O papo de cozinha deste mês é especial, um bate-papo com o cantor e apresentador Ronnie Von. Ele não dá receita, mas a conversa é pra lá de apetitosa...
Ronnie Von cozinha? “Cozinho, mas não tenho talento.” Quem cuida para que as receitas saiam bem feitas em sua casa é uma cozinheira para quem ele rasga elogios. “Se faço um filé, sai meio sem jeito; mas o dela é perfeito, impecável. É talento.” Por isso, se houver rusga entre a arrumadeira e a cozinheira, Ronnie já avisou de que lado ele vai ficar, independentemente de quem tenha razão.
O outrora cantor, aos 65 anos, se mantém ativo na televisão, veículo onde atua há 43 anos, desde a Jovem Guarda na Record, em 1966, emissora onde também apresentou à época O Pequeno Mundo de Ronnie Von. Fez novelas, talk shows e programas musicais. Atualmente está à frente do Todo Seu, da TV Gazeta. “Não uso drogas, mas TV é meu ópio. Meu programa é um catalisador das famílias brasileiras, para assistirem juntas.” É um programa para o público feminino com um toque masculino, inspirado em seu livro Mãe de Gravata, no qual narra a experiência de se curar de uma doença raríssima e mortal (polineurite plurirradicular, uma inflamação no sistema nervoso) e cuidar sozinho do casal de filhos pequenos após a separação da primeira mulher – hoje, é casado com uma amiga de infância, com quem teve o terceiro filho.
“Bonitinhas” e “bonitinhos” é como ele se dirige ao telespectador. Ronnie chega à emissora por volta de 18h, a tempo de passar a pauta do programa com a produção e gravar às 20h30. Quando o primeiro bloco vai ao ar, às 22h15, ele ainda está no estúdio gravando. Os convidados são recebidos em um cenário formado por sala e cozinha. Foi lá, entre o camarim e esta casa cenográfica, que ele nos atendeu, antes da gravação. E nesse dia foi surpreendido com a redecoração do cenário, fato que sua produção não havia comentado. Móveis mais requintados, uma banheira de hidromassagem na sala e enfeites especiais para o fim de ano...
Ah, o fim de ano... “É uma maluquice. As pessoas ficam ensandecidas comprando, comprando”, afirma. Na madrugada anterior a este bate-papo, o apresentador havia gravado dois programas extras, incluindo 33 merchandising e dez editoriais do Todo Seu. Tinha saído do estúdio pela manhã. Estresse compreensível. “Atendi 40 telefonemas com pedidos de benemerência. Eu faço sem cobrar, mas por que só agora e não ao longo do ano? Não me entusiasmo com essa época.”
Estressado, mas sem perder a elegância e a educação. Às pessoas que lhe perguntavam “não vai ao meu ‘evento’?” (paulistanos, segundo este ‘carioca’ de Niterói, pronunciam ‘ein’em lugar de ‘m’ e ‘n’), ele recusava, gentilmente, dizendo “Não posso porque já tenho quatro para ir e ainda tenho de gravar o programa”. “Não sou assim, não me estresso, mas por que as pessoas não acham importante manter esse espírito natalino todos os
dias?”
Ronnie, se não tem talento para cozinha, conhece culinária. “A gastronomia no Brasil atingiu primeira grandeza. Em São Paulo, nem querendo a gente come mal.” Ele só não
gosta de invencionices. “Os mais despreparados começaram a inventar em níveis estratosféricos de maluquice. Não sei se fica bem na boca mel da Indonésia com páprica sei lá de onde.”
Vinho é sua paixão. “Enologia é também história, geografia, é a cultura de um país. Percebi o quanto as pessoas enlouquecem por um rótulo. Tenho 4.000 garrafas e sei que não vou tomar tudo até morrer. Alguém vai ter de ajudar.” Se depender da amizade, vai mesmo. Ronnie citou dois mimos que ganhou de amigos: uma caixa de Château Mouton Rothschield e outra de Château Pétrus (as garrafas podem chegar a mais de US$ 1.000).
Elegante, mantém-se impecavelmente vestido. “Não sei se usam esse termo ainda, mas sou um grã-fino moderno, sou antiguinho. Procuro ser gentil e cavalheiro com as pessoas,
para também ser elegante comigo. Minha mãe me disse um dia que elegância é não fazer o semelhante sofrer. É esse o meu conceito.”
E música? “Tudo o que eu tenho devo à música”, afirma. Ronnie poderia ter se tornado um pobre menino rico se seguisse os passos de seus parentes e permanecido no comando do Banco Comercial do Rio de Janeiro como Ronaldo Lindenberg von Schilgem Cintra Nogueira, mas preferiu seguir a intuição. “Dei esse desgosto para eles. Eu sempre gostei de todo tipo de música, barroca, jazz, rock’n’roll.” Encurtou o nome para Ronnie Von e foi tentar a sorte. Descoberto no bar Beco das Garrafas, em Copacabana, estourou com Meu Bem, versão dele mesmo para Girl, dos Beatles, ganhou de Hebe Camargo o apelido de Príncipe – causando ciúme no Rei Roberto Carlos –, e lançou sucessos como A Catedral, A Praça, Cachoeira, entre outros. Gravou 25 LPs, dois deles cults por seu experimentalismo psicodélico: A Misteriosa Luta do Reino de Parassempre contra o Império de Nuncamais (1969) e A Máquina Voadora (1970).
Foi o preconceito ‘ao contrário’ que o fez mudar de carreira. “Eu era tido como ‘filhinho de papai’ e para ter reconhecimento só vindo da favela. Para perseguir meu sonho artístico, vim morar em São Paulo, pertoda Cracolândia, na Praça Julio de Mesquita, sem grana alguma.” Dificilmente o Príncipe de olhos verdes voltará a gravar um CD ou sair em turnê para shows, preferindo a televisão. “Hoje em dia, só grava CD quem é rico. As gravadoras estão acabando, as pessoas não compram mais, preferem a internet. Sou um dos poucos que ainda compram CD.” Há futuro para essa mídia? “Ainda é cedo para definir, mas alguma coisa vai mudar.” Enquanto isso, Ronnie vai curtindo a fase feliz, luxuosa e estável que está vivendo.