Os músicos vão chegando e sentando em seus lugares. público se aproxima do palco, principalmente as mulheres, que disputam espaço no gargarejo. Enfim, Diogo Nogueira entra em cena. De longe dá para notar que é vaidoso: argola na orelha, pulseiras, pingente de São Jorge e anéis (um deles com a imagem de Nossa Senhora). Proteção não falta. Fãs também não. E é só o artista aparecer para elas irem à loucura: gritam, pulam, fazem elogios. Impossível ouvir as boas-vindas do sambista ao microfone. Com sorriso de canto de boca e gingado de malandro carioca (no bom sentido), Diogo Nogueira chega devagar e começa a cantar. Logo prende a atenção da plateia. Só assim para as fãs sossegarem e fazerem coro junto à privilegiada voz do sambista. Tímido, é no palco que ele se solta. Está em casa. E, aos 28 anos, pronto para assumir o posto que um dia foi do pai, o respeitado sambista João Nogueira.
Do campo aos palcos
Quem vê a intimidade dele com o palco pensa que Diogo tem muitos anos de estrada, porém, durante almoço no Rio de Janeiro com a equipe da Dia-a-Dia Revista, o cantor revela ter apenas cinco anos de carreira. Antes, só queria saber de futebol. Jogador profissional, largou as chuteiras aos 23 anos por causa de uma contusão no joelho. “Sair foi uma necessidade, por falta de condição financeira para operar e voltar. Mas hoje jogo minhas peladas, com amigos ex-jogadores. Estou sempre ligado no futebol.”
E a música surgiu como novo caminho. “Ia a rodas de samba para me divertir e sempre dava uma canja. Passaram a me convidar para cantar. Tive de montar uma banda e comecei a fazer pequenos shows, com sambas de meu pai, de outros compositores e também de minha autoria.”
Numa dessas apresentações, estava na plateia ninguém menos que o presidente da EMI, Marcelo Castelo Branco. “Ele gostou muito e falou que aquele show tinha o perfil perfeito
de um DVD.” Na semana seguinte, Diogo assinou contrato e marcou o dia para a gravação, que aconteceu dois meses depois no Teatro João Caetano. “O DVD foi para o mercado e fez um sucesso que eu não esperava.”
Herança de família
Do pai – que morreu de infarto em 2000 – herdou voz grave e aveludada, além dos trejeitos e do jeito de falar, com a boca meio travada. Fisicamente é mais parecido com a mãe, Ângela Maria Nogueira, de quem ganhou hipnotizante par de olhos azuis. Único filho homem de uma família repleta de mulheres – ele tem três irmãs –, admite que sempre foi o centro das atenções, mesmo quando o motivo era alguma arte aprontada na infância. “Era bem pequeno e entrava na roda de samba para perturbar. Às vezes rolava um ‘sai daqui moleque!’, porque eu pegava o pandeiro, o tamborim e ficava perturbando. As festas lá em casa eram sem fim.”
Além do samba na veia, Diogo teve o privilégio de ter crescido no meio da nata da música popular brasileira. As festas familiares atraíam sempre ilustres convidados. “Lembro do Agepê, da Beth (Carvalho), do Paulinho da Viola, do Martinho, da Dona Ivone, Delcio Carvalho... Quando ia dormir, a festa estava rolando; quando acordava, ainda estava rolando. Gostava muito.” A experiência apurou o ouvido musical de Diogo para o samba. “Conviver com essas pessoas me influenciou bastante. Você aprende com os lugares e também com as pessoas mais velhas. Tem de estar ligado e captando as coisas, mas não acho que sou mais que ninguém por isso.”
Sambista de alma, gosta de circular por outras áreas, mas nunca muito longe do samba. “Fiz uma toada com um paulista amigo, o Rodrigo Leite. É a música Chegou o Amor, que está no disco. Gosto de gexá (ritmo popular). Mas fora do universo do samba ainda não sei se vou percorrer muito, depende do momento, do sentimento. Gosto de fazer tudo com muito amor, com o que vem de dentro.”
