Dia-a-Dia Revista



Órfãos de afeto

domingo, 6 de dezembro de 2009 Envie para um(a) amigo(a) Imprimir Comentar

Heloísa Cestari

Eles formam uma população de aproximadamente 200 mil pessoas no Brasil. Têm  histórias de vida comoventes, marcadas por passado de traumas, presente de abandono e futuro de incertezas.

Ninguém os conhece porque não incomodam. Não moram em casa nem nas ruas. Não fazem rebeliões, não lideram protestos nem suplicam esmolas. São os órfãos de afeto: crianças, idosos e doentes esquecidos nas entidades assistenciais, longe do que poderiam chamar de família.

Para a maioria, o Natal é data temida, em que as lembranças afloram e a esperança de ser visitado por um parente se mistura ao medo da frustração de ser novamente rejeitado. Para outros, que já não alimentam a mesma expectativa, é tempo de festa, de ganhar presentes de gente que nunca os viu e fingir que estes são agora a sua família, mesmo que apenas por breves instantes. Em comum, todos carregam o mesmo sentimento: solidão.

A Dia-a-Dia Revista percorreu abrigos, asilos e hospitais para mostrar quem são, como vivem e o que esperam da sociedade.

O resultado é um apanhado de depoimentos que emocionam, revoltam, envergonham e nos fazem repensar o verdadeiro espírito natalino. Os nomes – no caso das crianças – são fictícios; as histórias, de uma realidade desconcertante.

Nas próximas páginas, o leitor perceberá que não há remédio para cicatrizar feridas pretéritas nem milagre que lhes assegure um futuro de alegrias. Mas há antídoto para ao menos aconchegar a solidão: solidariedade.

Filhos de ninguém

Todos os dias, Tom acorda cedo e não deixa mais ninguém dormir. Gosta de brincar com as outras crianças, canta à noite para elas adormecerem, mas tem medo de adultos: fica quieto na frente deles, desconfiado. Por vezes, se assusta e foge para o quarto. Sabe que os maiores jamais o compreenderiam. Tom é o amigo imaginário de Michele, 5 anos, que prefere chamá-lo de anjinho. Nas horas em que ela quer conversar com alguém, ele sempre está lá, pronto para ouvi-la e enxugar suas lágrimas quando a saudade da mãe fala mais alto.

“Ele cuida de mim, me protege, mas eu também cuido dele, ponho pra dormir e bato no bumbum quando faz coisa errada”, diz Michele. Quando questionada sobre os últimos natais, Tom ajuda a amiga a enfeitar a realidade: “Fui pra minha casa, ganhei um monte de presentes da Hello Kitty, uma caneta bem bonita, um caderno e até um igual a esse”, conta, apontando para o gravador em minha mão.

Assim como Michele, muitas crianças abandonadas em abrigos encontram na fantasia um refúgio para a carência de afeto. Outras se agarram a um bicho de pelúcia, a uma foto da família escondida na mochila ou chupam o dedo para se sentirem mais seguras. “Elas projetam a família que não têm por perto naquilo que é palpável. É a maneira que encontram de se agarrar a algo que não lhes faltará”, afirma a psicóloga Denise Lopes.

Na hora de explicar como foram parar em um abrigo, no entanto, a maioria dos internos revela maturidade que chega a constranger. “Minha mãe tomou soda (cáustica) com limpaalumínio”, resume Michele. “A minha bebeu demais, fez escândalo no ônibus, queria se matar no meio da pista com a minha irmã”, conta Cleiton, 7. “Meu irmão foi me bater, aí eu dei um tapinha de nada nele. Mas ele pôs cuspe no olho pra fingir que estava chorando. Minha mãe acreditou e me deu uma surra. Aí, a vizinha chamou o Conselho Tutelar e a gente veio parar aqui”, explica Jenifer, 8.

Apesar das mazelas que contam com surpreendente espontaneidade – o que dói mesmo é a saudade –, essas crianças tiveram sorte. O Lar Mãos Pequenas, em Diadema, para onde foram encaminhadas, procura atender ao modelo determinado no ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente), que estabelece que os abrigos tenham cara, tamanho e jeito de casa. Nada de refeitório nem de alojamentos impessoais abarrotados de beliches. Lá,
todos chamam a coordenadora de mãe ou madrinha. Há flores nas janelas, brinquedos espalhados pela sala e uma espécie de sótão transformado em esconderijo pelos maiores. Alguns se oferecem para ajudar na limpeza da piscina ou da cozinha e reconhecem o esforço da merendeira em adaptar o cardápio ao paladar de cada um.

