Dia-a-Dia Revista



Pé na estrada real

domingo, 7 de março de 2010 Envie para um(a) amigo(a) Imprimir Comentar

Marselha Brandão - Especial para a Dia-a-Dia Revista

Foto: Marselha Brandão

Odesbravamento do Brasil é muito conhecido por quem se interessa pela história do País. Está tudo nos livros, principalmente os didáticos e os dos bancos escolares. Poucos, porém, conhecem ao vivo suas riquezas e belezas. Percorrer a Estrada Real é literalmente fazer uma viagem no tempo. Não tem visual mais interessante do que o encontro de ruas asfaltadas com outras ainda em terra batida, é o moderno e o passado lado a lado. São igrejas, imagens sacras, museus, casarões com móveis seculares, sem contar as serras, cachoeiras naturais e grutas. Pode-se dizer que a aventura é inesquecível. Sente-se a cada passo a emoção, as surpresas e os percalços vividos por imperadores, soldados, mercadores e aventureiros do século 17, que percorriam os 1.200 quilômetros do trajeto criado pela Coroa portuguesa com a intenção de fiscalizar a circulação das riquezas e mercadorias que transitavam entre Minas Gerais – ouro e diamante – e o litoral do Rio de Janeiro.

Atualmente, a Estrada Real é formada por 177 municípios, sendo 162 em Minas Gerais, oito no Rio de Janeiro e sete em São Paulo. A união desses destinos reúne atrativos de sobra para uma longa viagem. São construções coloniais, igrejas, museus, reservas ecológicas, esportes de aventura, estações de águas minerais, culinária mineira... É claro que com o fim desse ciclo econômico e com a industrialização, o caminho ficou por muito tempo adormecido, o que, cá entre nós, ajudou na sua conservação e possibilitou o surgimento de vários projetos de recuperação para explorar seu potencial turístico.


1ª PARADA: DIAMANTINA
São Paulo-Belo Horizonte-Diamantina
(de carona, ônibus e táxi)


Como dispunha de 20 dias de férias, escolhi a trajetória mineira para me aventurar. Foram 600 quilômetros percorridos. Adepta da mochila e alberguista, parti bem equipada: barraca,
saco de dormir, roupa de cama, canivete, isqueiro e barras de cereais, para matar a fome repentina. Boa parte do trajeto tem albergues para repouso.

Após meia noite de descanso num albergue de Diamantina, a aventura começou de fato. Conheci a Gruta do Salitre. Perto dali está a represa, com água extremamente transparente. Poucos quilômetros à frente, Biribiri, vilarejo com pouquíssimas casas em estilo colonial (acho que há uns 20 moradores no máximo) e uma pequena igreja. O encanto da área são as cachoeiras. A mais bela é a Sentinela. Um dia de emoções. Para coroá-lo, parada estratégica para uma cervejinha gelada no centro de Diamantina.

Explorei a cidade no dia seguinte. Os moradores se orgulham de suas igrejas ricas, que remetem ao período colonial, como a casa onde morou Xica da Silva e o Centro de Geologia da Universidade Federal de Minas. Não desperdicei a oportunidade e conheci o Museu da Memória do Pão de Santo Antônio. Chega a noite e... descanso no albergue.

Outro dia com os diamantinenses. Um taxista me conduz ao Cruzeiro, de onde se pode vislumbrar toda a cidade. Maravilhoso! Percorrer o Caminho dos Escravos, calçamento feito por negros no século 18 para facilitar a passagem das tropas, é outro encanto. Diz a lenda que muitos diamantes foram escondidos entre as pedras durante a construção. Hoje, só uma parte desta trilha é aberta ao público. Talvez porque na área proibida estejam os diamantes. Vai saber.


2ª PARADA: MILHO VERDE
Diamantina-Milho Verde
(dois ônibus)


Duas da tarde. Hora de trocar de cidade. Por incrível que pareça, o vilarejo de Milho Verde está no mapa. Ônibus de Diamantina até Serro e mais um até o destino (60 quilômetros percorridos em estrada de terra batida em três horas e meia!). O sensacional de lá é a hospitalidade. Fiquei na casa do motorista do ônibus, com direito a chuveiro contagotas e festa. A Folia de Reis avançou madrugada adentro. A cachoeira do Lajeado forma várias piscinas e atrai muitos turistas. E a cidade abriga a igreja onde Xica da Silva foi batizada.


3ª PARADA: TABULEIRO
Milho Verde-Conceição do Mato de Dentro-Tabuleiro
(duas horas de ônibus)


Aviso aos marinheiros de primeira viagem: o ônibus é péssimo. Viajei em um com a porta traseira quebrada, lotado de adultos, crianças e muitos mantimentos – a despesa de um mês dos moradores locais. Mas valeu a pena.

