Silvia chegou ao meu consultório e desabafou: “Não entendo. João tem tudo o que uma mulher pode desejar num homem: é gentil, carinhoso, inteligente. Mas não sinto vontade de ficar com ele, por mais que tente. Sou apaixonada pelo Paulo, que é egoísta, nada carinhoso e desaparece sem avisar, ou seja, me faz sofrer. Como é que se explica isso?” Talvez a explicação esteja no fato de que antes de qualquer escolha amorosa já temos desenvolvido um
modelo cheio de circuitos cerebrais que determinam o que nos leva a nos apaixonar por uma pessoa e não por outra. Estudos mostram que as crianças desenvolvem esses mapas amorosos entre os 5 e 8 anos de idade e são determinados pelos relacionamentos com a família, amigos, assim como por suas próprias experiências e
oportunidades.
Por exemplo, quando crianças, nos acostumamos à bagunça ou à tranquilidade da casa, ao jeito como nossa mãe nos escuta, ralha conosco ou nos estimula, e como nosso pai brinca ou caminha. Algumas características de temperamento de nossos amigos e parentes nos atraem e outras associamos a incidentes perturbadores. Assim, pouco a pouco, essas memórias começam a formar um padrão mental em nossa mente, um modelo subliminar
do que nos agrada e do que nos desagrada.
À medida que crescemos, esse mapa inconsciente toma forma e a protoimagem do parceiro ideal começa a emergir. Depois, na adolescência, quando as sensações sexuais inundam o cérebro, esses mapas amorosos
vão se solidificando, tornando-se bem específicos com relação aos detalhes da fisionomia, da constituição
física, da raça e da cor do parceiro ideal, sem mencionar o caráter, a educação etc. Temos um quadro mental
do companheiro idealizado, dos cenários que nos atraem e dos tipos de conversas e de atividades eróticas que nos excitam.
Desse modo, bem antes de conhecermos nosso verdadeiro amor em uma sala de aula, em um shopping ou no
escritório, já temos prontos alguns elementos básicos de nosso parceiro ideal.
Depois, quando realmente encontramos quem se encaixe dentro desses parâmetros, nos apaixonamos por ele e nele projetamos nosso mapa amoroso. O objeto da paixão é em geral bem diferente de nosso ideal, mas deixamos de lado essas inconsistências para fazê-lo se encaixar em nosso modelo. Daí a famosa frase de Chaucer: “O
amor é cego”.
Regina Navarro Lins, psicanalista e sexóloga, é autora de O Livro de Ouro do Sexo (Ediouro). E-mail para a coluna: rlnl@uol.com.br. Site: www.camanarede.com.br