No dia em que a reportagem visitou a instituição havia 41 abrigados. Funcionários e voluntários se desdobravam entre berços, chiqueiros e mamadeiras para dar conta de tantos bebês e crianças. O espaço é pequeno, porém, como autêntico coração de mãe, sempre comporta mais um. Só naquela semana havia sete novatos, mas a apreensão  girava em torno de duas saídas: um casal acabara de telefonar avisando que recebera autorização judicial para adotar os irmãos Beatriz e Lucas, de 2 e 4 anos. A cozinheira,
Dona Maru, que há pouco dava de mamar a um recém-nascido, arruma as crianças e as entrega aos novos pais, que partem sem notar o esforço que fez para conter as lágrimas.
“Não tem jeito, a gente acaba se afeiçoando. Pior é quando a criança não quer ir, olha pra trás chorando”, explica.

Nesses lares de mentira, o afeto é verdadeiro. São sementes de amor que podem dar frutos no futuro. “Quando eu crescer, quero ser modelo e dona de um abrigo como este. Ou pelo menos ajudar a Mãe Estrela (coordenadora do lar) aqui mesmo. Ela é muito boa pra gente. Às vezes eu tento ajudá-la, mas sou criança e acabo atrapalhando”, diz Andressa, 10, que hoje se arrepende de ter procurado o Conselho Tutelar após ser espancada pelo pai. “O juiz já me desabrigou, posso voltar pra casa, mas meu pai diz que não dá. Prometi para mim mesma que não vou mais chorar por causa disso. Não vai adiantar. Mas sinto saudade dele”, diz a garota, enquanto tira da mochila um retrato do último Natal em família.

Ano passado, já na instituição, ela comemorou as festas de fim de ano na casa da diretora do Mãos Pequenas, Elzira Turuko Taira Santos. “Nós dividimos as crianças e as levamos para passar o Natal em nossas casas. Fica tudo de perna pro ar, mas elas se divertem. É uma alegria”, garante Elzira.

Vestígios da ditadura

Outros abrigos não têm o mesmo perfil do Mãos Pequenas. Ainda mantêm traços da antiga Funabem (Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor), criada pelo regime militar e transformada em berço da marginalidade. Dissertação de mestrado do pedagogo Roberto da Silva mostra que 36,5% das crianças que entraram nos orfanatos da velha Funabem em São Paulo entre 1958 e 1968 terminaram na cadeia. Para o doutorado na USP (Universidade de São Paulo), Silva seguiu o caminho inverso: levantou o histórico dos presos que cumpriam pena no Complexo do Carandiru entre 1998 e 1999 e concluiu que 56,9% deles passaram por abrigos quando crianças.

O pesquisador é autor do livro Os Filhos do Governo (Editora Ática) e personagem do próprio estudo. Abandonado pela mãe aos 5 anos, Silva viveu 11 na Febem (Fundação Estadual para o Bem-Estar do Menor) paulista. Quando saiu, entrou para o crime e amargou outros sete anos na Casa de Detenção. Ali, reencontrou colegas de orfanato e decidiu lutar contra o destino: livre, concluiu os supletivos de 1º e 2º grau, fez faculdade e virou estudioso do crime.

ADOÇÃO

O ECA estabelece que os abrigos sejam lugares provisórios, até que a família se recupere ou que o pátrio poder seja retirado e a criança, entregue para adoção. A prática e as estatísticas, no entanto, mostram outra realidade. Segundo pesquisa da Associação Terra dos Homens, do Rio de Janeiro, menos de 10% dos brasileiros inscritos para adotar aceitam levar para casa um menino ou menina com mais de 5 anos. Porém, a maioria das crianças já passou dos 7 quando chega ao abrigo.

As contas não se encaixam: enquanto faltam recém-nascidos para candidatos a pais, sobram meninos fora do perfil desejado. Nesta matemática desleal, a criança, que já teve a infância furtada, vê o futuro escorrer pelos dedos. Cada centímetro que cresce, cada noite que atravessa, faz diminuir a chance de encontrar uma família. E a morosidade do processo para restituição ou destituição do pátrio poder só agrava a situação, formando uma multidão de filhos de ninguém, órfãos de pais vivos, vítimas de um sistema estagnado que os entrega à própria sorte.