Em Tabuleiro, há cachoeiras impressionantes. Poço Pari tem água escura (parece Coca-Cola). Paga-se pequena taxa, mas é relaxante mergulhar e se refrescar ali. Noventa minutos de caminhada e estamos diante da Cachoeira de Congonhas. O trajeto, se for em dia de sol a pico, é um suplício porque a vegetação é rasteira e não há sombras.

A Cachoeira do Tabuleiro, por sua vez, deixa qualquer um boquiaberto diante dos seus 273 metros de altura e poço com dez metros de profundidade. Mas exige outras duas horas de caminhada por trilha de pedras e à beira do rio. E um aviso: a água é de congelar os ossos.


Foto: Marselha Brandão

4ª PARADA: SERRA DO CIPÓ
Tabuleiro-Conceição do Mato de Dentro-Serra do Cipó
(carona na caçamba de uma picape e ônibus)


Depois de um café da manhã revigorante no albergue, parti de mochila nas costas para conhecer as duas principais cachoeiras da região: Grande e Véu da Noiva. A primeira, sinceramente, é enorme, por isso não possibilita entrar em sua água. As pessoas costumam lagartear em suas pedras, mas também dá para alugar uma canoa e navegar pelo Rio Cipó, observando capivaras, tartarugas, infinidade de peixes e aves. Véu da Noiva fica em área de camping, onde dá para montar barracas na beira d’água. É possível também cavalgar pelo Parque do Cipó e ir até outras cachoeiras, como a da Farofa. O aluguel do animal é salgado para um mochileiro (R$ 75), mas a sensação de liberdade vale o preço.


5ª PARADA: OURO PRETO
Serra do Cipó-BH-Ouro Preto
(dois ônibus)


Chegar a Ouro Preto e tentar explorá-la sozinho é desperdício de tempo. É bom arrumar guia local que, por R$ 40, contará a história da cidade e seus pontos turísticos, como o Museu da Inconfidência, as igrejas (muitas) e a Mina do Jeje, hoje desativada, mas que rendeu muito ouro à família imperial.

Não deixe de visitar o Parque do Itacolombi. É preciso ir de ônibus até a reserva, onde estão os museus do Chá, da Inconfidência e da Fauna e Flora. Mais 20 minutos e chega-se à Cachoeira da Andorinha. Um jorro de água se comparado às demais quedas. Já a Pedra do Jacaré impressiona. Parece suspensa por correntes invisíveis. Mas sensacional mesmo é a Mina da Passagem. Senti-me como Indiana Jones descendo os túneis em carrinhos de carvão, 200 metros superfície abaixo, onde há um altar de ofe-rendas e espelhos d’água.


6ª PARADA: CONGONHAS
Ouro Preto-Ouro Branco-Congonhas
(quatro horas em dois ônibus)


A parte histórica traz os 12 profetas esculpidos por Aleijadinho e, na subida para a praça, seis cúpulas ostentam em tamanho real esculturas que simbolizam as 12 estações da Via-Crucis.
 

7ª PARADA: SÃO JOÃO DEL REY
Congonhas-São João Del Rey
(ônibus)


Cidadezinha simpática que, apesar da modernidade, conserva bem seu centro histórico. Faz parte do passeio visitar o solário branco onde morou Tancredo Neves, o primeiro presidente pós-militarismo que, doente, morreu antes de tomar posse.

Foto: Marselha Brandão

8ª PARADA: TIRADENTES
São João Del Rey-Tiradentes
(trem)


Segui no comboio puxado pela réplica da maria-fumaça que levava D. Pedro II (a original está exposta dentro da estação). A cabine imperial dá show de requinte. O sensacional é conhecer Tiradentes de charrete. Duas horas e passa-se por igrejas, museus, casarões e praças. Resolvi seguir de ônibus para Bichinhos, vilarejo pequeno, que sobrevive do artesanato local.


9ª PARADA: SANTA CRUZ
Tiradentes-Santa Cruz
(caminhada)


Último dia do passeio. Por que não encerrar a aventura em Santa Cruz, marco zero da Estrada Real? Arrumei guia numa agência de ecoturismo e fui caminhando por trilhas, passando pelas cachoeiras do Mangue e de Santa Cruz, que somam três quedas. Foram 90 minutos andando até chegar à última queda, onde há monumento identificando o marco zero: uma estrutura de ferro. Como era o último dia,  tirei foto do local, abri os braços e agradeci à vida a oportunidade de conhecer localidades tão belas e significativas para a história do Brasil.

Comentários

Instituto Estrada Real
08/03/2010
Gostaríamos de parabenizá-la pela escolha do roteiro!! A Estrada Real precisa de mais pessoas como vc, que gosta de natureza, história e aventura!! Conte conosco sempre.

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