Dia-a-Dia Revista




O amor feito de ilusão

quarta-feira, 2 de setembro de 2009 Envie para um(a) amigo(a) Imprimir Comentar

Regina Navarro Lins

Certa vez, uma amiga me descreveu seu namorado como inteligente, culto, gentil, bonito, enfim, uma pessoa maravilhosa. Foi indescritível a surpresa que tive ao conhecê-lo. Na realidade, ele não correspondia em nada a nenhuma das características que ela lhe atribuiu. Isso é muito comum.

O amor romântico não é construído na relação com a pessoa real, mas sobre a idealização que se faz dela. Além disso, a fusão proposta por esse tipo de amor é extremamente sedutora. Que remédio melhor para o nosso desamparo do que a sensação de nos completarmos na relação com outra pessoa? A questão é que, por mais encantamento que cause num primeiro momento, ela se torna opressiva por se opor à nossa individualidade.

Assistimos a grandes transformações no mundo, e, no que diz respeito ao amor, o dilema atual se situa entre o desejo de simbiose com o parceiro e o de liberdade. Quando alguém alcança um estágio de desenvolvimento pessoal em que descobre o prazer de estar sozinho, se dá conta de uma profunda mudança interna. Preservar a própria individualidade passa a ser fundamental, e a ideia básica de fusão do amor romântico, em que os dois se tornam um só, deixa de ser atraente.

Por enquanto, não há dúvidas de que desejar viver relações de amor fora do modelo romântico pode ser frustrante. As pessoas são viciadas nesse tipo de amor e fica difícil encontrar parceiros que já tenham se libertado dele. Mas acredito ser apenas uma questão de tempo. As mudanças são lentas e graduais, mas definitivas nesse caso.

Para quem imagina que vai perder alguma coisa ao desistir do amor romântico, Bonnie Kreps, cineasta canadense que escreveu um livro sobre o tema, é animadora. Ela diz que deixar o hábito de “apaixonar-se loucamente” para a novidade de entrar num tipo de amor sem projeções e idealizações também tem sua própria excitação. É a mesma sensação de utilizar novos músculos, que sempre tivemos, mas nunca usamos por causa de nosso modo de vida. No entanto, ao começar a utilizá-los, podemos fazer com nosso corpo coisas que antes nunca conseguimos.

Para ela, os músculos psicológicos também existem e devemos olhar através da camuflagem do mito do amor romântico a fim de encontrá-los e, então, ver com o que se parecerá o amor quando mais pessoas começarem a flexioná-los.

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