Nos casos de crianças com deficiência ou doentes, as oportunidades são ainda mais escassas: estão fadadas a viver e morrer em abrigos. Exemplos como o da atriz Angelina Jolie, que adotou um bebê etíope infectado pelo vírus HIV, são raros. “Em geral, essas crianças são muito mais difíceis de serem adotadas”, diz Ariel de Castro Alves, diretor-presidente da Fundação Criança de São Bernardo.

São os exemplos de Bruno, 9 anos, que pesava seis quilos  quando foi acolhido na entidade Caminhando para a Vida, em São Bernardo, e de seu colega Wellington, 10. O primeiro, rejeitado pelos pais, sofre de paralisia cerebral. O segundo é autista, apresenta queimaduras pelo corpo – marcas do dia em que a mãe ateou fogo em casa com os seis filhos dentro – e não pode ser abrigado junto com os  irmãos por ter necessidades especiais.

Para eles, os funcionários da instituição preenchem o vácuo deixado pela família. “Eles perguntam se podem chamar o Rodrigo (monitor) de pai e adoecem quando ele sai de férias. Se alguém vem brincar, eles ficam eufóricos e passam a semana inteira contando como foi”, diz a presidente da entidade, Fernanda Gabriela Bortoleto.

Na mesma casa, Gustavo, 14, chora de saudade do pai,  portador do vírus HIV. O Ministério da Saúde estima que haja 23 mil órfãos da Aids no Brasil. Outra pesquisa, encomendada pela Organização Internacional do Trabalho, aponta que metade desses brasileiros perdeu pelo menos um dos pais para a doença. E o índice tende a crescer no mundo todo. Dados do relatório Children on the Brink, divulgado em 2004 durante a 15ª Conferência Internacional de Aids, revelam que o vírus seria o principal responsável pelo crescimento do número de órfãos em todo o planeta.

NOVOS RUMOS

Reduzir o tempo de permanência dos menores em abrigos é um dos principais avanços implementados pela nova lei de adoção no Brasil, que entrou em vigor mês passado. De acordo com a legislação, crianças e adolescentes não podem permanecer em instituições de acolhimento por mais de dois anos, salvo por recomendação da Justiça. Os abrigos devem mandar relatórios semestrais para a autoridade judicial informando as condições de adoção ou de retorno à família dos menores sob sua tutela. E todos os abrigados passam a ter seus nomes incluídos no Cadastro Nacional, criado há dois anos. Antes, faziam parte da lista apenas os considerados aptos para ganhar nova família – leia-se saudáveis, física e psicologicamente.

Mamães-coragem

No filme Flordelis, basta uma palavra para mudar, dirigido por Marco Antonio Ferraz e Anderson Corrêa, atores do quilate de Alinne Moraes, Reynaldo Gianecchini, Cauã Reymond, Letícia Sabatella, Fernanda Lima e Ana Furtado interpretam a história real da ex-professora Flordelis dos Santos, moradora da favela do Jacarezinho, no Rio, que adotou 46 crianças e as criou junto de seus quatro filhos biológicos.

Em uma única noite, em 1994, depois de uma chacina na Central do Brasil, ela recolheu e levou para casa 37. Quatorze eram bebês, na faixa etária de um a três meses. Flordelis viu sua família crescer  literalmente da noite para o dia. Sem a documentação exigida pela Justiça para regularizar a situação das crianças, ela passou a ser perseguida e chegou a fugir com os filhos para não ser presa como sequestradora. Morou até na rua.

Hoje, sua história já pode ser conferida nas telas como exemplo de mãe-coragem. A trajetória comoveu tanto os atores que nenhum quis receber cachê para participar do longa. O lucro da bilheteria será investido no que atualmente é o maior sonho de Flordelis: ter uma casa própria para morar em paz com suas dezenas de filhos.

