Dia-a-Dia Revista



Passaporte carimbado

domingo, 7 de fevereiro de 2010 Envie para um(a) amigo(a) Imprimir Comentar

Christiane Ferreira

Caio Luiz de Carvalho, presidente da SPTuris, é um dos principais nomes do turismo no Brasil

Ele é um típico paulistano. É apaixonado pela Terra da Garoa com todas suas desigualdades e a vende como ninguém. É presidente da SPTuris (São Paulo Turismo), órgão de promoção turística e eventos da cidade de São Paulo. É o coordenador do Comitê de São Paulo para a Copa Fifa de 2014. Foi ministro do governo FHC, presidente da Embratur e o primeiro sul-americano a presidir o conselho da OMT (Organização Mundial do Turismo). Orgulha-se de ter trabalhado com grandes nomes da política brasileira – Olavo Setúbal, Tancredo Neves, Franco Montoro, Ulisses Guimarães, Mário Covas, Fernando Henrique Cardoso e José Serra. Mas não se acha poderoso.

Caio Luiz de Carvalho, canceriano típico, nasceu há 58 anos na maternidade paulistana Pro Matre. Filho de promotor público, na infância morou em cidades como Santa Rita do Passa Quatro, Pirajuí, Barretos e Limeira. De volta a São Paulo na década de 1980, estudou em colégios tradicionais, como Elvira Brandão e Dante Alighieri. Fez faculdade de Direito no Largo São Francisco, da USP, e se orgulha de ter feito parte da primeira turma a abolir a gravata para assistir às aulas. Porém, lamenta o fato de na mesma época o latim ter deixado de ser requisito para entrar na instituição. Especializou-se em Ciências Políticas e Direito Administrativo, mas nunca advogou. “Nunca gostei de gravata, quando me formei trabalhei por seis meses com um colega advogado. Mas não me sentia bem“, recorda ele, que no dia da entrevista vestia calça e camisa social bem alinhadas, mas sem a famigerada gravata.

Mudou de rumo após acompanhar uma delegação do Chile, que veio se promover em São Paulo. E o turismo lhe tomou o coração. “A partir daí, virei coordenador de turismo do Estado de São Paulo, depois fui presidente do Conselho das Faculdades de Turismo do Estado de São Paulo, montei uma empresa para representar o governo da
Flórida e promovi feiras do Japão.“

Mas o destino o fez mudar de direção mais uma vez. Quando Itamar assumiu o governo, em 1992, Caio foi convidado para ir a Brasília ocupar o cargo de secretário nacional de Turismo e Serviços. “Fui ficar um ano e fiquei dez. O destino fez com que FHC (Fernando Henrique Cardoso) , que era chanceler e depois ministro de Relações Exteriores do governo Itamar, se transformasse em ministro da Fazenda, responsável pelo Plano Real. Aí, ele (FHC) se elegeu no primeiro turno. Eu quis voltar, mas como tinha ligação grande com o presidente, fiquei em seus dois governos, como secretário nacional de Turismo e Serviços. Em 1998, acumulei a Embratur (de 1998 a 2000), e de 2001 a 2003 fui ministro de Esportes e Turismo.“

Do tempo na capital do Distrito Federal, ele relembra o quanto foi difícil ficar longe das filhas Juliana e Gabriela.
“Agora elas estão mais velhas, mas sofreram muito quando fui a Brasília na época em que mais precisavam de mim.“

Da experiência adquirida, carrega muitas lembranças, além do passaporte carimbado para mais de 40 países. Mas confessa que ainda falta conhecer Rússia, Taiti e Nova Zelândia. Só para a terra do sol nascente foi em mais de 20 ocasiões. “Às vezes, penso em escrever um livro. Nesta semana (a entrevista foi em 22 de janeiro) dei para a minha mãe uma foto minha com Fidel Castro e outra com o Bill Clinton. Tive uns três encontros em Cuba com Fidel, quando era da OMT“, conta, lembrando com graça quando teve de ir com a perna quebrada a um encontro com o então presidente do Egito.

Mas o que se recorda com mais orgulho é de ter podido rodar pelo Brasil na função de ministro e como presidente da Embratur. “Muitos não têm ideia. Conheço todos os Estados brasileiros, desde uma tribo Macuxi em Roraima até o Salto de Yucumã, no extremo Sul. É um País maravilhoso, com muitas diferenças.“

Lembra com carinho da amizade que selou com o velejador Lars Grael na época em que era ministro, laço que permanece até hoje. Com FHC, mantém contato como amigo e faz questão de frisar que o ex-presidente é um grande estadista.

