígidas assim – se reserva a pessoas extravagantes, descoladas e artistas, sempre mantendo o bom-senso e a elegância.
Para Maria Zeili, a estudante errou no figurino. “O vestido é apropriado para noite e com certo perigo de passar por muito sensual. Mesmo com mangas longas, era muito curto e de cor chamativa”, explica a consultora de moda, que acredita que o vestido possa ter passado uma mensagem errada sobre a estudante. “Roupas chamativas são características de mulheres sexys, transgressoras, mas o grupo pode ter interpretado como vulgar. Uma calça jeans skinny usada com o vestido cairia bem.”
Para o psicólogo e especialista em sexualidade humana Paulo Tessarioli, a manifestação por parte dos universitários vai além dos códigos de moda e remete à educação sexual do brasileiro. “Embora a revolução feminista tenha sido relevante para a conquista de direitos iguais, a sociedade não deixou de ser machista. Assim, qualquer comportamento que se mostre contrário ao sistema hegemônico masculino é mal interpretado, inclusive pelas próprias mulheres”, afirma o especialista.
Código de moda na seleção profissional
Mulheres vestindo calça e blazer, com maquiagem leve e longos cabelos lisos são as escolhidas pelos recrutadores na hora da entrevista de emprego, é o que aponta pesquisa de empresa de recolocação profissional.
Não é de hoje que as empresas levam em consideração o guarda-roupa do funcionário. Segundo o consultor de Recursos Humanos Fernando Montero, a escolha do figurino diz muito sobre o profissional. “Os candidatos contam com várias fontes de informação sobre a empresa para a qual se candidatam. Se comparecem com traje incompatível, a atitude é considerada como falta de preparo e desinteresse pela vaga”, aponta.
O consultor explica que os critérios de seleção estão cada vez mais subjetivos, e os profissionais de Recursos Humanos precisam contar com a criatividade para destacar candidatos com currículos muito parecidos. “É preciso estar atento até ao perfume. Alguns selecionadores classificam os candidatos por fragrâncias que agradaram ou não”, conta.
Também nas seleções de emprego, os códigos de moda podem transmitir mensagens que nem sempre o usuário nota. É o caso de candidatos com marcas visíveis como tatuagens e piercings. “Um selecionador enxerga a tatuagem como adereço de quem quer chamar a atenção, o que nem sempre é positivo. Empresas mais rígidas veem na marca corporal o símbolo de transgressão que não querem associados à imagem corporativa. Tomar isso como critério de seleção é preconceituoso, mas ainda é atitude muito presente.” ES