CLORY

No Grande ABC também não faltam histórias de pessoas que apostam na solidariedade para amenizar a solidão de quem carece de um lar. Em São Bernardo, a dinâmica Clory Fagundes Marques é a personificação da caridade. No auge de seus 92 anos, Mamãe Clory, como é conhecida, já assistiu mais de 1.000 pessoas em seu lar, situado no bairro
Assunção. Sabe o nome de todos, descansa pouco e faz questão de manter-se à frente de todas as atividades oferecidas pela casa. Que não são poucas: os serviços vão desde
creche para 160 crianças até aulas de computação e artesanato, setor de reciclagem para famílias carentes e abrigo de idosos com enfermagem 24 horas.

“Ela é a primeira a  levantar, a última a deitar e está sempre disposta a servir os outros. Não tem propriedades nem caderneta de poupança, mas faz questão de ver as pessoas bem, vivendo e reagindo. Sempre diz para os filhos: ‘A gente só caminha caminhando’. Com isso, vai plantando sementes de amor por onde passa. Hoje, tudo o que eu sou devo a ela, e procuro sempre seguir seus exemplos”, diz a professora Soely Gozzi, 63, uma de suas muitas filhas.

FAMÍLIA

Na Fazenda da Juta, um dos bairros mais pobres da divisa de Santo André com São Paulo, uma avó de 67 anos dá exemplo de valor à família. Seis anos atrás, sua filha Patrícia morreu de meningite, aos 28, deixando dez crianças sob seus cuidados. A caçula tinha apenas três meses de vida. A primogênita, 11 anos.

Separada do marido havia 15 anos, Roberta Maria da Silva – ou Vó Berta, como é chamada – viu seu mundo desmoronar. A aposentadoria mal pagava o leite dos pequenos, e sua outra filha, Carmem Lúcia Virgínia da Silva, então com 27, teve de deixar o emprego de recepcionista para ajudá-la a cuidar dos netos – seis deles órfãos também de pai.

“Muita gente apareceu na época se  oferecendo para levar as crianças, mas a gente não deixou. Minha irmã não ia querer que os filhos dela fossem separados. Família é tudo”, diz Carmem Lúcia.

O resultado do esforço aparece hoje estampado no sorriso, na educação e na união dos dez irmãos. Mesmo com a construção de mais um quarto, todos preferem dormir juntos, no mesmo colchão. Os mais velhos ajudam a cuidar dos mais novos. Nunca pedem brinquedos ou roupas caras. E estudo é palavra sagrada. Dos dois salários-mínimos de que tiram o sustento, R$ 70 vão para a perua escolar. No dia em que a reportagem visitou a casa, João Vitor, 11, estava de castigo: “A professora disse que ele matou uma aula”, justifica o tio diante do sorriso encabulado do garoto, que sonha em ser jogador de futebol.

As aspirações de cada um também refletem o espírito de solidariedade incutido dentro de casa. Jeniffer, 12, e Lohanna, 8, querem ser professoras: “Gosto de cuidar de crianças
pequenas”, diz a mais velha. Everton, 9, cultiva o sonho de ser veterinário. E Luís Roberto, 15, argumenta como gente grande na hora de defender a carreira que pretende seguir: “Quero ser médico para cuidar dos pobres”, diz, convicto. Já a abnegada tia é mais  modesta em seus anseios: “Deus tem sido muito bom com a gente. Só quero mesmo
terminar de construir a casa e que minha mãe fique melhor de saúde”.

A lista de Winton

Inglaterra, 1939. Mais de 100 crianças desembarcam na estação de Liverpool, vindas de Praga, na antiga Tchecoslováquia, com etiquetas de identificação presas ao pescoço. Elas não imaginam, mas nunca mais voltarão a ver seus pais. Todos eles morreriam nos campos de concentração nazistas.

Na plataforma, um britânico as espera ansioso. Seu nome? Nicholas Winton, responsável por salvar do Holocausto 669 filhos de tchecos, a maioria judeus. Foi ele quem providenciou as documentações, contatou as famílias que iriam adotá-las, levantou fundos para o transporte e depósito de 50 libras por criança, e organizou o comboio antes que as tropas alemãs ocupassem o país. Depois, saiu de cena. Permaneceu oculto por quase meio século. Não contou o bem feito a ninguém, nem mesmo à mulher, que, certo dia, ao arrumar o sótão de casa, descobriu por acaso um velho álbum com fotos, informações, cartas e nomes de cada uma das crianças salvas pelo marido.

