Vamos continuar nossa conversa sobre questões enviadas por leitores. Um leitor quer saber por que se usa a palavra “sanção” quando se diz que o projeto depende de “sanção presidencial” para entrar em vigor. “Dia desses, não pude pagar em dia uma dívida. O advogado da empresa me mandou uma carta em que constavam as sanções a que estão sujeitos os que pagam com atraso”, diz o leitor, que pergunta: “Afinal, o que significa essa palavra?”.
A palavra “sanção” foi bem empregada nos dois casos. “Sanção” pode ser parte da lei que trata das penas a que estão sujeitos os que não a cumprem. E pode ser o ato pelo qual o chefe de Estado aprova lei votada pelo Parlamento.
Agora, a surpresa: “sanção” vem do latim (“sanctio”, “sanctione”, “sanctionis”) e é da mesma família de “santo”. O significado etimológico de “sancionar” é “tornar sagrado”, “tornar santo”. Moral da história: quando o presidente sanciona, “torna sagrado”, ou seja, torna lei.
A segunda questão se refere à palavra "credível", empregada há algum tempo pelo expresidente Fernando Henrique
Cardoso. Um leitor desenterrou isso e perguntou: “essa palavra existe?” “Credível” é sinônimo de “crível”, portanto, é aquilo ou aquele em que se pode crer. Não custa lembrar que o antônimo de “crível” é “incrível”, cujo sentido original
foi estendido para “fora do comum”. Hoje, quando se diz que uma pessoa é incrível, costuma-se querer dizer que é espetacular, ou seja, fora do comum. Ao pé da letra, incrível é alguém ou algo em que não se pode crer.
Convém dizer que todos os dicionários grandes registram a palavra, normalmente com a observação de que se trata de vocábulo pouco usado. “Crível” e “credível”, na verdade, são mais do que sinônimos: são a mesma palavra, já que
ambas vêm do latim “credibilis” e têm o mesmo superlativo: “credibilíssimo”. Por falar nisso, convém lembrar que
nossos adjetivos terminados em “-vel” fazem o superlativo em “-bilíssimo”: “amável/amabilíssimo”, “legível/legibilíssimo” etc.
Casos como o de “crível” e “credível” não são raros. Outro deles é o da dupla “captar” e “catar”, que vêm da mesma
fonte: “captare”, do latim. O tempo deu a cada uma delas matizes semânticos próprios, mas a origem e o significado
são os mesmos.
O problema é que, a julgar pela barbárie que toma conta do país, é iminente a extinção de crível e credível das futuras edições de nossos dicionários. O motivo? Falta de aplicabilidade, de pertinência, sobretudo no que diz respeito a muitas de nossas instituições. Até domingo. Um forte abraço.
Pasquale Cipro Neto é professor do Singular/Anglo Vestibulares, idealizador e apresentador do programa Nossa Língua Portuguesa, da Cultura. E-mail: diaadia@dgabc.com.br