Dia-a-Dia Revista



Conversa de bamba

domingo, 7 de fevereiro de 2010 Envie para um(a) amigo(a) Imprimir Comentar

Miriam Gimenes

Sidnei é carnavalesco da Mocidade Alegre, atual campeã do Carnaval paulista

São Paulo, 14 de fevereiro de 2010, 0h30. Será exatamente nessa hora que a comunidade do Limão, bairro da Zona Norte de São Paulo, estará pronta para o dar o grito de guerra e cantar o samba-enredo de sua escola do coração.
Mas, em meio à multidão de mais de 3.500 passistas concentrados no Sambódromo do Anhembi, com a voz trêmula, mãos suadas e enorme responsabilidade sobre as costas, um coração, certamente, baterá mais forte: o
de Sidnei França, líder do grupo de carnavalescos de uma das escolas mais tradicionais de São Paulo: a Mocidade
Alegre, atual campeã do Carnaval paulista.

No alto dos seus 30 anos, o garoto – formado em Economia e que aprendeu a gostar de samba aos 2 anos ao visitar os ensaios com sua mãe, ex-mulata da agremiação – fala da administração do Carnaval com a segurança de um grisalho. “A escola é uma entidade que tem de zelar pelas tradições do Carnaval. Então, a gente faz questão que esteja acima de tudo.” Assumiu o departamento cultural da escola há sete anos e nesse período viu a sua Mocidade ser campeã três vezes.

Sidnei demonstra que a maior festa popular brasileira é muito mais do que confete e serpentina. Como  carnavalesco, precisa ter a astúcia de um alto executivo, necessitando mesclar psicologia (para lidar com egos) e administração, para saber delegar funções. Fora isso, é preciso ter bagagem cultural para fazer o enredo e  discernimento que o ajude, dentro disso tudo, a separar um tempinho para a vida pessoal. Mas este último quesito ele deixa para pensar na Quarta-feira de Cinzas, assim que o julgamento de seu trabalho for feito pelos jurados da Liga das Escolas de Samba de São Paulo.

DIA-A-DIA – Como é o trabalho de um carnavalesco?
SIDNEI FRANÇA – No ano de 2008, quando preparamos o Carnaval de 2009, resolvemos montar uma comissão de carnavalescos. De lá para cá somos três responsáveis pela criação plástica. O trabalho vai desde a pesquisa e o desenvolvimento de um tema, até a questão plástica, que é criar o visual das fantasias e dos carros alegóricos. O
nosso trabalho é gerenciar a confecção do desfile, desde estruturar os carros com as ferragens até a parte final, que é a decoração.

DIA-A-DIA – E quando começa a confecção do enredo?
SIDNEI – Sempre na primeira quinzena de abril tenho de ter prontas três opções de enredo. Apresento para a diretoria e nos reunimos para escolher aquele que tem mais apelo cultural e emotivo. Um mês depois, o meu papel é pesquisar a fundo o enredo e desenvolver como a escola vai mostrá-lo. A partir daí os nossos compositores têm um mês para trazer os sambas. Em julho começa o concurso com as 30 composições e em setembro, acontece
a final. De setembro até o Carnaval ensaiamos todos os domingos.

DIA-A-DIA – Como é sua rotina quando o Carnaval se aproxima?
SIDNEI – Se tem uma palavra que não existe para nós é ‘rotina’. Não tem mais horário para começar e terminar expediente, temos de correr atrás de costureiras, de aderecistas e supervisionar o que está pronto. Fazemos uma espécie de controle de qualidade, para saber se as fantasias têm o perfil apresentado pelos carnavalescos.

DIA-A-DIA – O que é necessário para ser carnavalesco?
SIDNEI – Basicamente duas coisas: carga cultural razoável, para ter elementos que deem condições de pesquisar personagens, além de senso prático para formar equipes voltadas à administração da arte. Tem de reger e dirigir todo contexto artístico que a escola pretende que tenho a vivência da escola de samba, pois frequento a Mocidade
desde meus 2 anos de idade. Uso minha formação em Economia para desenvolver cronogramas, fazer estratégias e planejamentos para que aconteça um desfile organizado, bonito e leve.

DIA-A-DIA – Dá para dizer que a escola de samba é uma empresa?
SIDNEI – Não se pode dizer isso no sentido de buscar lucro, porque não existe. O que a gente faz é desenvolver cultura, mais especificamente a cultura do samba. É uma empresa no âmbito da gerência, da administração do tempo e das pessoas. E também da organização do ambiente e da estrutura de trabalho.

DIA-A-DIA – Como a agremiação se sustenta?
SIDNEI – De duas formas: os recursos fixos (verba da prefeitura, patrocínio da Rede Globo e participação na vendagem de ingressos no Anhembi) e os variáveis, que são busca de patrocínio, exploração de marcas, venda de produtos na butique e de fantasias. Também fazemos shows em casamentos, formaturas, aniversários e encontros
de empresas.

DIA-A-DIA – Quem são as pessoas envolvidas no desenvolvimento do enredo?
SIDNEI – São os voluntários, os contratados permanentes e os temporários, que trabalham conforme a demanda.