O segredo vem a público quando o tabloide Sunday Mirror contou sua história. A partir de então, choveram homenagens: a rainha Elizabeth o condecorou no palácio; o presidente dos Estados Unidos lhe enviou uma carta elogiando a iniciativa; e o embaixador
da República Tcheca promoveu grande cerimônia de agradecimento na qual comparou a atuação de Winton com a de Oscar Schindler – industrial alemão que salvou mais de 1.000 judeus empregandoos em suas fábricas. Assim como Schindler, a história de  Wintonganhará as telas de cinema no ano que vem sob direção do eslovaco Matej Minac.

O momento mais emocionante, no entanto, ocorre quando a apresentadora Esther Rantzen o convida para assistir às gravações do seu programa de TV, That´s Life, sob o pretexto de prestigiá-la. Primeiro, ela anuncia diante das câmeras que a mulher sentada ao lado de Winton é uma das crianças que ele salvou. Surpreso, ele olha para o lado e a cumprimenta tímido. Depois, a apresentadora completa: “Quem na plateia teve a vida salva por Nicholas Winton fique de pé, por favor”. Mais uma vez, para a sua surpresa, todos no recinto se levantam, entre aplausos, lágrimas e palavras de agradecimento. “Não sou herói. Não fiz nada de perigoso. Apenas tentei algo que os outros achavam ser impossível”, declara, cheio de humildade.

Em setembro, o aniversário de 70 anos do começo da Segunda Guerra foi lembrado com uma viagem de trem entre Praga e Londres, refazendo o percurso dos antigos comboios de crianças. Nos vagões, descendentes e 22 dos chamados  Meninos de Winton, todos ávidos por apertar a mão deste autêntico Bom-Velhinho, que novamente os esperava na plataforma, ansioso, desta vez aos 100 anos de idade.
 
Do leito às telas

Hospital das Clínicas, 16 de novembro. Pensando na entrevista que iria fazer em instantes, observei o entra e sai de pacientes na porta do Instituto de Ortopedia e Traumatologia. Muletas, cadeiras de rodas, bengalas. Todos de passagem. Ou melhor, quase todos, porque as duas pessoas que eu aguardava para conhecer tinham histórias diferentes, para não dizer desconcertantes. Vítimas de um surto de poliomielite, Eliana Zagui, 35 anos, e Paulo Machado, 42, foram internados quando ainda eram bebês e nunca mais saíram de lá. São hoje os pacientes mais antigos do HC, e também os mais queridos.

Além do quarto, ambos compartilham o amor pelas telas. Ela pinta quadros com a precisão de um cirurgião. Suas reproduções de paisagens, natureza morta e motivos natalinos já foram expostas até na Suíça, e viraram cartões de Natal. Detalhe: tudo feito com a boca. Eliana é tetraplégica. Aprendeu a coordenar pincéis, canetas e lápis com os lábios para se comunicar com o mundo lá fora. E é com eles que deverá prestar Psicologia e concluir o livro que conta a história de sua vida no hospital.

Paulo é apaixonado por outros tipos de tela: é cinéfilo e rato de computador. Sua prateleira ao lado da cama é cheia de DVDs de ficção, drama e animação. Admira o vilão Darth Vader, de Guerra nas Estrelas, e já perdeu a conta de quantas vezes assistiu à trilogia de O Senhor dos Anéis. “Vi cada um deles umas 20 vezes no cinema.” Cinema? Isso mesmo: assim como Eliana, Paulo dá suas voltinhas na rua, mas o passeio não pode durar mais que dez horas. Tanto ele quanto ela dependem do respirador artificial para sobreviver, e da disponibilidade dos outros para sair. “O Natal a gente passa por aqui mesmo, vendo TV. Nenhum médico vai querer deixar sua família na noite do dia 24 para acompanhar a gente por aí”, explica resignado.

Seus parentes também não. A mãe de Paulo morreu logo após o seu nascimento e os pais de Eliana moram em Guariba, a 337 quilômetros de São Paulo. O jeito é fazer de voluntários, enfermeiros e pacientes uma família. Mas eles também estão de passagem. “Antes, éramos sete. Só que os outros cinco morreram. Foi uma mutilação para mim. Hoje, eu e o Paulo somos um a família do outro”, diz Eliana.