SÃO PAULO DE TERRA BOA

“Trabalhar com turismo não é tão agradável quanto ser turista“, afirma Caio, que fala categoricamente que ‘paga para não viajar’. A função de voar por aí atualmente fica com as pessoas que trabalham ao seu lado. “De vez em quando não tem jeito, mas prefiro ficar em casa, em São Paulo mesmo.“

Hoje o presidente da SPTuris tem uma rotina diferente. Em suas próprias palavras, é boêmio. Dorme todos os dias às 2h30, pois fica até tarde no computador. Acorda às 8h diariamente – seus ‘despertadores’ são os dois labradores Téo e Romeu, a quem ele chama de filhos –, sai de casa às 9h e fica no trabalho até as 21h.

Casado há 33 anos com a advogada Sílvia, nos fins de semana gosta de ficar em São Paulo, em casa. Tira férias 15 dias por ano e geralmente escolhe como destino algum lugar do Nordeste, como Comandatuba e Maceió, ou o local que considera “o mais lindo do planeta Terra“: Fernando de Noronha. “Gosto de viajar para descansar. São minhas férias terapêuticas. Ano passado, casualmente, fui para a Sicília (Itália) , queria conhecer o lugar onde meu avô nasceu.“

Acima, foto de Caio com Dalai Lama
Foto com o papa Bento XVI e imagem de Nossa Senhora Aparecida no escritório. No detalhe abaixo, tese de doutorado concluída em 2009 na USP, motivo de orgulho

Em seu escritório em São Paulo, no Anhembi, mais recordações do trabalho e da carreira. Entre os porta-retratos, fotos de quando conheceu o monge budista tibetano Dalai Lama e o papa Bento XVI, na ocasião em que ambos
vieram ao Brasil. Porém, se arrepende de não ter fotografado outros momentos especiais com mais afinco.

Para Caio, vender São Paulo foi uma das maiores experiências que teve, já que permaneceu dez anos pensando nos destinos do Nordeste. Sua cidade natal o instiga e o desafia. Ele acredita que o segredo é trabalhar um foco, pois considera que a grande metrópole seduz naturalmente o imaginário dos brasileiros. “Somos o primeiro destino turístico da América do Sul, com 11,3 milhões de turistas anuais“, comemora.

O diferencial de Sampa é trabalhar o turismo como evento, como negócio, sempre ligado à agenda cultural. Não à toa, das 170 feiras que acontecem no Brasil, 140 são realizadas em São Paulo. Segundo a ICCA (International
Congress and Convention Association), a Capital é o primeiro destino das Américas a sediar eventos internacionais. E ele se orgulha de, em sua gestão, ter elevado de 50% para 63% a taxa de ocupação hoteleira, assim como o tempo de permanência do turista na cidade, de 2,5 para 3,8 dias.

Caio adora desafios. Com propriedade de quem sabe o que fala, afirma que a meta deste ano é focar no turismo médico. “Poucas pessoas sabem que vem gente do mundo inteiro para São Paulo pela excelência em medicina. Temos mais de 100 hospitais, 17 deles com certificação internacional. É um turista com alto poder aquisitivo e as seguradoras norte-americanas já fazem convênios com hospitais paulistas para que americanos possam se tratar aqui, como já acontece na China e na Índia.“

CARNAVAL E BOLA

Dentre as funções na SPTuris, Caio administra o Parque Anhembi. E nos próximos dias suas atenções estarão voltadas ao Carnaval. Ele diz que já gostou muito da festa, mas que hoje a Folia é sinônimo de trabalho. E muito trabalho: nos quatro dias, 120 mil pessoas – 25% a 30% vêm de fora da cidade – assistirão aos desfiles que varam a noite. “Quando chego na avenida adoro, é um belo trabalho“, conta, adiantando que neste ano a novidade serão os telões espalhados ao longo da avenida.

