Vamos continuar nossa conversa sobre questões enviadas por leitores. A de hoje diz respeito a estes casos: “Os que aqui vivemos...” e “Os brasileiros somos punidos: pagamos impostos altos e recebemos serviços públicos péssimos...”. O que deixa em dúvida nossa leitora é a concordância verbal.
Não há problema algum nas formas verbais adotadas. Temos aí a ocorrência de “silepse”. O nome é meio complicado, mas o fato em si é mais ou menos simples. Quem diz ou escreve “Os que aqui vivemos...” opta pelo verbo na primeira pessoa do plural (“nós”) para deixar claro que se inclui no grupo dos que vivem aqui. Ocorre processo semelhante em “Os brasileiros somos punidos...”. Quem diz ou escreve a frase põe o verbo na primeira pessoa do plural para deixar claro que é brasileiro e é punido, paga imposto alto etc.
Ocorre silepse quando a concordância é feita com o sentido, com a ideia, e não com a forma expressa. Na segunda frase, por exemplo, a concordância não foi feita com “os brasileiros”, mas com o sentido, com a ideia que se quer enfatizar. É claro que teria sido possível empregar as formas “são” (“Os brasileiros são punidos...”) e “vivem” (“Os que aqui vivem...”). Com elas, no entanto, o enfoque mudaria completamente.
Nos exemplos que vimos, ocorre silepse de pessoa, já que se trocou a terceira pessoa do plural (de “brasileiros”) pela primeira (“nós”). Também pode haver silepse de número e de gênero. A de número ocorre quando se troca o singular pelo plural (ou vice-versa), como se vê neste exemplo: “A turma chegou cedo, mas, depois do aviso sobre o atraso do professor, desistiram de esperar e foram embora”. Nessa frase, as formas verbais “desistiram” e “foram” se referem ao termo “turma”, mas não concordam com a forma dessa palavra (singular), e sim com a ideia contida em seu significado (“alunos”, no caso).
No padrão formal da língua, essa alteração de concordância só ocorre quando há um certo distanciamento do verbo. Com o verbo ao lado do sujeito, nada de silepse (“A turma desistiram de esperar”, por exemplo, o que é comum em muitos registros orais brasileiros, mas não no padrão formal da língua).
A silepse é de gênero quando se troca o masculino pelo feminino (ou vice-versa). Em “São Paulo está assustada com a brutalidade”, o adjetivo “assustada” não concorda com “São Paulo”, nome de santo, masculino, mas com “cidade”, palavra que não foi dita ou escrita. O fato é que estamos tão acostumados com essa concordância que nem nos damos conta do processo que ocorre.
Até domingo. Um forte abraço.