Entre as inspirações do cantor, está o intérprete Emílio Santiago. “Ele é fora do normal, o timbre de voz, a maneira de interpretar”, explica. Também curte Zeca Pagodinho e Dudu Nobre.
Chico Buarque
“O Chico (Buarque) já foi várias vezes lá em casa”, conta Diogo. O cantor fazia parte da roda de amigos do pai, João Nogueira. Entre os dois compositores havia amizade e admiração
profissional. “Ele costumava ligar para o meu pai.” Um dia, Diogo recebeu telefonema de Chico com uma proposta irrecusável. “Foi engraçado, porque eu estava no trânsito quando ele ligou e disse: ‘É o Chico’. E eu perguntei ‘Como assim, que Chico?’. Ele: ‘O Chico Buarque, pô!’”. Foi quando Diogo ficou sabendo que o compositor havia feito com Ivan Lins um samba para ele. “Disse que tinha uma música maravilhosa e eu quis conhecer, é claro. O disco já estava sendo prensado, mas quando eu ouvi fiquei impressionado. A canção não poderia ficar de fora.” A gravação de Sou Eu foi feita de última hora e em apenas três dias. “O Ivan Lins não pôde participar porque estava em Portugal, mas o Chico participou, fez o coro. Ficou perfeita.”
Família
Entre tantos shows e viagens, Diogo teve de encontrar uma forma de não ficar tanto tempo longe da família. Assim, sempre que pode, leva a trupe toda junto: a mulher, o filho e o enteado – que considera como filho. A mulher, segundo o artista, entende bem a admiração exagerada das fãs. “Têm algumas assanhadas, que querem abraçar, beijar, mas é tranquilo. Ela leva numa boa porque sabe que são elas quem compram os meus CDs e que frequentam o meu show. Então, é bem relax.” Fofoca de vez em quando também aparece, mas o sambista tira de letra. “Não é verdade mesmo, então deixa falar.”
No restaurante onde nos encontramos para a entrevista, o cantor chegou reclamando de fome e, sem titubear, pediu estrogonofe de carne e suco de limão. Revelou que durante os fins de semana pilota a cozinha de casa. “Gosto de cozinhar. E gosto de muita comida, principalmente daquelas bem temperadas. Sou fã de rabada, de estrogonofe e adoro massa.”
Apesar de ter nascido em família festeira, o ritmo na casa dele é mais tranquilo. “É mais light, mas gosto muito de festa. De vez em quando a gente faz uma bagunça (risos).”
Carnaval
O cantor não esconde o orgulho de ser um dos autores dos sambas-enredo da Portela nos últimos quatro anos, incluindo o que a escola apresentará no desfile da Sapucaí na próxima semana: Derrubando Fronteiras, Conquistando a Liberdade, o Rio de Paz em Estado de Graça. Nascido com samba no sangue e no pé, tatuou as cores azul e branca no coração, seguindo a tradição do pai. “Desde pequeno, sempre desfilei, só que não fazia parte da ala dos compositores da Portela, até que certo dia me chamaram e as coisas começaram a dar certo.”
Neste ano, Diogo ainda pretende gravar o DVD (provavelmente em março) do show Tô Fazendo a Minha Parte, lançado há quatro meses, e intensificar a divulgação de seu trabalho pelo Brasil, Europa e Estados Unidos. No tempero deste sucesso, ele revela ingredientes preciosos. “Acredito que há um conjunto de coisas: talento, nome do meu pai e acho que a beleza também ajuda, sim (risos). Um pouquinho de cada, assim como temperar uma comida.” E a música Espelho, de autoria de João Nogueira, faz sentido. Não há dúvidas de que “lá no céu, o velho tem vaidade e orgulho de seu filho ser igual seu pai.”
Jogo rápido
Nome: Diogo Mendonça Nogueira
Nascimento: 26 de abril de 1981
Comida: Rabada, estrogonofe e massa
Cantor: Emílio Santiago
Cantora: Elis Regina
Música: Espelho, do pai, João Nogueira
Sonho: “De ver este mundo mudar, as pessoas se tratarem com mais carinho”