NA LUA

A paixão de Paulo pelas telas vem do berço. Lembra-se como se fosse hoje do dia em que o hospital parou para assistir à chegada de Neil Armstrong à Lua, em 1969. A TV lhe abriu as portas para o mundo e a internet se encarregou de escancará-las. Autodidata, ele conta que ganhou o primeiro computador em 1992, pifou três pelo caminho – “Mexia em tudo” – e acabou abraçando a profissão de webdesigner. Nos últimos anos, descobriu o mundo dos efeitos especiais e percebeu que poderia unir a habilidade com o mouse à fixação por cinema. Montou, então, um processador que pudesse rodar programas de computação gráfica e usou a internet para se comunicar com um de seus grandes ídolos no ofício: o cineasta brasileiro Carlos Saldanha, que aproveitou a vinda dos Estados Unidos, em julho, por conta do lançamento do filme A Era do Gelo, para visitar Paulo.

O cineasta não foi o único a se render à simpatia da dupla. Anos atrás, Paulo contatou o pai de Ayrton Senna: queria conhecer o piloto. “Falei com um médico que ia trabalhar em Interlagos. Escrevi uma carta e um mapinha com as posições das camas. Éramos sete na época.” A resposta só viria quatro meses depois: “De repente, ao meio-dia, duas enfermeiras entraram no quarto eufóricas dizendo que o Senna estaria aqui às 16h. Os segundos transformaram-se em horas. Quando chegou, ele estava com o mapa que eu havia desenhado na mão e veio direto me cumprimentar.

” Quando pergunto quem mais gostariam de conhecer, ele e Eliana são unânimes: “Marcos Pontes, o astronauta brasileiro!”. “Queria estar na pele dele”, completa Paulo. Talvez, pelo fascínio deixado por Armstrong. Talvez, pela vontade de desafiar a gravidade que os mantém atrelados a uma cama de hospital enquanto o pensamento voa longe.

‘Feliz ano-velho’

Enquanto crianças aguardam o Papai Noel ansiosas nas casas de acolhimento, idosos ficam angustiados com as lembranças dos que já se foram ou dos familiares que estão
vivos, mas preferem celebrar a data longe deles.

“Sinto depressão sempre que chega perto do Natal. Minha vontade é dormir no começo de dezembro e só acordar no Ano-Novo”, diz um ferramenteiro aposentado, 78 anos, que prefere não ser identificado. “Não quero que meu filho venha me ver só porque meu nome saiu na revista”, justifica.

A tristeza que sente no fim de ano é comum à maioria dos internos em asilos. “Nessa época, afloram as lembranças da família, dos amigos, dos tempos em que tinham saúde. E o que era para ser uma data festiva passa a se constituir num peso, num momento de grande amargura”, afirma o diretor vice-presidente do Lar Anália Franco, em São Caetano, Gilmar Talarico.

Para atenuar a angústia desses ‘maiores abandonados’, a instituição  promove festas, ceias de Natal e recebe grupos que, imbuídos do espírito natalino, visitam as 42 mulheres internadas levando presentes e o mais importante: ouvidos. “A maioria  delas quer conversar, ter atenção”, explica Gilmar.

Como toda mulher, elas gostam de tingir cabelos, se arrumar e cantar músicas dos tempos de mocidade. “Temos um grupo de voluntários que vem todos os sábados fazer as unhas das mãos e dos pés delas.” Outras particularidades, só revelam aos mais íntimos. A mais vivida da casa, Maria José da Conceição, 97, adora pastel de queijo e pão de torresmo. Já Maria Alice da Fonseca, 55, é apaixonada por CDs de música sertaneja. “São pequenas vontades que nós procuramos atender para que elas se sintam em casa, tenham dignidade.

” Quando os laços de afeto adquiridos ao longo de algumas visitas são desatados abruptamente, no entanto, a sensação de abandono pode ser ainda maior. “O idoso tem a autoconsciência, sabe que constitui um peso para a família e muitas vezes opta pelo asilo. Mesmo assim, sente-se rejeitado pelo fato de ser internado. Se a família não vem vêlo, sente-se abandonado pela segunda vez. E se cria afeto por um visitante que depois desaparece, é um terceiro golpe”, explica Gilmar.