DIA-A-DIA – Registros apontam que o Carnaval foi criado no século 11. O de hoje, no entanto, tornou-se mais
glamouroso. A data ainda guarda um pouco de sua essência?
SIDNEI – O Carnaval foi passando por transformações culturais e tecnológicas através dos séculos. Os carros alegóricos agora têm neon, soltam papel picado, fumaça. Lá na essência era algo muito popular no sentido de que as pessoas eram o único diferencial da festa. Hoje continua sendo feito por pessoas, mas a tecnologia é importante
para manter o padrão estético e o nível do show.

DIA-A-DIA – Concorda com a máxima de que para os brasileiros o ano só começa depois do Carnaval?
SIDNEI – Os festejos de Carnaval estão muito arraigados na cultura popular brasileira. O cidadão comum, quando passa o Natal e o Réveillon, não consegue pensar em outra coisa que não o Carnaval. Mas, para nós que vivemos
de Carnaval, pensamos nele todos os meses. Passado o desfile, no mês seguinte aqui na escola já há oficinas de mestre-sala e portabandeira, escolinha de bateria para quem quer aprender a tocar os instrumentos...

DIA-A-DIA – Existem opiniões distintas sobre o Carnaval: a Igreja vê como festa pagã, o estrangeiro acha que é a
festa da sacanagem. O que você pensa sobre isso?
SIDNEI – Na verdade, é uma festa tão grande que gera desdobramento para várias interpretações. Os acadêmicos enxergam como uma ópera popular; o povo, como forma de entretenimento, lazer e cultura. Até por não ter contato
com a complexidade que é produzir um desfile, as pessoas têm visão muito superficial e só veem as mulatas, as bundas de fora, o seio siliconado.

DIA-A-DIA – Muitas pessoas pensam que vale tudo nos quatro dias do Carnaval. Você concorda com isso?
SIDNEI – Não é bem assim. Na verdade, a gente vive uma fase em que temos de nos preocupar com saúde, integridade física e com o próximo. Inclusive, na escola, a gente prega muito isso. Cada pessoa que compra uma fantasia recebe O manual do desfilante. Nele, há recomendações como alimentação leve, não beber e dirigir, entre outras coisas. Muitas vezes, essas brincadeiras de Carnaval em que vale tudo levam a situações de consequências incalculáveis.

DIA-A-DIA – Você falou em mulheres siliconadas. Hoje existem muitas pessoas que desfilam mais para aparecer
do que por amor ao samba?
SIDNEI – Isso é nítido. Têm artistas que mandam a assessoria de imprensa ligar para escolas de samba para saber se tem vaga no desfile. A gente tem um pouquinho mais de resguardo e toma cuidado para não vender a
Mocidade por imagem.

DIA-A-DIA – Como você lida com os egos, algo inerente ao ser humano?
SIDNEI – Tentamos minimizar essa questão do Carnaval como uma festa de vaidade e de promoção da imagem. Eu tenho de ter essa função de mostrar às pessoas que sou o responsável pela direção artística e que elas vão ter de prestar contas para mim do que estão fazendo e onde vão desfilar. A escola é uma entidade que tem de zelar pelas
tradições do samba e do Carnaval.

DIA-A-DIA – Por trás de toda agremiação existem pessoas humildes. Como é o papel da escola na vida dessas pessoas?
SIDNEI – Como é uma escola de comunidade, há pessoas que não têm acesso a uma cultura requintada. A escola de samba é a única opção de entretenimento e lazer. Se a gente faz um almoço, essas pessoas estão aqui e
a escola retribui, muitas vezes, com doação de fantasias. Temos também trabalhos sociais, que é participar das ações e oficinas de corte, costura, cabeleireiro e manicure.

DIA-A-DIA – Quem é o grande nome do Carnaval brasileiro e qual o enredo inesquecível?
SIDNEI – Tia Ciata, mãe de santo baiana que morava no Rio de Janeiro. Foi na casa dela que foi criado o primeiro samba, Pelo Telefone. Era no quintal dela que rolavam as rodas de samba. As escolas devem tudo a essas  pessoas humildes, que tinham o samba literalmente nas veias. Um dos enredos inesquecíveis é Ratos e Urubus, Larguem a Minha Fantasia, de Joãozinho Trinta, de 1989. Foi um marco, por fazer um Carnaval crítico, que falava da festa do povo, que na Folia se veste de rei e vira majestade. Joãozinho Trinta, um grande carnavalesco, deve ser sempre reverenciado.

DIA-A-DIA – Como é para você, um jovem à frente de uma escola tradicional, assumir um papel como de Joãozinho Trinta?
SIDNEI – É uma grande honra. Não só por ser a Mocidade, mas por ser uma escola onde aprendi o que é o Carnaval. Toda minha vivência e bagagem vieram daqui. Além da responsabilidade, porque não posso viver em um mundo de confete e serpentina e esquecer do compromisso que é colocar uma escola na avenida.

Comentários

joel
08/02/2010
parabens pela reportagem e inovação como do presidente sobre nosso carnaval e carnval diferenciado no nosso pais

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