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A música é dom concedido a poucos. Uns, inclusive, cantam e tocam sem nunca terem estudado melodia. O pensamento é sintetizado em citação do compositor francês Claude Debussy (1862-1918): “Houve e há, apesar das desordens que a civilização traz, pequenos povos encantadores que aprendem música tão naturalmente como se aprende a respirar. O seu conservatório é o ritmo eterno do mar, o vento nas folhas e 1.000 pequenos ruídos que escutaram com atenção, sem jamais terem lido despóticos tratados.”
É este dom admirável que define a trajetória do maestro Carlos Eduardo Moreno, regente da Orquestra Sinfônica de Santo André. Filho de mãe pianista, a aptidão artística dele se desenvolveu logo cedo, quando ingressou no conjunto musical Canarinhos de Petrópolis, na época em que a cidade carioca era sede de grandes concertos internacionais. Segundo Carlos, a mãe encontrou uma redação escolar que escreveu aos 8 anos, dizendo que seria médico ou maestro. E assim se concretizou.
Estudou piano e violino. Aos 15 anos compôs um concerto e o regeu. Foi a primeira de muitas vezes que se viu à frente de orquestras. Como professor de música, recebeu bolsa para estudar na Alemanha e na Áustria. Como regente convidado, dirigiu Orquestra Sinfônica Nacional, Akademisches Kammerorchester Zürich (Suíça) e Symphonisches Orchester Biel.
Mãos vibrantes, pulos, expressões de êxtase e olhares penetrantes auxiliam o maestro na hora de reger 80 músicos da Sinfônica de Santo André em harmonia. “Não é qualquer um que pode tocar na orquestra. Uma nota nunca é executada isoladamente, lá na frente há outro instrumento que precisa que a primeira nota saia perfeita”, diz o maestro aos instrumentistas, explicando sua teoria sobre inteligência musical, onde uma orquestra funciona como um time de futebol e cada jogador (no caso, músico) precisa estar literalmente afinado para oferecer ao público espetáculo digno de ser aplaudido de pé.
Aliás, muito trabalho é o que rege a vida de Carlos Moreno, que mora em Vargem Grande Paulista, na região metropolitana de São Paulo, e usa o tempo no trânsito para – adivinhem? – ouvir música. Não se prende ao repertório clássico, mas escolhe tudo que tem qualidade musical. “Paulinho da Viola e Martinho da Vila são gênios. Parece muito fácil cantar como eles por causa da serenidade da voz, mas é muito difícil.”
A Sinfônica andreense participa da série de concertos de verão chamada Piratininga, com compositores brasileiros. Uma das surpresas foi a participação da bateria de uma escola de
samba entre os instrumentos clássicos. “Posso imaginar que muitas pessoas foram ao concerto pela primeira vez atraídos pela bateria. Mas esta não deixa de ser uma ótima oportunidade para apresentar composições clássicas a quem não pôde conhecer antes”, diz o maestro, que neste ano retoma o projeto de ensaios didáticos aberto às escolas.
Para ele, que também já passou pela Sinfônica de São Bernardo, a região acolhe bem suas orquestras sinfônicas. Em Santo André, os músicos se apresentam gratuitamente no último fim de semana de cada mês com o Teatro Municipal lotado. “Há muitas cidades no Estado que não contam com uma orquestra”, afirma Carlos Moreno, que tomou como desafio pessoal fazer da Sinfônica de Santo André a maior orquestra do Brasil.
A meta parece ousada quando se fala da corporação de 21 anos formada integralmente por bolsistas. Mas não para ele, que recuperou a Orquestra Sinfônica da Universidade de São Paulo. Em sete anos os músicos da USP conquistaram dois prêmios Carlos Gomes. Sua meta agora passa longe de brilhar em orquestras europeias: “Lá, já estão estabelecidas. Meu sonho é contribuir para o crescimento de uma orquestra no Brasil. A de Santo André caminha para a profissionalização, mas isso só é possível com investimentos e muito trabalho.”