José Vicente Gomes, 72 anos, do Lar Adolpho Bezerra de Menezes, em Ribeirão, tenta disfarçar, mas seus olhos ficam úmidos, as mãos tremem, ao lembrar que a enteada não aparece desde 2002. Sua colega Maria José Santana, 70, por sua vez, está há 15 anos na instituição sem receber uma visita sequer. Guarda tudo o que encontra como se pudesse juntar as peças do passado de que pouco recorda. “É muito comum o idoso guardar lixo, papéis, potes, pilhas usadas e até embalagem de sabonete como forma de se agarrar a alguma coisa, compensar a carência de afeto”, observa a psicóloga Camila Gomes das Neves.

Enquanto Maria José chora a morte do filho, os olhos de Isabela Almeida, 75, se enchem de lágrimas por nunca ter tido um. Durante duas noites, ela dormiu no chão de sua casa, imóvel, sem conseguir se mexer. “Só estou viva agora porque o padre do meu bairro entrou pelo vitrô e arrombou a porta com uma faca. Não tenho ninguém nesta vida.”

Sua companheira de quarto, Maria Alice, também não recebe visitas, mas sabe espantar a tristeza como ninguém. Cega há 12 anos e há dez no Anália Franco, ela compensa a escuridão da vista aguçando a audição com canções de sertanejo e MPB. “Gosto muito de cantar e de estar aqui.” Como o Assum Preto de Luiz Gonzaga, ela emociona a todos entoando versos que traduzem bem o sentimento de quem vive em um asilo: “Quem parte leva saudade de alguém que fica chorando de dor. Por isso não quero lembrar quando partiu meu grande amor...”

Separados pela lepra


“Fui ao médico com minha mulher e minha filha, de 3 anos. Eu tinha 26. O doutor disse: ‘Vixe! Fica pra lá que isso pega com o vento’. Meu casamento terminou naquela hora. Quando saí do consultório, a polícia já estava me esperando na porta. Só voltei a ver minha filha 30 anos depois.” Quem ouve o relato do aposentado Plínio Avelino da Silva, 79 anos, pode achar que se trata de um criminoso ou exilado político. Sua história, como a de tantos outros de sua época, é marcada por denúncias anônimas, fugas, perseguições policiais, confinamento e diáspora familiar. Seu único delito, no entanto, foi contrair um bacilo que existe e persiste desde a Antiguidade: a lepra. No fim do século 19, um surto da doença – rebatizada nos anos 1970 de hanseníase – aterrorizou a população de São Paulo, levando o governo a adotar medidas enérgicas de saúde pública. Uma delas foi a construção de 35 asilos-colônia em locais distantes da Capital.

Tratados como marginais,  os portadores da doença que não se apresentavam espontaneamente para o confinamento eram denunciados, capturados pela polícia sanitária, fichados pelo DPL (Departamento de Prevenção à Lepra) e internados à força. Nunca mais viam a família. Quem tentava fugir era punido com castigos e cadeia – sim, os leprosários também possuíam prisões, além de cinema, campo de futebol, prefeitura, lanchonete, escola, hospital, igrejas de todas as religiões e até cassinos. “O salão de festas chegou a receber cantores como Ângela Maria e Ney Matogrosso”, lembra Plínio. A atriz Sandra Bréa também morreu ali.

“Cheguei em 1937. Tentei fugir várias vezes, mas a polícia sempre me capturava. Quando consegui escapar deles, fui pra casa e vi que haviam queimado todas as minhas coisas. Não tinha mais nada, nem família, e ninguém queria me dar trabalho”, conta Deorande Musachi, 89 anos, que mora no asilo-colônia Santo Ângelo, hoje administrado pelo Hospital Dr. Arnaldo Pezzuti Cavalcanti, em Mogi das Cruzes.

Internado aos 14 anos, ele lembra com orgulho do dia em que os hansenianos fizeram uma ‘revolução’ para depor a diretoria do hospital. Na época, os doentes eram maltratados e transformados em cobaias de medicamentos. Quando uma criança nascia,era imediatamente levada por uma ambulância para fora dos muros.

A fase de confinamento durou até 1967, após descobrir-se que a doença, apesar de  infectocontagiosa, deixa de ser transmissível assim que o paciente inicia o tratamento – sem contar que 80% da população é geneticamente resistente ao bacilo.