Questionado sobre a comparação entre as escolas do Rio de Janeiro e São Paulo, é enfático: “Carnaval do Rio é o do Rio, o melhor do Brasil, e o Carnaval de São Paulo é um grande Carnaval, com identidade própria, mas que não tem o mesmo número de celebridades que o carioca.“

COPA 2014

Coordenador do Comitê de São Paulo para a Copa Fifa de 2014, ele sabe que tem mais desafios pela frente. O primeiro deles é trazer o jogo de abertura para o estádio do Morumbi. “Os projetos não estão saindo do papel. Muita gente esperava que os estádios estivessem em construção e quase nenhum está. O de São Paulo já existe, está lá, tem tijolos colocados. Em muitas cidades-sede há o projeto, mas nenhum tijolo, e não há dinheiro para fazer. O governo liberou R$ 400 milhões para cada cidade-sede, com financiamento do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), e o São Paulo falou que vai pegar R$ 150 milhões. Tenho expectativa de que o São Paulo cumpra a promessa e faça o estádio para a abertura da Copa. Nós vamos brigar por isso“, ressalta Caio, são-paulino roxo.

Outra questão mais grave promete tirar o sono de Caio até 2014: a aeroportuária, já que 75% dos voos que chegam ao Brasil passam por Guarulhos, atualmente com capacidade para 20 milhões de passageiros. “Guarulhos está saturado. São 19 milhões de pessoas em Congonhas. A promessa da Infraero é passar para 30 milhões em Guarulhos e aumentar de 1,5 milhão em Viracopos (Campinas) para 8 milhões. Até agora, nada saiu do papel e, se sair em 2011, com o futuro presidente assumindo, quero saber se vai dar tempo de construir até 2013 ou se vão fazer somente puxadinhos“, alfineta.

Problemas à parte, o mais importante para Caio é que a Copa deixe um legado, com infraestrutura que possa ser aproveitada depois pelos cidadãos, que, de certa forma, também pagam a conta. “O principal benefício não é estádio ou projeção, mas acelerar projetos de infraestrutura urbana que jamais sairiam do papel“, afirma Caio, que não vai à Copa da África, mas conheceu os estádios em visita no ano passado.

No quesito Copa, ele ainda reforça que não se pode cometer o mesmo erro do Pan-Americano do Rio de Janeiro, em que o orçamento de R$ 400 milhões se tornou R$ 3,5 bilhões, com a conta para o governo federal pagar. “No Rio, construções e equipamentos estão sendo demolidos para construir para a Olimpíada agora.“

PAÍS DO ESPORTE

E por falar em Olimpíada, Caio vê o evento esportivo de forma positiva, por tirar o foco “da garotada da monocultura do futebol“. “Na Olimpíada, vêm os melhores atletas do mundo, e acho que isso pode contagiar o imaginário de jovens e crianças.“

Mas ele sabe que é preciso mais, principalmente se o Brasil quiser ter resultados expressivos nas competições. Lembra, inclusive, dos bons tempos do vôlei da Pirelli, de Santo André, de onde saíram grandes nomes do esporte, como Montanaro e William. “Todo aquele trabalho feito pela Pirelli, juntamente com o Adote um Atleta, acabou  possibilitando várias gerações de campeões do vôlei. Mas as coisas não acontecem por mágica, são processos. E isso aconteceu em 1977.“

Para Caio, a solução é instalar política pública de esporte, junto com a rede escolar, independentemente de se a criança vai ou não alcançar o sonho olímpico. “Essa massificação consegue extrair talentos possíveis. Por meio do profissional de Educação Física, é possível canalizar esses talentos para uma espécie de rede olímpica, selecionando os melhores e encaminhando para um centro de excelência“, afirma o executivo, que cita os exemplos bem-sucedidos de Cuba e Alemanha.

Faixa preta de caratê na juventude, Caio precisa ter fôlego de atleta para cuidar de tantas atribuições. Dentre elas, a Fórmula 1, já que a SPTuris também administra o autódromo de Interlagos – em 1976, ele trabalhou com Emerson  Fittipaldi, Nick Lauda e Carlos Reutmann.

E não deixa passar despercebida sua felicidade pelo fato de São Paulo receber a Fórmula Indy pela primeira vez, dia 14 de março. “Essas duas competições, juntamente com o  Salão Duas Rodas e o Salão do Automóvel, transformarão São Paulo na capital do automobilismo na América Latina. Isso é muito bom.“

Apaixonado por automobilismo, Caio nem pensa em parar de ‘correr’ um minuto para concretizar seus projetos. Questionado sobre se pensa em desacelerar quando se tornar um sexagenário no ano que vem, ele responde de bate-pronto: “Você me lembrou disso agora. Sinto-me com 30 anos.“ E alguém duvida?

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