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| Capa do livro traz a mais famosa das rainhas do rádio, Emilinha Borba, que demorou dez anos para oficializar seu casamento por conta do preconceito da familia do marito, Arthur da Souza Costa. Foto: Divulgação |
Com certeza você já deve ter escutado a voz delas. Ou, pelo menos, já ouviu o som de seus nomes sair da boca de alguém que contava a história da música popular brasileira. Independentemente de onde tomou conhecimento do trabalho das musas do rádio, saber um pouco mais da vida dessas mulheres que ajudam a fazer o dia 8 de março ser uma data tão especial é aprender algumas maneiras de superar os preconceitos e saborear um trecho importante da história do rádio no Brasil.
Aos interessados, eis a oportunidade: o livro As Rainhas do rádio Símbolos da Nascente Indústria Cultural Brasileira (Senac, 232 páginas, R$ 60), da jornalista Maria Luisa Rinaldi Hupfer. "Quando entrei em contato com a história do rádio e tudo o que foi produzido em suas décadas de ouro, nos anos 1940 e 1950, me dei conta de um número enorme de fenômenos que poderiam servir de base para falar sobre o surgimento da indústria cultural brasileira." Além da importância cultural, a autora também se interessou pela imagem que essas mulheres formaram, já que vendiam não só a bela voz, mas também inúmeros produtos. Por isso, foram responsáveis pelo aumento do consumo de massa. O que muitos não sabem, no entanto, é que embora a vida delas fosse cheia de glamour, o preconceito era um problema latente.
E isso ocorria, segundo Maria Luisa, por serem mulheres a quem eram negados direitos que hoje são considerados básicos, e por serem artistas. "O senso comum era pródigo em afirmar que 'artista boa coisa não era'." Ela cita como exemplo a mais popular de todas as rainhas, Emilinha Borba, que teve de viver por mais de dez anos um casamento não oficial com Arthur da Souza Costa, filho do ministro da Fazenda de Getúlio Vargas, porque a família do marido não a aceitava. Depois de muito custo conseguiu casar oficialmente.
MULHERES
Para fugir dos estigmas, a autora disse que uma das grandes aliadas das musas era a imprensa especializada, que as transformava em semideusas. "A rainhas tinham sua imagem construída cuidadosamente com o objetivo de servir de modelo de vida para as mulheres comuns." Na Revista do rádio, por exemplo, Emilinha apareceu em uma foto acordando maquiada e vestida com uma linda camisola. Em contrapartida, por serem humanas e não deusas, elas tinham problemas e erravam como qualquer outra mortal. Casamentos não oficiais, alcoolismo, casos extraconjugais fazem parte de suas histórias, que poderão ser conhecidas no livro. Para Maria Luisa, as rainhas contribuíram para construir a condição feminina existente hoje. "Bancar seus desejos e sonhos numa época em que a mulher tinha uma mobilidade tão reduzida não era pouca coisa. Mesmo protegidas por uma imagem pública calcada no recato, quebraram paradigmas e anteciparam hábitos e costumes que serviram de modelos para várias gerações."