Os portões foram, então, abertos. Vários saíram. Mas o preconceito e a falta de perspectivas fora dos muros os fizeram voltar: não tinham mais família nem para onde ir. Dos quase 3.000 hansenianos enclausurados em Santo Ângelo, 169 permanecem lá até hoje. Muitas casas foram demolidas na década de 1980, período de maior êxodo de confinados. À medida que eram desocupadas, as construções eram derrubadas para que não houvesse retorno.

As demolições só se encerraram em 1995, quando a Secretaria da Saúde reconheceu que o Estado tinha uma dívida social com os hansenianos, assegurando-lhes o usufruto da casa onde viviam ou vagas em enfermarias e pavilhões comunitários para os que têm necessidades especiais.

Benefícios como aposentadoria por invalidez, cesta básica e atendimento médico transformaram os exleprosários em paraísos se comparados com a miséria do mundo extramuros. E começam a atrair gente de fora. O sapateiro Edílson Honorato de Almeida, 52, especialista em calçados para pés deformados pela doença, casou-se há dez anos e trouxe a mulher para morar em Santo Ângelo com os três filhos. Plínio, por sua vez, casou-se com a enfermeira que um dia convidou para conhecer seu Fusca. Vive com ela e a neta em uma das casas. E Deorande recebe visitas da filha Silvana, de São Caetano, quase todos os fins de semana.

MARCAS DA EXCLUSÃO

A doença foi vencida. Mas as feridas abertas pelo preconceito permanecem abertas. Plínio chora sempre que lembra da filha mais velha, que passou 30 anos sem ver. No pavilhão dos sequelados, Dona Ana nina uma boneca como se fosse o bebê retirado de seus braços décadas atrás, logo após o parto. E o sapateiro Edílson lembra com mágoa do dia em que a diretora ameaçou expulsá-lo da escola, aos 9 anos, e dos primos que desviavam do seu rastro no seringal por medo de contrair a doença. Quando tentou fugir por uma noite para ir ao cinema, foi parar na cadeia. Marcas da exclusão que o tempo esqueceu de apagar.

Memórias de um hanseniano

Entre tantas histórias anônimas, a passagem de um escritor acabou despercebida pelos internos de Santo Ângelo. Autor de 40 livros, que venderam mais de 5 milhões de exemplares, Marcos Rey escondeu até a morte, em 1999, o motivo de seus dedos terem formato de garras. O segredo só veio à tona com o lançamento da biografia Maldição e Glória (Companhia das Letras; 248 páginas), do jornalista Carlos Maranhão.

Seu nome verdadeiro era Edmundo Donato. Capturado por agentes do DPL em 1941, aos 17 anos, ele perdeu os melhores anos da adolescência em leprosários, até fugir para o Rio de Janeiro e ser muito bem acolhido pelos boêmios da Lapa, que o inspiraram a escrever sua obra-prima: Memórias de um Gigolô.

A hanseníase deixou suas mãos parcialmente  imobilizadas, mas isso não o impediu de ser um exímio datilógrafo. De volta a São Paulo, foi roteirista de dezenas de filmes, séries e novelas nas TVs Globo, Excelsior e Record. Quando morreu, de câncer, a viúva espalhou suas cinzas sobre a cidade de São Paulo, de helicóptero.

 

Comentários

marisa
20/07/2010
Bom dia, gostaria muito de adotar uma criança ja estou cadastrada no CNA. o que devo fazer agora, sera q vcs nao podem me ajudar, com tantas crianças precisando de um lar, estou disponivel para amar muito o meu (@) filho...Obrigada me ajudem se possivel
Eilua
04/07/2010
Atraves dessas mensagens quem sabe posso encontrar minha irma que esteve internda em um orfanato na regiao de SP. Filha somente de meu pai ela foi registrada como Rosana Oliveira Alves. Já tentamos alguns contatos mais nao obtvermos resultados encontramos somente o cartorio em que meu outro irmao foi registrado mas. Ainda tenho esperança de encontra-los. Hoje meu pai ja está com idade avançada mais espero encontra-lo antes de eu ver meu pai partir, pois ele chora muito com a saudade
ROSANA LIMA OLIVEIRA ALVES
26/05/2010
na verdaade eu queria muito ser voluntaria em algum orfato de crianças pelo menos uma vez por semana
Claudia Elison
07/03/2010
A matéria mais verdadeira e emocionante, que li nos últimos anos

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